PENA & LÁPIS


Açorianos de berço*

Da diáspora açoriana e do relacionamento transatlântico

"Mas a saudade necessária:

apenas quatro sílabas de compromisso."

– Vasco Pereira da Costa in My Californian Friends

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Por Diniz Borges

Sol Português

Os Açores sempre estiveram interligados com as Américas. Há vários séculos que vivemos num arrojado namoro com o continente norte-americano. Hoje, nos Estados Unidos, possuímos uma amálgama de comunidades que são, acima de tudo, uma extensão e a grande amplitude dos Açores em terras do Novo Mundo.

O espírito açoriano está bem vivo na nossa diáspora. Quer na região, quer na república – particularmente na república – há que entender que a Base das Lajes e a diáspora de origem açoriana nos EUA são uma mais-valia para os Açores e para Portugal. É a base do nosso diálogo transatlântico.

Não se pode entender o imaginário açoriano sem os seus filhos, e os filhos dos seus filhos, além arquipélago. Falar desta região, do seu espaço no mundo, é falar-se também daqueles que um dia, por necessidades económicas, motivados por um outro tempo (que queremos que sempre pertença ao passado) tiveram de abandonar tudo o que lhes era significativo e, corajosamente, construir nova vida em outras terras. Daí que, tal como seja extremamente laborioso percorrer-se os Estados Unidos sem encontrar-se vestígios da nossa presença neste Novo Mundo, também será impossível encontrar-se um açoriano com raízes nestas ilhas que não tenha um parente na América.

É imperativo que quem nas ilhas reside tenha a consciência do nosso passado peregrino e dos contributos que a emigração deu a esta região. Sem a emigração não seríamos o mesmo povo, nem a mesma cultura.

Entenda-se estas ilhas não só como espaço único que são, privilegiado pela paz que raramente se encontra em outras partes de um planeta cada vez mais competitivo e mais agressivo, mas também como uma região que tem uma riquíssima identidade cultural extremamente marcada pelos constantes saltos dos seus filhos para terras a oeste.

O imaginário açoriano é extraordinariamente mais rico porque também estamos plantados em outros mundos. É que a ida para a Europa é uma realidade bastante nova. Parafraseando Mário Machado Fraião, num dos seus belos poemas: "a casa tinha uma porta que dava para a América", acrescentando: "uma pesada porta que dava para a América".

Na literatura, na música, nas artes plásticas e cénicas, enfim, em todos os aspectos do mundo artístico, sem o qual não se pode compreender estas ilhas, lá estão as referências, as vivências o imaginário, enfim: o peso da América. Talvez tenha mesmo pesado em demasia que agora a queiramos esquecer. Mas é esse peso que ainda hoje enche os aviões da SATA. Há, pois, que cuidar desse legado, e desse vínculo que ainda é sentido no outro lado do mar. Se não o fizermos, com ferramentas do século XXI e com a consciência clara de que as comunidades já mudaram e continuam a mudar, podemos perder ainda mais uma geração.

Não deixemos que o tempo passe para que depois as futuras gerações vivam com o lirismo de açorianos com mais de 200 anos, que na realidade não enchem aviões, nem contribuem para uma economia robusta e associada aos movimentos progressistas que são importantes para quem vive no arquipélago.

É um erro pensar-se que haverá sempre uma ligação aos primos da América. Temos muitos exemplos de que se a diáspora não for cuidada, os primos jamais se conhecerão. Se não houver a ligação cultural e afectiva, dificilmente virá a económica. Temos vários casos que solidificam essa premissa. Já Pedro da Silveira, cujo centenário celebramos, o escrevera: "— primos dispersos / parentes / entre si ignorados."

Hoje, como já se sabe, e já disse demasiadas vezes sem querermos ouvir ou entender, a diáspora nos Estados Unidos é composta por homens e mulheres oriundos destas ilhas que vivem o seu americanismo e o seu açorianismo sem uma saudade sofrida e penada. Os espaços físicos e culturais que os emigrantes e os seus descendentes souberam construir são alongamentos de um povo que sempre soube ajuizar a sua universalidade. Olhemos e cuidemos desse legado.

Ainda há dias dizia a um amigo meu o que em tempos idos (nos primeiros anos deste século) já havia dito a um governante deste arquipélago: aceitemos a açorianidade que há mais de um século tem sido construída em terras americanas. Na Califórnia por exemplo, embora não oficialmente, temos pelo menos 80 Casas dos Açores porque cada irmandade do Espírito Santo é uma Casa dos Açores. E apesar de tudo, são essas irmandades que ainda congregam jovens e fazem a ponte com o mundo americano. Há que partir para a tradição com inovação porque as novas gerações ainda têm, parafraseando Pedro da Silveira, "a ilha dentro de si".

A nossa diáspora não cessa com a geração emigrante. Estaríamos muito pobres se assim fosse. A diáspora só o é com as segundas, terceiras e até quartas gerações, que podem não falar a nossa língua, mas falam a nossa linguagem e, acima de tudo, ainda têm o sangue telúrico desta ilha nas veias, arquitectando, em terras americanas as nossas novas comunidades: uma diáspora integrada e contribuindo para a região em vários sectores. Uma diáspora que não começa nem acaba com bailarico e o 10 de Junho. Está, como todos queremos, assimilada.

Porém, há que entender que uma diáspora mais integrada não significa que tenhamos uma diáspora menos portuguesa, e particularmente menos açoriana. É uma diáspora que com a assimilação contribui imenso para os Estados Unidos e simultaneamente coadjuva para a disseminação dos nossos valores culturais dentro do mundo americano.

A metamorfose que vivemos na diáspora dos EUA é saudável e desejável. Não tenhamos receio de a compreender. Já o poeta Sam Pereira o escreveu no poema, "No voo de retorno do que já foi um navio": "Se não fosse o robalo / numa memória desbotada / Eu nunca teria começado / Esta jornada para o ninho." Há um trabalho a fazer para que se liguem os acor-descendentes ao ninho, e jamais poderá ser com "velhos navegantes solitários", citando de novo Mário Machado Fraião.

Presentemente, nas nossas vivências a oeste, há homens e mulheres que têm contribuído descomunalmente para a sociedade estadunidense. No mundo americano estão não só os milhares de trabalhadores ordeiros e respeitosos, epítetos preferidos com que outrora nos descreviam, como os políticos, os escritores, os professores, os médicos, os pesquisadores, os académicos, os jornalistas, os músicos, os pintores, os advogados, os empresários de sucesso, enfim, uma amálgama de gente que, embora a milhares de quilómetros de distância, insiste em viver e sentir os Açores.

Gente que cada vez mais, felizmente, também faz, a sua peregrinação a estas ilhas paradisíacas, vivendo a alegria das festas e a hospitalidade dos seus familiares e amigos, mas também aproveitando os novos Açores e o que há para ser, ver e viver, algo que precisa chegar com outra consistência ao mundo que habitam no seu quotidiano. Gente que sabe que é importante descobrir e nutrir as suas origens. Gente que, embora à distância, vive e contribui, quotidianamente, para enobrecer a sua terra de origem ou a terra dos seus antepassados.

Neste ano em que as portas das viagens da América voltam com a nova normalidade, é importante relembrarmos que a diáspora pode estar fisicamente distante, mas cultural e afectivamente, mesmo nas segundas e sucessivas gerações, sempre estiveram próximas e comungam dos mesmos valores culturais que nos definem como povo em qualquer parte do mundo.

*de um poema de Pedro da Silveira


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