1ª PÁGINA


Cantar os Reis e as Janeiras:

Grupos levam alegria da quadra às empresas e colectividades lusas com cantares tradicionais

Por João Vicente
Sol Português

Dependendo da designação regional, a tradição portuguesa de cantar os Reis, as Janeiras ou d'O Menino Mija reveste-se de um misto de contornos religiosos e seculares que tem como elemento comum a constituição de grupos de cantadores populares que, assentes numa base de música tradicional, vão de porta-em-porta entoando quadras alusivas à época.

Embora geralmente relacionadas com o Natal, com os Reis Magos, com a época festiva em geral ou com o Ano Novo, são também comuns os versos de traços mais humorísticos, que lançam amigáveis farpas verbais de homens para mulheres e vice-versa, dispensam críticas sociais ou simplesmente relatam anedotas destinadas a divertir quem assiste.

Os grupos oferecem divertimento e os seus anfitriões, por sua vez, prendam-nos com petiscos e a oferta de produtos que podem depois leiloar para bem das suas colectividades, numa relação simbiótica que a todos satisfaz e que também deste lado do Atlântico tem vindo a ser reproduzida há algumas décadas por várias colectividades que desta forma declaram o seu agradecimento aos patrocinadores e amigos que os apoiam ao longo do ano.

No passado domingo (5) registou-se o 30.º aniversário desde que o centro comunitário Casa dos Poveiros de Toronto tomou a iniciativa de recriar no Canadá esta secular tradição, conhecida na zona da Póvoa de Varzim por "Cantar dos Reis".

Foi Laurentino Esteves, há muito ligado à colectividade poveira, quem em 1989 lançou a semente que, com base nos costumes da sua terra natal, viria a dar continuidade a esta tradição em Toronto.

Como nos conta, a tradição – tal como a conheceu na sua aldeia situada no concelho da Póvoa de Varzim – consistia de um grupo constituído apenas por homens e assim a recriou cá, pelo menos inicialmente, pautando pela fidelidade às origens e sem qualquer intenção de discriminar.

Anos mais tarde, também as senhoras da colectividade demonstraram interesse em integrar estas festividades pelo que prontamente foram incorporadas as cantadeiras do rancho, vindo a juntar-se-lhes há cerca de duas décadas a actual presidente da Casa dos Poveiros, Linda Correia.

Segundo a dirigente, esta – tal como outras tradições do género – tenderá a desaparecer a não ser que se lhe dê continuidade, por isso considera "bonito ensinar e mostrar à juventude o que se passava noutros tempos", ainda que, no mesmo fôlego, lamente a falta de aderência dos mais novos a esta prática.

Ao longo dos anos várias outras colectividades e agrupamentos musicais têm vindo a aderir à tradição, injectando as suas variantes regionais, como é o caso do grupo folclórico da Casa dos Açores do Ontário, Pérolas do Atlântico, que começou nestas andanças há seis anos e que na manhã de sábado (4), pelas 8h00 da manhã, já estava a postos para prendar a padaria e pastelaria Doce Minho e os seus clientes com a sua interpretação desta tradição.

Conhecida nos Açores como O Menino Mija – "mais popular nas ilhas de São Miguel, Terceira e Faial", como elucida o líder e porta-voz do grupo, Matthew Correia – estas canções populares começaram a escutar-se deste lado do Atlântico no limiar da década de `90

Segundo Matthew Correia, a iniciativa foi do agrupamento designado por Caravana Açores, "do senhor António Tabico", que terá sido o pioneiro da versão açoriana desta tradição.

Entretanto, o fundador dos Pérolas do Atlântico, Chris Freitas, tomou a iniciativa de reatar a tradição em 2014, ao reconhecer a lacuna entretanto originada pela cessação da Caravana Açores e o falecimento de António Tabico.

A falta de transmissão da tradição de um grupo para o outro implicou algum esforço por parte dos Pérolas do Atlântico, que foram à procura das modas que hoje cantam e que, através das suas pesquisas, estabeleceram contactos também com outros grupos folclóricos dos Açores que lhes passaram algumas das suas letras.

Uma das espectadoras que assistiu à actuação do grupo na padaria Doce Minho, Elizabete Torres, natural de Apúlia, viria a confessar à nossa reportagem que embora fosse pequenina e não se recordasse bem do que presenciou em Portugal – "memórias poucas, mas alegrias muitas", nas sua palavras – foi "uma alegria" deparar-se com esta surpresa logo pela manhã.

"Adorei", disse-nos com emoção pois "foi diferente" e levou-a a recordar "os velhos tempos" e "os pais que nos explicavam estas coisas".

Quanto à proprietária, Alexandrina Araújo, diz-nos ter chegado "a andar pelas portas a cantar" e afirma que desde que abriram este estabelecimento, há 20 anos, que têm recebido a visita anual destes grupos de cantares pois, como nos explica: assim "sinto que estou na minha terra".

Após uma passagem pela estação de rádio CHIN, os Pérolas do Atlântico visitaram depois a Salsicharia Pavão, estabelecimento que serve a comunidade há mais de duas décadas e onde, na ausência dos proprietários, entretiveram os funcionários e clientes durante cerca de meia hora.

Miguel Chaves, natural do concelho da Povoação, nos Açores, não se recorda desta tradição na sua terra natal mas reconhece ser "muito bonita", acrescentando que "é uma boa tradição para manter o nosso povo sempre alegre" e uma iniciativa pela qual congratulou a Casa dos Açores.

Já Zulmira Lima, de São Miguel e há 48 anos no Canadá, lembra-se de assistir a este costume na sua terra e também ela acha tudo isto "muito bonito".

É no norte de Portugal que esta tradição tem raízes mais fortes e a minhota Connie Amorim confessa guardar ainda vivas memórias pois, como nos conta, "mesmo criança adorava aquilo".

Para ela, assistir à actuação do grupo açoriano ajudou-a a matar saudades pois "é uma música que fica sempre dentro de nós, o folclore, e estas tradições nunca esquecem", adiantando que "até os meus filhos que nasceram cá gostam disto".

A poucos metros dali, também o estabelecimento A Lota foi palco para uma visita deste agrupamento de cantares tradicionais à açoriana e o seu gerente, Tony Rita, recebeu os cantadores com entusiasmo e alegria, proporcionando-lhes um beberete no final da actuação.

Mesmo depois de saírem, Tony Rita ainda cantarolava uma das músicas enquanto ia continuando a sua lida.

Maria Olinda Moniz não escondeu a sua satisfação ao deparar-se com esta surpresa n'A Lota e fez questão de o expressar a Matthew Correia e de prestar o seu testemunho também ao jornal Sol Português.

A cliente, que nos disse que em Portugal "gostava muito" e que o marido "ia cantar também aos reis", entrou para fazer compras mas ainda não tinha acabado quando se deparou com aquela actuação que confessou ter apreciado muito.

Entretanto, e continuando a sua ronda, também a firma Macedo Winery acolheu os Pérolas do Atlântico da melhor forma, com o calor e simpatia que são reconhecidos aos seus proprietários, e o grupo de cantares mais uma vez deliciou não só os anfitriões como os funcionários e clientes que por lá passaram na altura.

A próxima paragem dos Pérolas do Atlântico foi o Talho e Salsicharia Rui Gomes, onde desde logo a actuação gerou bastante interesse, até porque o grupo já entrou a cantar acompanhado das palmas ritmadas das funcionárias à caixa e dos clientes que ali se encontravam.

Uma vez no interior do estabelecimento o ambiente só viria a aquecer ainda mais, tornando-se quase num arraial em que o próprio proprietário participou de uma ou duas danças.

Nesse longo dia de actuações, que se prolongou por mais de 12 horas, os Pérolas do Atlântico viriam ainda a passar pela Newport, firma importadora não só de marisco e de peixe mas também de queijos e outros produtos alimentícios portugueses.

O proprietário, José Cerqueira, natural de Ponte da Barca, não só não perde pitada da actuação dos grupos que passam pelo seu estabelecimento como grava tudo em vídeo para poder depois rever, e agora que tem um segundo netinho está ainda mais consciente da importância da preservação e da transmissão destes costumes.

"Isto torna-se bonito porque é uma cultura nossa, de raiz portuguesa", adiantou José Cerqueira à nossa reportagem, fazendo votos de que "continue, porque faz parte da nossa cultura, da nossa natureza, e tudo o que faz parte da cultura de um país como o nosso, acho que não devemos deixar acabar porque é uma coisa bonita e devemos mantê-la o máximo que pudermos", afirmou.

No local, Jeanette Joanes e Ben Willoughby, que entraram na loja a meio da actuação, gostaram do que viram e ouviram.

Foi a primeira vez que o casal – ela originária de Goa e ele da Austrália – entrou naquele estabelecimento mas já ambos visitaram Portugal e declararam-se apreciadores de fado, por isso esta foi uma experiência em cheio.

"Foi muito agradável", afirmou Jeanette, que considerou "maravilhoso entrar e sermos surpreendidos pela celebração, porque já ouvíamos a música ao entrar e não tínhamos a certeza se estaríamos a interromper uma festa", concluiu com uma gargalhada.

Outro casal que nos confessou tencionar visitar Portugal este Verão – Artan e Mirela Batku, naturais da Albânia – estava claramente a apreciar o espectáculo e o marido não só batia o pé ao ritmo da música como chegou até a dançar enquanto ia examinando os produtos expostos na loja.

Segundo Artan, as culturas e as culinárias portuguesa e albanesa têm parecenças e na sua terra natal também fazem algo semelhante nesta época, só que em vez de irem de porta-em-porta são eventos de cariz mais comunitário, que se realizam em praça pública.

Para o madeirense Francisco Pita, que também lá se encontrava, todo aquele espectáculo "é fantástico, é bonito e gostaria que continuasse" a realizar-se, disse à nossa reportagem.

Embora indique não ter conhecimento deste costume na sua região, por isso o seu primeiro contacto com os Cantares dos Reis foi aqui, diz-nos gostar muito, salientando que já no dia anterior tinha tido a alegria de assistir a outro grupo de cantares que por ali passou e que cantou até o tradicional "Bailinho da Madeira".

Já longo, o dia dos Pérolas do Atlântico ainda se esticou mais, incluindo uma visita a Georgetown, antes de concluir com uma actuação no Graciosa Community Centre, uma vez de volta a Toronto.

Este não foi porém o único grupo de cantadores com um calendário bem preenchido e só nos momentos em que os seus elementos apreciavam o farto repasto que lhes foi oferecido na Newport passavam também por lá os Estrelas do Norte e a Rusga da Associação Cultural do Minho de Toronto.

Também os poveiros não se deixaram ficar atrás, visitando, além das empresas já referidas, vários dos estabelecimentos da rede de padarias e pastelarias Caldense em diferentes dias.

No sábado (4) a contemplada foi a Caldense da rua Symington, no domingo (5) a visita foi à da rua Eglinton e na segunda-feira (6) foi o regresso às origens ao cantarem no estabelecimento onde originalmente cantaram os Reis pela primeira vez, há 30 anos, na primeira Caldense situada na rua Dundas, no coração da comunidade portuguesa.

Por onde quer que passem estes grupos, há sempre um ou mais telemóveis a gravar as suas actuações, mas é entre os idosos e as crianças que melhor se avalia o impacto destas intervenções.

Exemplo disso foi o que assistimos na padaria e pastelaria Caldense na Eglinton onde uma pequenita de 4 anos, Chloe Costa, que ali estava na companhia dos avós, não só ficou cativada pelo espectáculo como deu largas à sua alegria numa demonstração exuberante de dança e de palmas que durou praticamente do princípio ao fim da actuação.

Tal como acontece com todas as actuações nos estabelecimentos Caldense, no final foi distribuído vinho do Porto e bolo Rei, não só pelos cantadores e cantadeiras como também pelos clientes que se encontravam presentes.

Na ausência de Hélder Costa, foi o seu irmão e sócio, Joe, quem se encarregou de passar a bandeja com os cálices de Porto, dizendo em declarações ao jornal Sol Português que já que "não podemos estar" em Portugal, "vem Portugal cá e mantém a tradição".

Esta é, a seu ver "uma grande influência" que importa preservar "especialmente quando se vêm as crianças a dançar e a brincar", ressalvou.

Esta cena viria a repetir-se na noite seguinte na Caldense da Dundas, onde os funcionários Ricardo Oliveira e David Moreira fizeram as honras da casa.

Laurentino Esteves, que afirma estar "sempre disposto a ir para a festa" apesar da saúde nem sempre ajudar e já ter tido que faltar um ano a estas actuações por estar hospitalizado, está confiante que esta é uma tradição que vai continuar, com ou sem ele.

Indagando sobre o significado que têm para si estes 30 anos desde que deu o pontapé de saída a esta iniciativa, o dirigente poveiro manifesta-se simultaneamente "orgulhoso" e "feliz"

"Além de orgulhoso, sinto-me feliz porque é uma coisa de que eu gosto", diz-nos com um brilho no olhar, e afirma que ainda que o grupo possa ter de actuar sem ele, a diversidade dos elementos, oriundos de várias regiões, é uma mais-valia.

"E se não formos nós, felizmente vários grupos na comunidade também se juntaram a esta tradição, portanto mesmo que os poveiros por qualquer razão não possam continuar, há vários grupos que não vão certamente deixar esta tradição morrer; sinto-me feliz com isso", afirmou.

Fazendo jus à sua fama de promotores da tradição, os poveiros têm continuado a cantar os Reis durante toda a semana, desta feita em casas particulares de apoiantes e amigos da colectividade, e só darão por concluídas as actuações deste ano durante a Festa dos Reis que amanhã, sábado (11), realizam na sua sede.


Voltar a Sol Português