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Deputada eleita pelo distrito com maior concentração de portugueses no Canadá embarca em digressão à descoberta de Portugal

Por Fátima Martins
Sol Português

A deputada Julie Dzerowicz representa o distrito com maior concentração de portugueses no Canada, Davenport, um pitoresco bairro de Toronto onde está também situado um grande número de associações e clubes lusófonos.

No intuito de melhor conhecer este importante segmento do seu eleitorado, desde que em 2015 assumiu funções no Parlamento que a política tem mantido uma presença quase constante nas principais festas e actividades da comunidade portuguesa, além de ter assumido funções também como vice-presidente do Grupo de Amizade Parlamentar Canadá-Portugal.

Agora, a meio do seu mandato, vai mergulhar no seu mais aprofundado estudo das raízes portuguesas através de uma ambiciosa viagem que ao longo de um mês a levará a percorrer mais de uma dezena de locais no continente e ilhas.

Embora o itinerário final esteja ainda por completar e seja fluído por forma a poder aproveitar oportunidades que venham a surgir, a partida está agendada para este fim-de-semana e levá-la-á a São Miguel e Terceira no período de 14 a 20 de Agosto, seguindo-se Porto, Braga e Viana do Castelo, de 21 a 26, continuando depois por Lamego, Viseu, Coimbra e Fátima – onde pretende visitar também a região de Pedrógão, castigada pelos incêndios.

A zona da Nazaré e Peniche deverá recebê-la no início de Setembro e de 6 a 10 desse mês conta estar na região de Lisboa.

É uma agenda ambiciosa e sobre isso falámos com a popular política que, apesar de não ter descendência portuguesa, tem mantido uma íntima ligação com a comunidade lusa desde o primeiro dia.

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Sol Português – Porquê ir a Portugal, porquê todos estes sítios e porquê agora?

Julie Dzerowicz – Já fui uma vez a Portugal. Fui a Lisboa e visitei amigos, há muitos anos. Mas, agora, visto que tenho o privilégio de ser a deputada eleita para representar a maior comunidade de portugueses no país, e também porque recebi vários convites de pessoas que têm vindo de visita ao Canadá ao longo dos anos, decidi ir a Portugal durante um mês numa visita que é em parte de trabalho mas que vai ser no seu todo um prazer. Quero dizer com isso que vou desfrutar de todos os momentos, mas tenho cerca de 14 sítios para visitar, por isso vai ser um período bastante movimentado, mas que me vai dar uma perspectiva muito melhor sobre Portugal, as diferentes regiões de onde vêm os luso-canadianos e uma compreensão bastante melhor dos assuntos-chave.

Porquê agora? Porque passados dois anos estou mais ou menos a meio do meu mandato e mais tarde não vou ter oportunidade de tirar um mês para fazer isto, por isso esta é a melhor altura e estou empolgada.

É uma viagem que não é paga pelo governo. É algo que é importante para mim, como deputada, e por isso tenho o maior prazer em cobrir eu própria essas despesas e acho importante que assim seja. Não quero que as pessoas pensem que são os contribuintes que vão pagar por isto.

Eu não lhes chamaria umas simples férias, mas uma boa oportunidade de viajar durante um mês num país lindo e também uma oportunidade de melhorar o meu português. Já instalei uma aplicação no meu iPad e comecei a praticar o meu português, porque estou determinada a melhorá-lo no próximo mês quando lá estiver. O meu sotaque é bastante bom mas gostava de aumentar o vocabulário e ser capaz de dizer algo mais além das palavras básicas e espero continuar com as lições quando voltar.

SP – Disse-nos que recebeu uma série de convites e que vai tentar cobrir a maior parte do território português nesta visita. Fale-nos um pouco sobre o itinerário. Da última vez que conversámos referiu que ia começar pelos Açores mas estava com dificuldade em planear a saída da ilha do Pico.

JD – É verdade, estava "encalhada" no Pico (diz com uma gargalhada), por isso sou capaz de acabar por não ir. Estou na lista de cancelamentos. Se conseguir lá ir, nem que seja por 24 horas, gostaria de o fazer. Muitas das pessoas da área onde moro, perto da igreja de Santa Helena, são do Pico e há anos que me andam a convidar a visitar [a ilha]. Tenho tido muita sorte pois nestes últimos anos nunca tive problemas a marcar voos à última hora – a vida de um político é assim: marcações de última hora. Mas parece que se for ao Pico tenho de lá ficar uma semana, o que para a maioria das pessoas seria como estar no céu, mas para mim, que tenho mais de uma dezena de outros sítios aonde ir, ia-me alterar o itinerário todo, por isso a esta altura parece que não vou conseguir lá ir. Mas estou com esperança de adicionar Évora à minha viagem porque não tinha nenhuma paragem no Alentejo. Quando se fecha uma porta, abre-se outra...

SP – Fale-nos então das suas paragens nos Açores. Vai a São Miguel e à Terceira, mas parece que o Pico está fora de questão neste momento, talvez noutra altura?

JD – De certeza noutra altura. Há nove ilhas e se pudesse escolher, Pico e Graciosa fariam parte da minha lista. Escolhi as ilhas de onde são a maioria dos residentes de Davenport, mas outra [ilha] onde gostaria de ir é ao Faial – Pico, Graciosa e Faial.

A maioria [dos açorianos que residem em Davenport] são de São Miguel e muitos da Terceira e é por isso que essas estão no topo da minha lista, mas se pudesse ficar lá mais uma semana sem dúvida o faria.

SP – Que locais gostaria de visitar em São Miguel e na Terceira?

JD – É engraçado que quando decorrem as semanas culturais anuais em vários dos clubes e associações eu vou pesquisar todos estes locais magníficos, quer sejam locais históricos ou com significado cultural em cada uma das ilhas, por isso há muitos lugares diferentes e o meu itinerário ainda vai ser mais pormenorizado na semana que vem, em termos de locais específicos, mas como vou estar com historiadores e pessoas locais e adoro história, locais com significado cultural e comida, as minhas instruções para todos eles são de me levarem a áreas de grande significado para os portugueses nas suas respectivas comunidades. Quero planear o máximo com as pessoas locais porque são quem melhor sabe. Vamos acertar os detalhes do itinerário para a semana mas não tenho dúvida que vou visitar os locais mais populares.

SP – A nível pessoal, tem uma lista de locais que gostaria de conhecer?

JD – Quem me dera que tivesse lido os meus discursos porque cada um deles diz algo como "São Miguel é conhecida por isto ou por aquilo", mas não tenho essa lista. Por isso vou ver aquilo por que cada um desses locais é conhecido e o que é que os residentes da área mais estimam. Isso vai dar-me uma ideia muito melhor não só da comunidade açoriana mas também das outras regiões do continente, desde o Minho às Beiras e ao Alentejo. Não vou ao Algarve porque para ser sincera nunca conheci ninguém que me tenha dito que é de lá. As pessoas dizem-me que têm lá casa ou que vão lá de férias mas, pelo menos na área de Davenport, nunca ninguém me disse que é natural do Algarve.

SP – Já tem reuniões marcadas com entidades portuguesas?

JD – Tanto o embaixador canadiano em Portugal como vários líderes comunitários de cá me têm estado a ajudar a marcar reuniões, por isso vou-me encontrar com jornalistas, com historiadores locais e com membros do governo. Se o Presidente não estiver, vou-me encontrar com um dos seus principais assessores, ou com outros políticos do governo. Temos muitos assuntos sobre o que falar.

SP – E com as pessoas que lhe têm vindo a fazer convites, há planos para se reunirem?

JD – Os presidentes das Câmaras de Braga, Lamego e Peniche convidaram-me e quando os contactei todos eles disseram que gostariam muito de me receber. Além disso também tive um convite do presidente da Câmara da Nazaré e acho que também vou encontrar-me com o presidente da Câmara de Viseu.

SP – Vou referir-lhe nomes de cidades e vai-nos dizer se se lembra de alguma coisa acerca delas. Porto.

JD – O Porto fica no norte e ouço dizer que é muito lindo, tal como Braga e Viana do Castelo. Braga vou visitar porque o presidente da Câmara me convidou e ouvi dizer que Viana do Castelo é linda, à beira-mar e muita gente me fala dela. Uma das minhas maiores amigas de infância é dessa área por isso, mesmo que não a veja a ela, vou ver a família dela.

O presidente do Sporting Clube de Braga deu-me uma camisola do clube com o meu nome, por isso vou levá-la e usá-la porque tive muito orgulho de a receber aqui, numa das comemorações que tivemos no Arsenal do Minho. Acho que vai ser engraçado.

SP – E gosta de tripas?

JD – Tripas é um tipo de peixe?

SP – Disse-nos que era apreciadora de gastronomia; esse é um prato típico do Porto. Tripas e Francesinhas são pratos pelos quais a cidade é conhecida. Francesinhas são chamadas "Croque Monsieur" em França. Tripas são feitas a partir do estômago.

JD – E é bom? Não sou grande fã dos produtos de porco, mas visto que é uma especialidade, claro que vou experimentar. Costuma dizer-se: "quando em Roma...", por isso quando no Porto tem de ser!

SP – Lamego, Viseu, Coimbra, Fátima – alguma destas cidades é local que queira visitar? Por exemplo, no caso de Fátima... é religiosa?

JD – A minha mãe é muito religiosa. A família dela é do norte de Espanha, são Bascos, mas ela nasceu no México, por isso no caso dela é Guadalupe. Ela está sempre a rezar à Nossa Senhora de Guadalupe. Ela adora estes locais religiosos mas eu não consigo imaginar ir a Coimbra, que fica ali tão perto de Fátima ,e não ir até lá, nem que seja por pouco tempo. A maioria dos portugueses são muito católicos, pelo menos aqui na minha área, e vivo muito perto da igreja de Santa Helena, por isso conheço bem a comunidade.

SP – Nazaré e Peniche... temos aqui uma grande, ou pelo menos expressiva, comunidade de Peniche...

JD – João Freixo tem sido o presidente – não sei se o será neste momento. É simpatiquíssimo; fala pouco inglês mas faz questão de me convidar para ir ao clube de Peniche e já lá almocei várias vezes aos sábados e tem sido encantador. Por isso gosto muito da comunidade [penichense, o clube] é muito perto da minha casa e o presidente da Câmara de lá, [quando aqui esteve,] foi muito gentil. Foi a primeira pessoa que, quando eu embarcava na minha carreira política e começava a falar português nalguns destes jantares comunitários, me ajudou com um dos meus primeiros discursos. Por isso nunca me esqueci do presidente da Câmara e da sua gentileza.

Quando penso em Peniche penso no poder das ondas e em fazer surf, por isso sei que entre a Nazaré e Peniche vou fazer surf pelo menos num desses dias.

SP – Referiu que ia adicionar Évora ao seu itinerário. A Casa do Alentejo de Toronto terá tido algo a ver com isso?

JD – Para dizer a verdade, quando mostrei esta lista a alguém a semana passada disseram-me logo: "então não vai ao Alentejo?" e eu disse: "meu Deus, como é que me esqueci?

Por qualquer motivo – é engraçado – quando fui à Casa das Beiras, foi onde conheci o presidente da Câmara de Lamego, onde ouvi falar sobre Viseu, Coimbra e Fátima, por isso, em relação ao Alentejo, pensei logo que Évora não parece ser tão distante de Lisboa e não há razão porque não possa lá passar um dia.

Na verdade vou-me encontrar com Carlos Sousa, ex-presidente da Casa do Alentejo de Toronto, em Lisboa – salvo erro no dia 6 [de Setembro] – e vou-me encontrar com o presidente da Casa das Beiras, Bernardino Nascimento, em Viseu. É óptimo!

SP – O que espera trazer consigo desta viagem?

JD – Com todos os sítios que vou visitar há cinco questões base e em diferentes locais vou abordar diferentes questões. Uma delas é o CETA (Canada-Europe Trade Agreement – Acordo de Comércio Canadá-União Europeia). Uma vez que o CETA vai entrar em vigor no fim de Setembro, qualquer coisa que eu possa fazer para promover o Canadá junto de Portugal e vice-versa, para que possamos trabalhar bem juntos, terei o maior prazer em fazê-lo. Trata-se de um grande acordo que deixa muitas empresas luso-canadianas bastante entusiasmadas, por isso acho que vai ser uma das mensagens-chave que mencionarei aos membros do governo de lá.

Outro assunto é a mobilidade dos jovens – o governo canadiano tem aquilo que eu apelido de "acordos de mobilidade de jovens" com cerca de 32 ou 33 governos de todo o mundo. Uma espécie de intercâmbio estudantil, mas mais do que isso porque permite que os estudantes também trabalhem. Mas tem de haver um igual número de estudantes para que seja justo. Portanto, se enviarmos 200 pessoas para Portugal então temos de ter um número igual a vir até cá.

Não temos um "acordo de mobilidade juvenil" com Portugal, mas sei que o nosso ministro da Imigração está a trabalhar nisso, por isso vou promover a mensagem de que queremos que seja um sucesso. Acho que é bom para ambos os países e que reforça de muitas formas a comunidade portuguesa daqui. É bom para o comércio, para as relações internacionais e em vários outros aspectos.

Porque sou política, tenho muito interesse em incentivar mais mulheres na carreira política, por isso vou-me lá encontrar com várias líderes políticas. Sei que o nosso embaixador está a trabalhar afincadamente para me marcar algumas reuniões nesse sentido. Mas isso não se aplica só a mulheres na política. Também tenho bastante empenho em ajudar mais mulheres a chegarem a posições de chefia empresarial, tanto em Portugal como noutros países com os quais o Canadá tem relações.

Vou trabalhar no aspecto da imigração. Essa é uma questão acerca da qual há talvez algumas preocupações em algumas zonas de Portugal com respeito ao número de portugueses que estão a vir para o Canadá, por isso acho que vou falar com eles sobre isso da perspectiva deles. Conheço o assunto do ponto de vista de cá, mas seria bom conhecer o outro lado da questão, do ponto de vista português.

[Outro assunto será o] meio-ambiente e mudanças climatéricas. Os portugueses são líderes não só em electricidade a partir de ondas e marés, mas também em energias renováveis, por isso foram os anfitriões de uma conferência sobre energias renováveis nestes últimos anos e isso para mim é importante porque o Canadá está muito envolvido e assinou o acordo de Paris.

SP – Em Lisboa, além das mulheres políticas com as quais já mencionou ter a intenção de se reunir, há outros políticos com os quais já tenha marcado encontro?

JD – Tivemos cá o secretário de Estado das Comunidades, o Sr. Luís Carneiro, que veio a uma das nossas escolas aqui em Davenport para um anúncio de verbas para o ensino de Português, acho que foi em St. Anthony's, e creio que me vou encontrar com ele. A nossa embaixada está a finalizar isso.

Sou a vice-presidente do Grupo Parlamentar de Amizade Canadá-Portugal, por isso não tenho dúvidas que me irei encontrar com alguns membros desse grupo. Como sabe, em Portugal há muita gente de férias, mas com certeza irei conseguir marcar mais algumas reuniões nestas próximas semanas. É isso que tenho planeado e... vamos ver.

Neste momento não tenho reuniões agendadas no Porto, em Évora, Coimbra ou Fátima, mas em todos os outros locais tenho pelo menos uma pessoa com a qual me vou encontrar ou um/a amigo/a ou familiar com quem me vou reunir.

SP – Há mais alguma coisa que gostasse de acrescentar?

JD – Quanto mais se aproxima a data mais entusiasmada fico acerca da viagem. Embora tenha tantos destinos, decidi que isso não interessa e vou apreciar cada momento.

Sou abençoada porque Portugal não é como o Canadá, é relativamente pequeno em termos de geografia, por isso as maiores viagens que vou fazer ficam-se por apenas duas horas de duração ou menos, por isso não é como se fosse passar o dia na estrada, não é como aqui que não se consegue atravessar o Ontário, por exemplo, em menos de um dia de carro.

Estou bastante entusiasmada. Gostava muito que as pessoas me seguissem e fizessem recomendações, bons restaurantes, coisas que devia fazer, na minha página de deputada no facebook (facebook.com/mpjuliedzerowicz). Podem seguir o que faço e agradeço sugestões, além de lá ir partilhando as fotografias que vou tirando.

Nas minhas conversas com as pessoas de lá também quero ouvir a perspectiva deles – a perspectiva portuguesa, vivendo na Europa. Saber como vão as coisas, como vêem as coisas que estão a acontecer no mundo, a perspectiva que têm do Canadá e dos Estados Unidos da América... Acho que é um intercâmbio diferente quando as conversas são cara-a-cara em vez daquilo que se ouve por terceiros.

Para ser justa, se virmos os jornais nacionais, aqui no Canadá, pouco se noticia acerca de Portugal, a não ser recentemente os fogos ali perto de Lisboa. Por falar nisso, vou tentar visitar a região afectada. Ouvi dizer que a Cruz Vermelha ainda está lá a auxiliar e tenho esperança de poder dar lá um salto e fazer um donativo formal, porque o quero fazer no próprio país. É esse o meu plano neste momento. Como já tenho 14 sítios a onde ir, não tenho a certeza se vou conseguir, mas vou pesquisar e fazer por isso porque é um assunto que é uma prioridade para mim e sei que o é também para muitos luso-canadianos.


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