REPORTAGEM: Covid-19: Sem dinheiro para comida
ou sabão, brasileiros temem coronavírus nas favelas
Por Carolina de Ré
Agência Lusa
Os moradores das grandes favelas na metrópole brasileira de São Paulo já lutam contra a crise
económica que acompanha a disseminação do novo coronavírus e dizem ter dificuldade para comprar comida e
produtos básicos de higiene como sabão.
Em Heliópolis e Paraisópolis, a covid-19 tornou-se num novo obstáculo para os cerca de 320 mil
moradores que já lutavam por sobreviver nas maiores favelas da maior cidade brasileira, com problemas estruturais
de exclusão social, segurança e pobreza.
O filho de Andreia Paula da Silva, moradora de Paraisópolis, perdeu o emprego num cabeleireiro,
depois de as autoridades terem decretado a paralisação das actividades não essenciais. Agora, a família vive com
a pequena pensão estatal porque a mãe é deficiente visual.
"Meu filho é cabeleireiro e não está conseguindo clientes agora. Na verdade, ganhávamos
também vendendo bebidas, cigarros e doces. [O dinheiro] não está dando e este mês não vou conseguir pagar
minhas contas", disse Andreia Paula da Silva.
Além da preocupação com o dinheiro, a moradora contou que tem medo da pandemia, apesar de
muitos dos seus vizinhos não acreditarem que podem ficar infectados.
"Tenho uma vizinha que está com sintomas de coronavírus. Estou com medo porque estamos
vendo vários casos aqui em Paraisópolis", frisou a moradora que se tornou voluntária de uma associação que
realiza acções de cuidados que inclui recolha de doações e distribuição de comida até a contratação de
ambulâncias próprias para atender doentes dentro da favela.
Uma sondagem chamada "Coronavírus nas favelas", divulgada na semana passada pelo Data
Favela, indicou que 72% dos morares destas comunidades não conseguiram manter o padrão de rendimento
depois das cidades e estados terem decretado o fim dos serviços não essenciais.
O levantamento realizou 1.142 entrevistas em 262 favelas de todos os estados do Brasil e descobriu
que 86% dos moradores destas comunidades acreditam que não terão dinheiro para comprar comida e outros
itens básicos.
Em Heliópolis, maior favela de São Paulo, a situação é a mesma. O relato geral dos moradores é de
falta de dinheiro, medo e dependência em relação à acção das organizações sociais que, sem apoio do poder
público, organizam iniciativas para tentar impedir que a doença se espalhe na comunidade.
Maria Helena da Silva, moradora da favela há 40 anos, não sai de casa para evitar o vírus: "Só sei
que esta doença está matando o povo todo que está pegando e a gente não pode mais sair de dentro de casa.
Eu não saio de dentro de casa porque minha filha não me deixa sair. Não estou gostando disso não. Aqui
em Heliópolis todo mundo está tendo cuidado porque a doença que veio não é boa para ninguém".
A moradora, que tem cancro, explicou que o pequeno bar onde sua família obtinha dinheiro
para sobreviver estava aberto, mas os clientes quase não existem.
Maria Helena da Silva foi uma das contempladas com doações de papel higiénico, sabonete, sabão
em pós e outros itens de higiene distribuídos pela Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas).
Já o cantor José Carlos Santos Sabino, também morador de Heliópolis, fez questão de mencionar
a importância de aumentar cuidados pessoais para prevenir a infecção do novo coronavírus logo depois
de receber os produtos de higiene distribuídos pela Unas.
"Eu acho que o pessoal, o público em geral, tem que se proteger dessa doença que está afetando
todo mundo. Aqui a maioria não acredita, tem que usar máscara, se proteger e se cuidar", avisou.
Mas, na favela, com casas apertadas, num imenso mar de habitações precárias, a exclusão social é
outra doença."O Governo está aí, vê o lado dele e [o da] gente aqui, da comunidade não. O lado deles é [de]
quem tem dinheiro, e a gente não tem [dinheiro] para se proteger", concluiu Sabino.
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