PENA & LÁPIS


Folhetim:

Crime Passional - Capítulo V

Por Jorge Moreira Leonardo

Sol Português

Em simultâneo com a investigação do crime decorria uma operação montada pela Polícia Judiciária a fim de apurar as causas do súbito crescimento do narcotráfico na ilha, de que resultou a prisão preventiva de três indivíduos de idades compreendidas entre os 25 e 40 anos.

Num dia em que um dos traficantes recebeu a visita da irmã, viu uma advogada que já fora sua oficiosa a falar com um indivíduo que, segundo lhe contou um presidiário – daqueles que conhecem tudo quanto se passa dentro e fora da prisão – foi constituído arguido pela morte de um cunhado, mas que continuava reclamando a sua inocência.

– "Tudo começou", disse o presidiário, "por um telefonema anónimo que a esposa recebeu, em que alguém tinha visto o marido contratando um indivíduo para matar o irmão. A advogada que viste a falar com ele é a filha."

Na hora de recreio do dia seguinte, o traficante dirigiu-se ao presumível assassino e disse-lhe que com a maior urgência possível a filha solicitasse autorização para falar ao prisioneiro, João da Silva Nunes.

– "Porque há-de a minha filha falar consigo?"

– "Bem sei que a palavra de um criminoso como eu vale de pouco. Mas asseguro-lhe que não se vão arrepender."

Dois dias depois, o traficante foi conduzido a um pequeno gabinete onde já se encontrava a advogada, que o reconheceu.

– "Por aqui, outra vez? O que pretendes?" – Disse com alguma indiferença.

– "Se eu contribuir para que não se cometa um grave erro jurídico, beneficiarei de algum perdão?"

– "É provável! Tal seja o erro. Mas já não te designaram um advogado oficioso? Ou esperas de mim um pró bono?"

– "Não, senhora dr.ª! Penso pagar-lhe um preço de um "valor" que a sr.ª nunca recebeu na sua vida."

Após alguma pausa causada pela surpresa, a advogada perguntou:

– "E que preço é esse?"

– "A inocência de seu pai", afirmou.

– "O quê"?!!!" – quase gritou. "Tens consciência do que estás afirmando".

– "Não só consciência, como a prova. Não consta do processo um telefonema anónimo?"

– "Pois consta", confirmou.

– "Pois esse telefonema é fictício e fui eu que o fiz a pedido de alguém". E retirando de um dos bolsos um papel, mostrou-o à advogada e perguntou-lhe:

– "Não estão aí os termos do telefonema? Não sou bruxo, pois não?"

– "E és capaz de identificar a pessoa?"

– "Se o vir sou! E isso faz-me recear que a dr.ª vai confrontar-se com um cruel dilema: ao conseguir a absolvição do seu pai, vai revelar a cumplicidade de sua mãe."

– "Ela não é minha mãe. A minha mãe morreu quando eu tinha três anos. Aliás, nunca nos demos bem."

– "Óptimo! Sempre será menos penoso."

– "Conta-me toda a história."

Começou, então:

– "Eu tinha saído da cadeia na véspera e estava sem dinheiro e sem saber o que fazer à minha vida. Apareceu-me um sujeito que me oferecia 100 euros para eu dizer ao telefone exactamente o que estava aí escrito e que se tratava de uma brincadeira. Calculei logo que se tratava de algo grave, mas francamente não estava em condições de rejeitar aquele dinheiro, viesse ele de Deus ou do diabo. Aliás, não corria nenhum risco. Ele apontou-me uma cabine telefónica, afastou-se e recomendou-me que mandasse o papel para o lixo."

– "E porque o guardaste?"

– "A dr.ª sabe, no meu negócio também há momentos de crise!"

– "Extorsão, não?"

Ele sorriu, mas não respondeu.

– "Estás disposto a repetir tudo o que disseste aqui, perante o inspector da Judiciária?"

– "Totalmente", respondeu.

– "Voltarei em breve. Independentemente do resultado, obrigado. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que sejas compensado."

(continua na próxima edição)


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