PENA & LÁPIS


Correspondente de Portugal:

As Nossas Descobertas Tardias

Por Hélio B. Lopes
Sol Português

Somos, indiscutivelmente, o País do choradinho. Invariavelmente, queremos o que não temos. Se num dado momento exaltamos com a chegada da novidade, num ápice a deitamos ao cesto das velharias. E então quando se olha lá longe, de pronto se julga encontrar o verdadeiro Norte, a autêntica novidade, a realidade há tanto desejada e assim também procurada. E desta vez, julga-se, não se trata de uma miragem, antes da tão esperada chegada de D. Sebastião. O problema, como tão bem se conhece, é o day after...

Vem tudo isto a propósito de José Adelino Maltez, académico ilustre e maçom assumido com coragem, que não voltei a encontrar nas nossas televisões desde um já antigo diálogo com Maria de Fátima Bonifácio, que nem tinha ali razão mas ganhou, como tão bem recordo de há uns anos. Além do mais, se tivesse que escolher, sempre preferiria aquele à segunda.

Mas aí nos surgiu o José Adelino, o que logo me levou a exclamar, num quiosque aqui próximo de minha casa, para a senhora que o gere e para minha mulher: caramba, deve estar para chegar uma intempérie... temos aqui uma nuvem cinzenta... E, em boa verdade, lá estava a confirmação da minha reacção falada, com estas palavras do académico: "foi um erro diminuir o presidencialismo na Constituição e o papel dos militares". Novidade! Novidade absoluta!! Mesmo novidade superlativa absoluta analítica!!!

Há muito não via surgir a ideia caudilhista do presidencialismo. E então no tempo que passa, perante a experiência de Trump, Bolsonaro, Orban, Polónia, Macron, e tantos outros por países cada dia em maior número, vir com esta do presidencialismo, cheira, indubitavelmente, a um regresso adaptado a um neo-estadonovismo. Ou a um neo-franquismo. No fundo, a um neo-caudilhismo. A diversidade democrática, para mais para um maçom, parece ter deixado de possuir valia. Melhor é seguir o exemplo trumpiano, com os eleitores em maioria a votarem democrata num Estado dirigido por republicanos, com estes a votarem Trump, no Colégio Eleitoral, porque os dirigentes estaduais sabem mais que a massa anónima.

Mas a capa do jornal explicava logo que o académico acha que para corresponder à confiança popular, o Presidente da República devia ter mais poderes. No fundo, para José Adelino Maltez, já não basta presidir e governar, mesmo influenciar os parlamentares – é o que se dá com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa – porque o regime é demasiado parlamentarizado. E então, explica tudo isto: às vezes não basta a pedagogia, é preciso chamar os governos à pedra e dar umas reguadas. Seria interessante consultar Júlio Machado Vaz sobre se esta referência às reguadas traduz alguma marca política mais profunda, já para lá da mera e funda análise política. Reguadas...

Esta entrevista de José Adelino Maltez é deveras interessante, porque ela mostra como os portugueses não poderão nunca esperar muito dos seus mais referentes intelectuais. Perante uma dificuldade, mais alheia que a nossa, o que propõem é a receita de sempre: rotura caudilhista. Encontrámos isto com Pulido Valente, com Maria de Fátima Bonifácio, com António Barreto e com mil e um outros que sempre disseram do caudilhismo o que os muçulmanos não dizem do toucinho. O que era mau passou a bom, e o bom tornou-se mau. Sendo uma realidade cultural muito portuguesa, quando assenta arraiais nos designados intelectuais, em geral sem responsabilidade que não a de escrever textos e criticar, o resultado costuma tender, ao menos assintoticamente, para... uma ditadura.

Portanto, caro leitor, convém ir estando atento à chegada de nuvens cinzentas.


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