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Senhor Santo Cristo:

Ponta Delgada engalanou-se para festejar

Por Natividade Ledo e Carlos Ledo
Sol Português

No passado fim-de-semana, Ponta Delgada encontrou-se de novo em festa e a celebrar o culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres no auge de uma celebração que há mais de três séculos se assinala anualmente nesta cidade capital de São Miguel - Açores e que este ano abrangeu o período de 28 de Abril a 10 de Maio.

Celebradas pela primeira vez no ano de 1700, desde então as festividades têm vindo a crescer e atingiram tal popularidade que atraem multidões – em grande parte constituídas por emigrantes açorianos que nunca esqueceram a sua terra-natal e as tradições nas quais foram criados – que nesta altura enchem as ruas da cidade.

Muitos outros, por razões diversas, não podem presenciar ao vivo estas maravilhosas festas pelo que nestes dias a saudade faz comover também os ausentes que, ao assistirem ou tomarem conhecimento dos acontecimentos através dos meios de comunicação social, sentem as lágrimas aflorar-lhes aos olhos face ao desejo de um dia poderem voltar para tomar parte, presenciar e matar saudades destas comemorações religiosas.

Simbólicas da fé de um povo que não ficou relegada ao passado, são as maiores festividades religiosas da ilha de São Miguel, senão mesmo de todo o arquipélago.

Nesta altura do ano, não são só açorianos que visitam esta cidade, mas também turistas vindos de Portugal Continental, da Madeira e de outras paragens, e que, de modo geral, expressam o seu espanto e encanto perante a grandeza das festividades – desde o colorido dos milhares de lâmpadas que iluminam a cidade ao maravilhoso recinto que é o Campo de São Francisco, local onde fica situado o Santuário da Esperança, que abriga a venerável imagem do Santo Cristo dos Milagres.

Este ano as actividades religiosas tiveram início no dia 28 de Abril, com a recepção das ofertas de gado e arrematação, que decorreram nas instalações da Associação Agrícola de São Miguel, Santana, situada na vila de Rabo de Peixe.

No dia 1 de Maio deu-se início ao tríduo preparatório para as festas, com pregação do vigário episcopal, padre João das Neves, actividade religiosa que se prolongou até ao dia 3.

Na passada sexta-feira (4), as cerimónias religiosas prosseguiram com a celebração de duas missas no Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, presididas pelo vigário episcopal, o cónego Ângelo Valadão, e por D. António Sousa Braga, bispo emérito de Angra.

Realizou-se ainda uma missa destinada aos doentes, que teve lugar na igreja de São José e foi presidida pelo bispo de Angra e ilhas dos Açores, D. João Lavrador.

Nessa noite procedeu-se à inauguração da deslumbrante iluminação decorativa da fachada do Santuário e de todo o Campo de São Francisco, um momento marcante com execução do hino do Senhor Santo Cristo dos Milagres pela banda musical Triunfo e o desfile da Charanga dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada.

Seguiu-se a abertura do tradicional bazar e arraial, mais uma vez pela banda Triunfo, e no sábado (5) as actividades religiosas continuaram com a missa do Santuário, presidida pelo padre Nuno Maiato e pelo cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, enquanto que a missa celebrada no Hospital do Divino Espírito Santo foi presidida por D. João Lavrador.

Pelas 16h20 o provedor da irmandade bateu à "porta regral" e 10 minutos depois iniciou-se o cortejo da mudança da imagem do Convento da Esperança para o Santuário onde, antes de recolher, houve sermão e mais ainda ao ar livre, presidido pelo vigário geral da diocese, cónego Hélder da Fonseca.

A cerimónia prosseguiu com fogo de artifício, arraial e, por volta da meia-noite, a mudança da imagem para a igreja de São José, onde o padre Duarte Melo celebrou missa, seguida de vigília pelo padre Norberto Brum.

No domingo (6) saiu então a imagem da igreja de São José rumo ao adro do Santuário, para a celebração solene eucarística do Senhor Santo Cristo dos Milagres, presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa.

Nessa tarde, pelas 15h30, saiu a procissão a percorrer o trajecto habitual, um cortejo acompanhado por 20 bandas filarmónicas da ilha, pelo rancho de romeiros, vários grupos de actividades, assim como estudantes da Universidade dos Açores, escuteiros, bombeiros voluntários e dignitários governamentais – municipais e administrativos – incluindo o actual presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro, e sua comitiva, o seu antecessor, Carlos César, e os presidentes das Câmaras Municipais e juntas de freguesia dos diversos conselhos da ilha.

A par ainda dos muitos figurantes trajados de anjos, integravam o cortejo largos milhares de pessoas que acompanharam a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, muitas em pagamento de promessas, incluindo um largo contingente de jovens.

Após a recolha da majestosa procissão continuou o arraial com a banda Senhora dos Prazeres, da freguesia do Pico da Pedra.

A capa do Senhor Santo Cristo deste ano foi oferecida por José António Tavares Estrela, um natural da cidade da Ribeira Grande emigrado nos Estados Unidos da América.

Trata-se duma capa icónica de veludo, feita na Cooperativa de Nossa Senhora da Paz, em Vila Franca do Campo, onde as religiosas do convento colocaram mais de 700 diamantes, e que foi oferecida pelo luso-americano para as comemorações dos 300 anos da primeira procissão do Senhor Santo Cristo.

As festividades continuaram durante a semana, prolongando-se até ontem, quinta-feira (10), altura em que a cerimónia de encerramento incluiu uma solene concelebração em honra de Madre Teresa da Anunciada, presidida pelo reitor do Santuário, o cónego Adriano Borges, seguida de arraial e concerto de encerramento pela Banda da Zona Militar dos Açores.

Ao longo do dia o público pôde apreciar as barraquinhas de comes-e-bebes dispostas na rua principal da cidade e nos arredores do Campo de São Francisco, assim como, nessa noite, ao fogo de artifício que deu por terminadas as festividades.


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