1ª PÁGINA


Senhor Bom Jesus da Pedra:

Culto originário de Vila Franca do Campo mobiliza fiéis de todas as origens

Por Jonathan Costa
Sol Português

No último fim-de-semana realizaram-se em Toronto as Festas do Senhor Bom Jesus da Pedra, que levaram centenas de pessoas à paróquia de Santa Inês para comparticiparem nas celebrações.

Estas festividades, que se realizam anualmente, têm como objectivo enaltecer e agradecer ao padroeiro da cidade de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel – Açores, e representam uma tradição que chegou ao Canadá trazida pelos imigrantes do arquipélago mas que abrange actualmente não só elementos da diáspora açoriana como da comunidade portuguesa em geral.

"Temos aqui pessoas das ilhas, do continente, esta é uma tradição que toca a muitos portugueses. Temos pessoas que vêm de Brampton, Mississauga, de bem longe, para poderem vir participar connosco. É de facto lindíssimo ver estas ruas cheias de gente, de sorrisos, é para isto que trabalhamos tão arduamente", salientou José Luís Tavares, presidente da Comissão de Festas do Senhor da Pedra e da Comissão do Espírito Santo da igreja de Santa Inês.

"Se não me engano, já realizamos estas festas em Toronto desde 1974 ou 1975. Nesses tempos as festas cresceram rapidamente; apenas haviam duas paróquias (a de Santa Inês e a de Santo Cristo) e a comunidade portuguesa continuava a concentrar-se cada vez mais nesta área".

"Recordo-me das grandes celebrações que fazíamos no Trinity-Bellwoods Park e de termos a ajuda de 70 pessoas ou mais na organização de cada ano. Hoje em dia é muito diferente. Temos cerca de 15 a 20 pessoas que nos ajudam e desde que as festividades saíram do Trinity-Bellwoods que notamos maiores dificuldades. Mas trabalhamos todos e damos o nosso melhor a cada ano para mantermos esta tradição viva na nossa comunidade", destacou.

As festas deste ano tiveram início durante o dia de sábado (4), com a realização de uma missa solene conduzida pelo pastor Mebonou Hervé Gbedey, que embora natural do Congo, na África, adoptou a língua portuguesa nos seus tempos como missionário no Brasil.

Após o período de preces, realizou-se um arraial na quadra da igreja, que contou com as actuações musicais dos jovens luso-canadianos Brad Martin e Victoria Raimundo, seguidos por Mário Marinho e Henrik Cipriano, veteranos artistas da comunidade.

A música e o baile prolongaram-se até às 22h00, altura em que se deram por encerradas as celebrações, até ao dia seguinte.

A comunidade voltou a reunir-se nesta paróquia no domingo (5), para a realização de mais uma missa solene, cerca das 13h00, conduzida novamente pelo pastor Mebonou Gbedey.

Após a cerimónia, deu-se então início à famosa procissão do Senhor da Pedra, que teve início cerca das 15h00 e percorreu a Dundas Street West, assim como a Grace Street, Henderson Avenue, Clinton Street, Mansfield Avenue e Bellwoods Avenue, ruas adjacentes à igreja de Santa Inês.

Centenas de pessoas caminharam, rezaram e celebraram o santo padroeiro, num desfile acompanhado pelas bandas Lira de Brampton e Lira de Nossa Senhora de Fátima e que resultou num corte momentâneo ao trânsito nestas ruas, assim como numa das faixas da Dundas Street West, para protecção do público.

"É sempre um prazer enorme poder aqui caminhar com os meus irmãos e irmãs, em nome do Senhor da Pedra. Acho importante celebrarmos esta tradição e ensiná-la aos mais jovens para que eles a possam continuar quando nós, mais velhos, já não pudermos participar. Fico sempre com o coração cheio de ver estas ruas cheias de gente, com tantos sorrisos. Já aqui venho há 20 anos e enquanto puder serão muitos mais", afirmou Manuel Alves, um dos participantes na procissão.

Vários elementos da paróquia carregaram imagens de Nossa Senhora de Fátima, Jesus Cristo e do Senhor da Pedra, esta última uma réplica da famosa imagem presente na procissão da Misericórdia de Vila Franca do Campo, em São Miguel, e que, reza a lenda, deu inexplicavelmente à costa numa caixa de madeira sem que se soubesse a sua origem ou destinatário.

O público acenava e demonstrava toda a sua devoção à sua passagem, assim como o seu carinho para com as várias crianças que desfilavam vestidas de anjo, criando momentos de grande ternura.

Após a chegada da procissão à igreja, todos se encaminharam para o salão de festas para uma refeição e refrescos, já que o calor que se fez sentir ao longo do dia não facilitou a caminhada, especialmente para quem carregava os andores com as imagens ou os pesados instrumentos musicais.

As mesas estavam cheias, assim como os pratos onde se destacavam vitela e batata assada, acompanhados de vegetais, enquanto água, sumo e cerveja refrescavam as gargantas que se preparavam para o arraial que se aproximava.

"É muito trabalho organizar este evento, servir tantas pessoas, mas fazemos isto por gosto. Queremos manter as nossas tradições vivas, mas para isso precisamos da ajuda de todos. Acredito que apenas perdemos tradições porque queremos, porque não lutamos por elas. Sinto uma felicidade enorme de ver toda esta gente nesta nossa casa", afirmou Paulo Terceira, vice-presidente da Comissão de Festas do Senhor da Pedra.

"Enfrentámos algumas dificuldades há uns anos, mas graças a Deus notamos um novo crescimento e as festas estão-se a erguer novamente. Deixo um convite a todos que ainda não participaram, acreditem que vale a pena", incitou.

Após a refeição, todos se dirigiram à quadra da igreja para o arraial que, com início por volta das 17h30, incluiu muita música, baile e festa.

A Banda Lira de Brampton foi quem abriu as festividades ao tocar os hinos canadiano e português, cantados em coro pelo público, prosseguindo depois com temas tradicionais portugueses.

A banda foi seguida pelos mesmos artistas que tinham actuado no dia anterior, que animaram e tiraram várias pessoas dos seus lugares para bailarem e partilharem momentos de alegria até ao encerramento das festividades, cerca das 22h00.

O brilho que emanava da fachada principal da igreja, iluminada por centenas de luzes, criaram um clima espectacular, propício para mais uma grande noite de Verão ao ar livre e em festa.

"Deixo o meu convite a todos para participarem nestas festividades no ano que se aproxima. Temos aqui um russo, canadianos, italianos... Este convite não se estende apenas à comunidade portuguesa mas a todos"; acentuou José Luís Tavares.

Esta casa é vossa também, venham fazer parte destas celebrações das nossas tradições, da nossa cultura, da nossa identidade portuguesa. As nossas portas estão sempre abertas", concluiu.


Voltar a Sol Português