PENA & LÁPIS


Debate presidencial nos Estados Unidos

Por Inácio Natividade
Sol Português

Para quem assistiu ao debate presidencial americano na televisão, a conclusão é que este frustrou as expectativas. Não houve civismo digno de um debate presidencial… apenas destilar de ódios, maledicências e mentiras….

Se alguém é admirador de Trump e gosta do estilo feroz, bom de prosa, divisionário e provocador, pode ter ficado satisfeito, mas terá ficado mortificado pelo comportamento anti-ético, indigno e ordinário.

Joe Biden, ao invés de provocar, foi mordaz e conciso, consequentemente eficaz no lidar com a tormenta personalizada por um adversário cuja estratégia consistia em açambarcar o tempo de antena para os seus botões.

Chris Wallace, o moderador, foi incapaz de controlar um Trump enraivecido na ânsia de nocautear o adversário político. No debate há muito aguardado, quem teve um comportamento presidencial não foi o incumbente da Casa Branca, mas Joe Biden.

No seu estilo calmo, Biden foi respondendo às provocações do inquilino da Casa Branca, até ao arrebitar do nariz numa atitude desafiadora:

"Alguém cala este palhaço? E logo de seguida, quando se sentiu interrompido, disparou: – "Shut-up man!"

Trump calou-se, resmungando cobras e lagartos, mas enfiou o rabo entre as pernas.

O presidente estava mesmo assustador. Seria já o reflexo da doença?

Biden tinha milhentas razões para se sentir exasperado. O Presidente deveria respeitar as regras e ter respeito pelo momento, mas para Donald Trump a ética não vale um voto.

Ao longo do debate foi abalroando o moderador que, ao sentir-se incomodado, foi replicando: – "Senhor presidente, tenha calma!"

Uma vergonha. O comportamento de Donald Trump no debate eleitoral televisivo foi de todo um espectáculo indigno para um Presidente ou governante de qualquer país que fosse. Parecia mais um chefe rufia de supremacistas brancos encurralado ao aperceber-se que estava sem saída.

A América que admirávamos parecia uma democracia segura e exemplar, mas a chegada de Donald Trump, com a sua gestão presidencial populista, munido de retórica anti-democrática, dá sinais fascizantes de inquietação e estabilidade sócio-política e económica. A estabilidade emocional parece ter deixado de existir, enquanto quadrantes antagónicos se preparam para o pior.

Animados do discurso presidencial, grupos de supremacistas brancos foram abandonando os covis, onde a globalização os colocara, e hoje sentem-se protagonistas do debate político, enquanto os verdadeiros democratas se sentem incomodados.

Durante o debate foi perguntado ao Presidente se condena um polémico grupo denominado Proud Boys, acusado de ser constituído por supremacistas brancos.

Em resposta Trump, apenas respondeu "stand back, stand-by". Ou seja, recuem, mas estejam a postos.

Proud Boys é considerado um grupo racista que acredita que o homem branco e a cultura ocidental estão em risco de serem subjugados pela imigração e pelo feminismo. Defendem que murros e pontapés são meios necessários para impor o seu ideal e já se envolveram em várias cenas de pancadaria desde a sua fundação, em finais de 2016.

Trump racista? Nem podia ser outra coisa. Um homem branco, rico, sarnoso, aldrabão, sem escrúpulos e sem cultura democrática… O percurso assumido não deixa dúvidas. Sempre me convenci que o populismo de Trump resulta da fusão ideológica entre sectores mais radicais tradicionais da América, com a visão racista herdada e cultivada na sua própria família de imigrantes alemães.

Trump apenas se preocupa em ganhar dinheiro, não se sentir um perdedor e não ir para a cadeia. Foi também por isso que se apressou a nomear uma juíza ultra-conservadora para o Supremo Tribunal.

Donald Trump e a mulher com Covid-19

Enquanto escrevia esta nota, chegou a notícia de que Donald Trump e a esposa, Melania, testaram positivo ao vírus corona e que o Presidente foi levado ao hospital. Isso demonstra que o vírus não distingue entre ricos e pobres, entre gente poderosa ou sem- abrigo, e que, ao contrário de Donald Trump, não deve ser subestimado por ninguém.

No hospital, Donald Trump teve um tratamento médico como nenhum outro na América, afinal ele é o Presidente. Embora isso não signifique que esteja livre de perigo, certamente não terá o mesmo destino fatal dos 210.000 infelizes no seu país cujas famílias ficaram sem os seus entes queridos.

Trump forçou a saída do hospital para a Casa Branca, onde irá continuar um tratamento de choque contra a infecção pulmonar. Entre os medicamentos prescritos pelos médicos, está o antiviral Redemsiver, recomendado a doentes em estado avançado da doença e internados nos hospitais. Este medicamento não cura nem diminui a letalidade, mas diminui o tempo de hospitalização hospitalar.

Trump continua a desvalorizar a pandemia. A poucos dias das eleições, no seu estilo populista irá tentar tudo por tudo para alterar o status quo e, com a Covid-19 nos olhos, irá usar a sua sobrevivência física como arma de arremesso contra o adversário político e galvanizar ainda mais os seus correligionários.

Mal chegou à Casa Branca, meio titubeante, tem vindo a doutrinar falsamente que o vírus corona é menos perigoso do que a gripe sazonal.

A América merece muito melhor do que este populista barato e as suas encenações bizarras. A eleição de 3 de Novembro deve ser uma das mais polarizadas da história, com pouca gente a mudar de lado.


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