PENA & LÁPIS


A nossa Diáspora na Califórnia:

Há que reconhecer, agradecer e construir

Por Diniz Borges
Sol Português

Em toda a parte a marca dos teus passos
– Pedro da Silveira, do poema Êxodo

Chegou o Outono, para trás ficou mais um Verão, a estação em que a Califórnia portuguesa, quase toda açoriana, realiza as inúmeras festas populares que preenchem o calendário social dos emigrantes, e dos luso-descendentes, em toda a parte deste estado, com celebrações que invocam desde o Espírito Santo à Senhora de Fátima.

Só que este não foi um Verão qualquer. Todos os festejos que marcam a nossa comunidade, particularmente a distinta e muito nossa açorianidade na Califórnia, onde vive a maior comunidade de origem portuguesa nos Estados Unidos – poderá ser diferente depois do censo de 2020 – foram cancelados. Foi um ano para a história, que certamente terá várias repercussões; algumas já em 2021, outras a longo prazo. A pandemia veio abrir os olhos, a muitas realidades que andávamos a camuflar, na esperança de um milagre que não aconteceu. Trouxe-nos o futuro que, no nosso íntimo, sabíamos ser inevitável.

Quem porventura tenha viajado pela Califórnia durante os meses de Maio a Outubro encontrou uma amálgama de festividades que celebram a nossa herança cultural mais popular: as festividades do Divino Espírito Santo, que os açorianos souberam trazer das suas ilhas. São, como se sabe, mais de 100 festas em todo o estado, que englobam os festejos dos denominados Santos Populares: São João, Santo António e São Pedro, para além das festividades de Nossa Senhora (de Fátima, da Assunção, dos Milagres e do Rosário), as quais predominam nas cidades de Gustine, Turlock, Thronton e Hilmar.

Com programas análogos, onde se destacam as tradicionais rainhas e os seus séquitos, a passagem pela igreja para a respectiva coroação, as "Grand Marchs" com os responsáveis pela festividade, as bandas de música, os carros alegóricos e, em algumas zonas, os bodos de leite, a cantoria ao desafio e a tourada, as "Festas", como são popularmente conhecidas – até mesmo nos meios da sociedade americana – são episódios marcantes das nossas vivências entre, mas em muitos casos já com, duas culturas e duas línguas.

Esta dualidade de portugueses salpicados com americanismos, ou de luso-americanos respingados com portuguesismos, está claramente patente nestes acontecimentos que juntam milhares de pessoas em franca confraternização e por enquanto ainda são os eventos mais marcantes da açorianidade na Califórnia.

São, essencialmente, eventos de cor e celebração popular. Embora ainda continue a acreditar que possamos enxertar pequenas doses da cultura erudita – i.e., feiras de livros e exposições, entre outras promoções – também creio que estes espaços devem crescer pelos seus próprios pés e nunca com um ou outro elemento a sobrepor-se. As festividades populares das nossas comunidades são um incitamento importantíssimo para a divulgação do nosso legado cultural. E acima de tudo, há que respeitar as suas particularidades e o dinamismo com que ainda conseguem aglomerar muita gente nas suas respectivas comunidades (se bem com decadência) e o espaço que conseguem captar nas páginas dos jornais americanos no seio das suas respectivas zonas, particularmente nas pequenas e médias cidades.

Daí que, e antes de voltarmos a sair para a rua com o colorido e a alegria destas nossas festividades, antes do começo do próximo Verão – 2021, se a pandemia assim o permitir – é importantíssimo que reflictamos na nossa identidade cultural, em todos os seus múltiplos aspectos. Que tenhamos oportunidade para ouvirmos alguns estudiosos e promotores da língua e cultura portuguesas, alguns dos nossos escritores, poetas, músicos e activistas culturais. É imperativo que continuemos com acontecimentos como o congresso da Luso-America Education Foundation (LAEF).

É que neste momento, e depois de outros congressos e colóquios terem ficado para a história, incluindo o simpósio Filamentos da Herança Atlântica que organizei em Tulare durante 12 anos, o congresso anual da LAEF é o único fórum onde podemos fortalecer os intercâmbios, aprofundar o diálogo entre os criadores e os críticos do mundo lusófono, dentro e fora das fronteiras dos países que compõem o mundo de língua portuguesa e culturas lusófonas. E acima de tudo reflectir a nossa presença no mundo californiano: pensar a comunidade e construir o futuro. É que independentemente do tema que o congresso terá nos próximos anos, deverá ter sempre um espaço dedicado à reflexão comunitária.

É que apesar de algumas festividades populares continuarem com a sua popularidade, nomeadamente em algumas cidades do Vale de São Joaquim, outras (a vasta maioria, infelizmente) têm decrescido, significativamente, e os congressos, simpósios e colóquios têm enfraquecido, em número de eventos e, definitivamente, em participantes. Há, pois, que regozijarmo-nos com o trabalho da LAEF, dos seus directores e das pessoas que nas diversas comunidades têm apoiado este congresso.

Há 45 anos que a LAEF promove um dos poucos congressos culturais das nossas comunidades na América do Norte – o único com continuidade ininterrupta há mais de quatro décadas. O trabalho desta organização, e dos seus mais próximos colaboradores, em aviventar um espaço onde se possa apresentar, estudar e reflectir, sem complexos e preconceitos, a nossa realidade de povo partido e repartido pelo mundo, tem sido edificativo. Todos os anos tem havido um fim-de-semana, numa universidade, num community college, numa escola secundária ou num centro comunitário, onde se ouve e com quem se reflecte a nossa realidade de emigrantes e luso-descendentes, onde se debatem assuntos pertinentes à comunidade, ao seu passado e ao seu futuro, onde se aprende com convidados ligados ao universo da criatividade e do estudo, de várias partes do mundo. Têm sido, na generalidade, momentos de aprendizagem e de camaradagem. Sai-se destes congressos mais ricos e com ímpeto para se trabalhar em prol de um amanhã que interligue todas as nossas vivências culturais, independentemente de onde estejamos a residir.

Se é certo que por vezes lamentamos a diminuta participação neste espaço, não é menos importante rememorarmos que sem este evento ficaríamos uma comunidade muito mais faminta. É, pois, essencial que unamos esforços para continuarmos a produzir acontecimentos como o congresso da LAEF. Não podemos deixar este evento ficar no rol do esquecimento. Há que trabalhar para que este burgo de estudo e de reflexão não só perdure, mas, e porque não (penso que não é pura utopia, será?) floresça. O formato usado este ano, imposto pela pandemia, online e em várias plataformas, poderá ser uma alternativa pelo menos ano sim, ano não. O mundo virtual veio trazer-nos outras possibilidades. Ainda bem que a LAEF teve a ousadia de modificar em vez de cancelar.

Poder-se-á dizer que é extremamente mais fácil falar-se – e neste caso, escrever-se – do que fazer-se. Sem dúvida que continuar com este acontecimento, quer presencial, quer virtual, numa comunidade mais americana do que portuguesa, é um trabalho que requererá uma imaginação monumental. Mas também há que dizer que o trabalho da LAEF tem de ser reconhecido, acompanhado e alimentado para que não fiquemos sem este espaço único de intercâmbio intelectual, de reflexão comunitária.

Dentro das nossas comunidades temos hoje muitos mais professores, em todos os níveis do ensino, e muitos mais homens e mulheres com formação académica do que tínhamos há quatro décadas. Daí ser imperativo estimulá-los a pertencerem e a organizarem eventos desta natureza. Há que laborar no sentido de não só perseverarmos estes fóruns culturais, mas também de os robustecer. E em Portugal, as entidades têm de consciencializar-se (no arquipélago dos Açores felizmente já o compreendem há anos), que a execução destes acontecimentos nas diversas unidades de ensino são, e continuarão a ser por muitos anos, independentemente do formato e das plataformas, um dos melhores instrumentos de disseminar a língua e cultura portuguesas para além dos tradicionais espaços circunspectos e clausurados que permanecem no seio de algumas das nossas comunidades e no cimo de uma torre de marfim de alguns líderes nacionais.

Em género de desfecho, entendo que há uma palavra de gratidão para com a Luso-American Education Foundation, os seus directores (actuais e antecessores) e colaboradores, que ao longo de quatro décadas e meia têm contribuído imenso para a concretização destes fóruns culturais onde se aprende e se cultiva a especificidade de ser-se açoriano, português e lusófono dentro e fora das fronteiras dessas regiões e países de língua portuguesa. Espaços que servem para que as comunidades se conheçam e para que do outro lado do atlântico, quem queria estar atento, conheça a comunidade.

Há também que apelar a todas as nossas organizações culturais, que reflictam no mérito destes acontecimentos que podem não influir toneladas de gente, que não são geradores de grandes receitas económicas (pelo contrário), mas são absolutamente necessários para o crescimento de comunidades que não querem ficar estáticas, nem eternamente encravadas entre dois mundos e duas línguas, mas querem sim conglomerar elementos desses dois mundos, dessas duas línguas, criando a sua própria mitologia dentro do cosmos norte-americano e com ligações culturais, intelectuais e afectivas à terra de onde vieram ou de onde vieram os seus antepassados.

A comunidade tem um futuro promissor, dentro da nova realidade californiana, se acreditar em si própria, nos seus talentos e se quiser, sem interferências centralistas, traçar o seu futuro. Sei que é bom ouvir-se palavras simpáticas dos poderes centralistas, mas só as deveríamos aceitar quando acompanhadas de acções concretas e benéficas para a comunidade.

Concluo com as palavras que o saudoso Manuel Reis disse na abertura do décimo primeiro congresso em Oakland e que Vamberto Freitas registou numa das suas crónicas para o Diário de Notícias: "estes encontros continuam a ser extremamente importantes. Os nossos convidados de longe descobrirão sempre o interesse e o valor do nosso mundo. A nossa cultura será sempre uma presença cá, mas temos de lutar por isso".

Na realidade a luta continua, redobrada nestes tempos sem precedentes e extremamente consequentes. Acredito que venceremos, porque acredito na comunidade.


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