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António Costa no Canadá:

Visita de estado do Primeiro-ministro de Portugal incluiu Otava, Kingston, Toronto e Montreal

Por João Vicente e Noémia Gomes
Sol Português

"É preciso incrementar as relações económicas entre os nossos países", afirmou sexta-feira (4) o Primeiro-ministro de Portugal em declarações à imprensa, ao partir de Toronto para a última jornada da sua visita de estado ao Canadá e que, de 2 a 5 de Maio, o levou de Otava a Montreal, com paragens em Kingston e Toronto pelo meio.

"Partilhamos valores, partilhamos a mesma visão do mundo – a mesma ideia que o mundo e o desenvolvimento económico hoje não se fazem nem com proteccionismo, nem com a criação de barreiras mas, pelo contrário, abrindo os mercados, abrindo a liberdade de circulação", acrescentou ainda António Costa, citando o Canadá como um "exemplo com quem a Europa tem muito a aprender" em relação à política de imigração e capacidade de integração das diversas comunidades em convivência sadia, sem que percam as suas raízes.

Além de um contacto mais próximo e da permuta de ideias, resultaram desta visita três acordos, como salientou o chefe do governo português, o primeiro relativo à "mobilidade de jovens para o estudo e para o trabalho", e dois outros em vias de finalização, um na área da Defesa, especificamente no salvamento de pessoas no Atlântico, e o outro relativo à segurança social – algo "essencial para a protecção dos direitos da comunidade portuguesa no Canadá", destacou António Costa.

Nesta que foi a primeira visita de um Primeiro-ministro de Portugal ao Canadá desde 2003, António Costa foi acompanhado por uma comitiva constituída pelo presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro; pelo ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral; pelos secretários de Estado das Comunidades e da Internacionalização, José Luís Carneiro e Eurico Dias, respectivamente; pelo presidente do AICEP, Luís Castro Henriques; e por António Vitorino, candidato ao cargo de director-geral da Organização Internacional para as Migrações; assim como por um contingente de empresários e investidores.

A visita do chefe do governo português ao Canadá começou em Otava na noite de quarta-feira (2), altura em que António Costa foi recebido no Centro Recreativo Português Lusitânia, na capital, iniciando no dia seguinte, quinta-feira (3), os encontros oficiais que incluíram reuniões com a Governadora-geral do Canadá, Julie Payette, com o seu homólogo canadiano, Justin Trudeau, bem como com os presidentes do Senado e da Câmara dos Comuns, e com o Grupo Parlamentar de Amizade Canadá-Portugal, que inclui, entre outros elementos, os deputados federais Peter Fonseca e Julie Dzerowicz.

Durante a tarde António Costa visitou a fábrica da empresa portuguesa Frulact, em Kingston, antes de rumar a Toronto – região onde está radicada a maior comunidade lusa no Canadá – e onde viria a passar todo o dia de sexta-feira (4), a começar por uma visita ao Parlamento do Ontário durante a qual teve uma reunião à porta-fechada com a Primeira-ministra Kathleen Wynne.

Depois de assinar o livro de honra e de uma fotografia de grupo na Assembleia provincial, o Primeiro-ministro seguiu ainda durante a manhã para o hotel Marriot, onde decorria um encontro comercial organizado em parceria pela AICEP e pelo Economic Club of Canada, e onde viria a encontrar-se pela segunda vez com o seu homólogo canadiano, Justin Trudeau.

Subordinado ao tema "Relações Económicas Canadá-Portugal: Maximizando os Benefícios do CETA" (acordo de comércio livre entre o Canadá e a União Europeia), o encontro contou com intervenções do ministro do Comércio Internacional, François Philippe Champagne, por parte do Canadá, e do ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, por parte do governo português.

Decorreu ainda uma apresentação durante a qual o presidente do Conselho de Administração da AICEP, Luís Castro Henriques, moderou um painel constituído por André Rocha, administrador executivo da Frulact, Paulo Pereira da Silva, presidente da Renova, Paul Conibear, presidente da Lundin Mining, e David Tavares, presidente da Globestar Systems.

Os discursos de encerramento do evento estiveram a cargo dos dois Primeiros-ministros, os quais abordaram o CETA e o que esse acordo preconiza para o futuro de ambos os países, ressaltaram os laços que unem as duas nações e enalteceram ainda a passagem em Novembro da Lei proposta pela deputada Julie Dzerowicz que reconhece oficialmente o Dia e o Mês de Portugal no Canadá a nível federal.

Justin Trudeau chegou mesmo a agradecer a António Costa por Portugal ter sido um dos primeiros países da União Europeia (UE) a ratificar o CETA, classificando-o como "um acordo que visa proteger os trabalhadores [...] e o meio ambiente".

Por seu turno, António Costa salientou a presença na sua delegação de líderes empresariais que levaram à adição de encontros com investidores e parceiros de negócios, citando dados que indicam claramente que Portugal não só recuperou da crise financeira como está a ter a taxa de crescimento mais alta da UE.

No decorrer de um almoço no restaurante Carlu que reuniu os chefes dos governos português e canadiano com políticos, empresários e representantes da comunidade luso-canadiana, António Costa destacou os sólidos alicerces em que assentam as relações entre os dois países, não só pelo crescente perfil da comunidade lusa, que estabelece uma ligação permanente entre as duas nações, como pelas posições paralelas e objectivos militares comuns no seio da NATO – "ambas nações pacíficas que contribuem nitidamente para a paz e a segurança", afirmou.

O Primeiro-ministro de Portugal viria a concluir a sua alocução expressando votos de que esta visita tivesse reforçado os laços já existentes e "tornado o Atlântico mais estreito", e, num agradecimento pela hospitalidade de que foi alvo, convidou o público a juntar-se-lhe num brinde ao Canadá.

O Primeiro-ministro canadiano, por seu turno, optou por um tom mais informal, escolhendo relatar até umas saudosas férias de que duas décadas antes desfrutou em Portugal, acampado na praia da Adraga, na zona de Sintra, onde ainda se recorda de comer chouriço assado e beber bom vinho – o que passou a associar às fortes e duradouras amizades e à qualidade de vida que caracterizam Portugal.

Também ele viria a concluir com um brinde, "a Portugal, ao Canadá e a amizades duradouras e constantes".

Nessa tarde o governante português viria ainda a ter reuniões com firmas mineiras enquanto José Luís Carneiro assinava, na Universidade de Toronto, um contrato para a criação do Centro de Língua Portuguesa.

O secretário de Estado das Comunidades, que já nessa manhã tinha estado na escola de Santa Helena, onde impôs insígnias de mérito das comunidades portuguesas a vários professores, teve ainda oportunidade de se encontrar com elementos da comunicação social no Consulado-Geral de Portugal em Toronto e onde, entre outras questões, abordou a reposição de funcionários neste posto consular, um problema que se torna cada vez mais premente à medida em que empregados de longa data se vão reformando.

A passagem por Toronto concluiu na sede do sindicato LIUNA Local 183, onde estava previsto proceder-se ao descerramento conjunto de duas placas comemorativas pelos Primeiros-ministros do Canadá e de Portugal.

Contudo, a tempestade de vento que assolou a região de Toronto na tarde de sexta-feira, provocando graves danos, originou um apagão que atingiu também o edifício da "183", o que levou a que, após uma longa pausa – na esperança de que a situação se resolvesse – a segurança do Primeiro-ministro canadiano tenha optado por retirá-lo do local por o considerar inseguro.

Justin Trudeau partiu, mas não sem antes se aproximar da multidão e juntamente com António Costa apertarem as mãos, darem abraços e tirarem fotos com o público.

"Não vamos deixar que a mãe natureza nos impeça de ter uma bela festa esta noite – obrigado por estarem aqui, é um acolhimento maravilhoso para o Primeiro-ministro Costa", disse Trudeau, antes de se ausentar do edifício com um "merci mes amis, obrigado".

Foi na imensa escuridão que envolveu o salão de festas Gerry Gallagher que os dirigentes da LIUNA e da Local 183, Joseph Mancinelli e Jack Oliveira, respectivamente, deram as boas vindas a António Costa e à comitiva vinda de Portugal.

Perante algumas centenas de pessoas que aguardavam na pesada penumbra, cortada apenas pelas luzes das câmaras de televisão, os sindicalistas, bem como António Costa e Vasco Cordeiro viriam a discursar, após o que o Primeiro-ministro português descerrou a placa ali colocada em sua honra, numa simples cerimónia, ficando a placa destinada a Justin Trudeau coberta, à espera de uma ocasião propícia.

Quando o fadista Camané – que veio de Portugal para acompanhar esta visita – se preparava já para actuar no meio do salão envolto em breu e rodeado pelos espectadores, acenderam-se as luzes para alegria de todos, incluindo do artista que deu a ordem: "para o palco".

O espectáculo foi precedido pela interpretação dos hinos do Canadá e de Portugal, na voz da cantora luso-canadiana Isabel Sinde, e no final do concerto um breve momento de convívio juntou os elementos da comitiva e o público antes de se dar por terminado o evento.

No dia, seguinte, sábado (5), a comitiva portuguesa deslocou-se até Montreal, ao encontro da comunidade local, onde visitou a Escola de Santa Cruz e a obra do arquitecto Siza Vieira no Centro Canadiano de Arquitectura, bem como o Cais Alexandra Room onde tudo viria a concluir com mais um concerto do fadista Camané.


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