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Canadá/Covid-19: Terceira dose de vacina "provavelmente desnecessária" para maioria da população

Cerca de 30.000 novas infecções e 126 óbitos são os valores que marcam a propagação da pandemia de Covid-19 no Canadá na última semana, um aumento significativo face aos números que se registavam escassos sete dias antes (22.500 e 102, respectivamente), e já de si em escalada desde o início de Agosto.

Na sexta-feira (3) a directora dos serviços de saúde do Canadá, dra. Theresa Tam, advertiu o público de que o país está a caminho de novas máximas no número de infectados se a propagação do vírus não for travada, citando os mais recentes modelos estatísticos que prevêem a evolução da pandemia.

Numa conferência de imprensa convocada na véspera do início do fim-de-semana, que seria prolongado pelo feriado do Dia do Trabalhador, a porta-voz dos serviços de saúde dirigiu-se especificamente às camadas mais jovens da população para destacar a "necessidade urgente" de se vacinarem.

De acordo com o Departamento de Saúde Pública do Canadá, embora 84 por cento da população tenha sido inoculada com pelo menos uma dose de imunizante, as percentagens variam de região para região, com Alberta e Saskatchewan a registarem valores mais baixos, em torno dos 78 e 76 por cento, respectivamente.

Contudo são os números de vacinados com ambas as doses que mais contam para travar o progresso da pandemia, de acordo com a médica, e também aqui há significativas diferenças, sobretudo entre diferentes escalões etários.

Os mais idosos são os que apresentam maior percentagem de vacinados, decaindo este valor progressivamente, com 82 por cento dos que estão na casa dos 40 anos totalmente inoculados, mas apenas 77 por cento dos que estão nos seus 30's, e 74 por cento dos que têm entre 18 e 29 anos de idade.

São, segundo a dra. Theresa Tam, os mais jovens "que continuam a apresentar o maior índice de infecções", em parte porque são os que mais contactos têm com pessoas para além do seu agregado familiar, seja por motivos de trabalho ou de convívio.

Com o número de hospitalizações diárias a duplicar desde 30 de Julho, a propagação da infecção no período de Julho a Agosto foi 12 vez maior entre a população não vacinada do que entre os que estão vacinados, enquanto que a taxa de internamento foi 36 vezes maior no primeiro grupo.

Segundo o Departamento de Saúde, há ainda 5,2 milhões de pessoas que embora se qualifiquem para receber a vacina não o fizeram e 2.5 milhões que estão apenas parcialmente imunizadas.

Com o fim do Verão e o regresso das crianças às aulas, a dra. Theresa Tam incentiva a população a limitar o número de contactos a um mínimo absoluto para evitar o contágio.

"Este não é o momento certo para nos juntarmos em grande grupos, com pessoas que não fazem parte do nosso agregado familiar", advertiu.

Apesar das previsões, a médica considera ser ainda possível travar a propagação da pandemia e manter o número de infecções a níveis inferiores aos que se registaram durante a terceira vaga.

Para isso, é preciso que as medidas de saúde pública – incluindo maior número de vacinações – consigam reduzir os níveis de transmissão em 25 por cento, o que levaria as máximas da actual vaga a estabilizarem, ficando aquém dos valores atingidos anteriormente.

No Ontário, as autoridades de saúde mostram-se também preocupadas com a propagação da doença, que continua a registar aumentos semanais, tendo já ultrapassado por várias vezes os 800 casos diários.

A maioria das infecções ocorre na Área da Grande Toronto e nas regiões de Peel, York e Durham, seguidas de Windsor-Essex, Otava e Hamilton.

Com cerca de 30.000 testes de despistagem realizados diariamente, a taxa de positividade é actualmente superior a 3 por cento e o número de hospitalizações continua igualmente a aumentar.

No final da última semana havia mais de 320 pessoas hospitalizadas devido à Covid-19, mas destas apenas 34 estavam devidamente vacinadas, enquanto que 292 não tinham recebido a primeira ou a segunda dose de imunizante.

Os modelos que prevêem a propagação da pandemia no Ontário alertam para um "aumento substancial", podendo o número de casos, no pior dos cenários, atingir 9.000 por dia em Outubro, se a população não limitar os seus contactos ao agregado familiar.

Um modelo menos pessimista estima que uma redução no número de contactos durante as próximas semanas, na ordem dos 30 por cento, poderia resultar numa redução no número de infecções para menos de 500 por dia.

As variantes do vírus continuam a ser motivo de preocupação, com várias estirpes activas no Ontário, incluindo a Delta, designada por B.1.617, que já infectou mais de 11.300 pessoas na província.

Com mais de 20,8 milhões de doses administradas, o governo do Ontário anunciou que há actualmente 10 milhões de pessoas devidamente vacinadas, numa população estimada em 14,8 milhões.

Entretanto, os peritos parecem hesitantes em sugerir o reforço da vacina para a maioria da população e sugerem que a terceira dose de imunizante seja limitada a grupos específicos

Embora vários países estejam já a administrar doses de reforço face à perigosidade da variante Delta do coronavírus, o Canadá não tem ainda uma estratégia a esse respeito e vários médicos dizer ser ainda cedo para determinar a necessidade de recorrer a uma terceira dose para a população em geral.

Segundo o dr. Rodney Russell, professor de imunologia e virologia na Universidade Memorial, na Terra Nova, não há ainda um consenso em torno da questão nem tão pouco informações suficientes para adequadamente ponderar uma decisão a esse respeito.

O que parece certo é que o sistema imunitário dos idosos e de pessoas em grupos de risco tende a ter uma capacidade de resposta aos imunizantes que é mais fraca do que o do resto da população, algo que acontece com todas as vacinas e não apenas com a da Covid-19, segundo explica.

"Há anos que sabemos que os idosos não respondem bem às vacinas", diz o especialista, que acrescenta não haver informações suficientes se a suplementação com mais doses será necessária para reforçar a sua protecção.

Por sua vez, Charlene Chu, professora assistente na Universidade de Toronto, adianta que não há ainda indicações do impacto que uma terceira dose teria na população em geral, incluindo nos mais jovens.

Contudo, em breve os peritos poderão contar com mais dados, provenientes de países como Israel, onde os maiores de 30 anos podem já receber doses de reforço e onde uma quarta dose está prevista ser permitida em breve.

Apesar disso, o dr. Rodney Russell ressalva que se desconhece ainda o nível de anti-corpos que é necessário atingir para conseguir imunidade à doença.

O grau de conhecimento da comunidade científica a respeito da capacidade das vacinas prevenirem a doença é hoje melhor do que nunca, estimando-se protegerem entre 60 a 70 por cento dos vacinados de contraírem a doença e 90 por cento de sofrerem complicações de maior ou necessitarem de ser hospitalizados.

Segundo ele, "uma vez que as vacinas não previnem a infecção em todos os inoculados, o objectivo é dar-lhes alguma imunidade para os ajudar a combater" o vírus, evitando assim maiores complicações.

Ontário, Quebeque e Alberta indicaram já que irão reforçar a vacinação de imunodeprimidos, pessoas cujo sistema auto-imunitário não funciona correctamente e que por isso constituem um dos principais grupos de risco.

A questão das doses de reforço é, no entanto, um assunto contencioso já que muitos países pobres estão ainda a tentar obter vacinas para administrarem a primeira dose às suas populações.

"Foram administradas em todo o mundo mais de 4.000 milhões de doses de vacina, 80 por cento das quais em países de médio e alto rendimento", refere Charlene Chu, que cita dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), acrescentando que "novas variantes vão continuar a surgir vindas destas regiões do globo se não corrigirmos esta iniquidade".

A OMS pediu recentemente um moratório na administração de doses de reforço para dar uma oportunidade aos países mais pobres de obterem imunizante para as suas campanhas de vacinação.


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