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Comunidade/Covid-19:

Empresas luso-canadianas a caminho da recuperação, mas dificuldades perduram

Por João Vicente
Sol Português

Desde que o governo do Ontário declarou o estado de emergência em consequência da pandemia de Covid-19, a 17 de Março, o jornal Sol Português tem procurado auscultar a comunidade portuguesa a respeito do impacto das medidas de confinamento então decretadas e que vieram a limitar grande parte da actividade económica, social e recreativa na província.

Entretanto passaram já cerca de três meses desde que tomámos o pulso a um leque variado de empresas luso-canadianas, procurando saber como estavam a tentar cumprir com as directrizes do governo pelo que agora que várias das restrições foram retiradas voltámos a contactá-las.

Esta é a segunda de duas reportagens especiais centradas nessas empresas; comerciantes e empresários que se pronunciam sobre o levantamento de várias das restrições, sobre o processo de reabertura e sobre como tem vindo a corresponder o público seu cliente.

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Se como vimos na última edição alguns sectores da economia passaram quase incólumes pela crise dos últimos meses – caso do ramo imobiliário que recuperou de forma extraordinária e bate novos recordes, ou do sector de seguros e investimentos que para muitas firmas se manteve sem grandes alterações – já outros sofreram grandes perdas e estão ainda longe de verem a situação melhorar.

A conhecida firma de banquetes Europa Catering é uma das que nos diz continuar a atravessar um momento difícil, para o qual não vê ainda a almejada "luz ao fundo do túnel".

"Isto está muito mau porque não sei quando é que vamos abrir de verdade", diz-nos o proprietário, Manuel de Paulos, que explica que actualmente neste ramo,

"mesmo que se faça alguma coisa, não ganhamos dinheiro nenhum" e em alguns casos os banquetes que servem "talvez até dêem prejuízo devido aos regulamentos" com os quais têm de cumprir.

Adianta ainda ter esperança que as coisas melhorem, "lá para Novembro, mas..." a pausa que faz logo de seguida, deixando a frase morrer no ar, parece sugerir que começa a aperceber-se de que essa desejada melhoria poderá não se vir a materializar.

A empresa, que tem dois salões, em Toronto e Mississauga, viu-se obrigada a encerrar as portas durante vários meses e uma vez que é proprietária dos edifícios, não chegou a beneficiar das ajudas do governo em termos de subsídios de renda bem como do apoio aos salários dos empregados pois a sua actividade cessou por completo até recentemente.

Entretanto com o decretar do desconfinamento foi possível retomar alguma actividade em termos de serviço de take-out e de catering para uma ou outra festa pequena – e lá vai aparecendo "mais uma coisita ou outra", como nos conta – mas no fundo "é mais para servir os clientes do que outra coisa pois "é preciso ter uma pessoa à porta para perguntar se tem Covid-19, se viajou ou não, depois é outra pessoa nas casas de banho a limpar" constantemente, e assim por diante.

Tudo isto representa despesas adicionais que são necessárias incorrer mas pelas quais diz não poder cobrar o valor real no preço dos serviços prestados porque se tornariam incomportáveis para as pessoas que se deparam com salários reduzidos, acrescentando: "sinto o problema deles".

Apesar deste fortíssimo revés, Manuel de Paulos pretende manter a empresa viável enquanto lhe for possível e quer evitar ser mais uma das cerca de 60 por cento das empresas do ramo da restauração que, segundo uma avaliação conjunta do governo federal e da Câmara de Comércio canadiana, prevêem vir a encerrar nos próximos três meses.

Entretanto, porém, a carga que representa o imposto predial e o seguro das casas em Toronto e Mississauga, além de muitas outras despesas, resultam em somas avultadas que tem de despender mensalmente.

Como nos diz, vai `mantendo o barco a flutuar' conforme possível e aguarda uma resolução da situação ainda que esta possa só se vir a manifestar quando surgir uma vacina eficaz.

No mesmo barco está Lurdes Costa, proprietária da churrasqueira Vila Verde, que tem dois estabelecimentos em Toronto – um na Weston Road e outro na rua Dundas.

Contudo, no seu caso, para além das dificuldades criadas pela pandemia e pelas medidas de confinamento, sofreu ainda outro revés quando um incêndio no edifício ao lado levou ao encerramento do restaurante na Dundas.

Como nos conta, este é o estabelecimento que está melhor localizado para take-out, enquanto que o da Weston está mais vocacionado para o serviço de sala, pelo que a situação veio afectar bastante o negócio que começava então a dar sinais de lenta recuperação.

Apesar disso, Lurdes Costa não se deixa abater nem se quer queixar e afirma que "se não vier coisa pior, ainda estamos contentes".

Na verdade já tem marcações para Outubro, mas também tem recusado outras, incluindo um casamento que queria música e baile mas que teve de recusar por impossibilitar o cumprimento das regras.

"Aquelas festas grandes não existem e mesmo que apareçam algumas temos um pouco de receio", refere, passando a explicar que ainda recentemente teve de dizer a clientes que realizaram um baptizado que não se podiam sentar todos juntos.

A esperança agora é de que o restaurante da Dundas venha a ficar pronto para reabrir antes do Natal, mas no entretanto o da Weston "vai dando para manter".

Igualmente no ramo alimentar, mas noutra escala e dimensão, Luís Pavão Jr., co-proprietário da cadeia de talhos Pavão, explica que a pandemia afectou sobretudo as vendas por grosso, uma vez que a firma fornece muitas empresas no ramo da restauração e catering e foi aí que "teve um impacto enorme porque eles estão fechados".

Depois há todas as festas açorianas que se realizam nas igrejas, como as do Espírito Santo e as pensões, que não aconteceram este ano, tal como sucedeu também com as celebrações do Dia da Família do sindicato LIUNA Local 183 ou a Dundas West Fest, a parada Pride, o piquenique da CHIN e toda uma série de outros grandes eventos para os quais a empresa fornecia e que foram suspensas.

Contudo, e se essa parte do negócio este ano ficou reduzida essencialmente a zero, já as vendas a retalho aumentaram significativamente pois, segundo explica, "como as pessoas deixaram de ir a essas festas, festivais e assim por diante, começaram a consumir mais em casa" – pelo menos até termos entrado na terceira fase de desconfinamento.

Ainda assim, e embora o aumento de 30 a 40 por cento que registaram nas vendas a retalho tenha ajudado a aliviar o impacto económico da pandemia, não chegou para compensar a quebra nas vendas por atacado.

Entretanto, e a par do desequilíbrio nas vendas, houve ainda que lidar com o "factor humano", pois como refere, houve quem não se sentisse à vontade para ir trabalhar porque não quer arriscar-se a adoecer com uma doença praticamente desconhecida.

Depois foi necessário também lidar com as novas regras, que exigiam que o espaço fosse gerido de forma a permitir o distanciamento entre entre clientes, o que, dadas as circunstâncias, levou a que se registassem enormes filas de público, bem como alguma frustração e ansiedade.

"Só podíamos ter quatro a seis pessoas dentro da loja, [por isso] tivemos filas enormes, de quase um quilómetro; dias a chover; stress; as pessoas impacientes, sem compreensão; os meus funcionários cheios de stress, em certos casos vinham ter comigo a chorar: `senhor Luís, não dá para trabalhar – eu gosto de estar aqui com vocês mas não dá para trabalhar assim'", recorda.

Foi todo um processo de aprendizado e adaptação, de parte a parte, por vezes com clientes a exaltarem-se e a terem atitudes menos correctas simplesmente por lhes ser pedido que não entrassem com o esposo ou a esposa – como era decretado pelas autoridades – e para ajudar a empresa e as outras pessoas que se encontravam na fila, ou que usassem máscara ou desinfectassem as mãos.

Recorda algumas situações particularmente desagradáveis, como uma mulher que cuspiu na cara de uma funcionária, ou o homem que não só chamou nomes a uma empregada como a agrediu fisicamente.

Por tudo isto, afirma que "foi uma experiência como não há igual na vida, em todos os aspectos" embora reconheça que agora as coisas "estão muito melhores", pelo menos em termos de civismo.

À medida em que o público volta a frequentar estabelecimentos de restauração, a comprar comida feita e a voltar a algumas das antigas rotinas, diz-nos notar já uma nova quebra nas vendas a retalho.

"Acho que o pior disto está para vir", destaca, citando a diminuição de actividade no sector da construção com a chegada da estação fria, a elevada taxa de desemprego actual, aliada ao fim dos subsídios governamentais, assim como uma possível segunda vaga da pandemia.

Ainda assim, nem tudo foi negativo pois esta situação levou a empresa a desenvolver e a pôr em prática no espaço de poucas semanas um plano que já acalentava há dois anos mas que vinha a adiar: criar um portal de vendas online.

Actualmente os clientes podem visitar o site pavaotogo.com e encomendar carne e mercearias que podem ser entregues à sua porta ou levantadas na loja.

Luís só lamenta que as pessoas que mais poderiam beneficiar disso, sobretudo os idosos da comunidade, nem sempre tenham os conhecimentos necessários ou a possibilidade de se valerem deste sistema de encomendas.

Também a Borges Foods – firma luso-canadiana famosa pelos enchidos que produz e comercializa por todo o país, bem como pelos produtos alimentícios que importa – sentiu de imediato o impacto da pandemia, mas, como nos destaca Mário Gomes, a empresa foi igualmente rápida na sua adaptação interna para cumprir com os novos regulamentos.

Segundo Mário Gomes, que juntamente com o sócio, Jorge Romeiro, é proprietário da firma, essa adaptação envolveu não só o processo de produção, mas também a disseminação de informação e a educação dos funcionários para cumprirem com as novas regras e procedimentos.

"Não foi muito fácil", diz-nos, não só "porque as pessoas não estavam preparadas" mas também por haver algum cepticismo em torno das novas regras, mas, como explica, o facto de já virem a cumprir com rigorosíssimas regras federais desde há anos ajudou na adaptação à nova realidade.

"Nós demos logo conta disto e no início de Fevereiro tomámos logo medidas", diz-nos, ao explicar que começaram "a sentir o efeito nas vendas porque a indústria alimentar é das primeiras a sentir o mau e o bom".

São, como refere, conhecimentos adquiridos e experiências acumuladas ao longo de mais de 30 anos neste ramo.

Porém, embora o impacto fosse repentino, depressa se dedicaram a readquirir a confiança do consumidor e a situação "não normalizou, mas estabilizou um pouco", em torno dos 75 a 80 por cento do volume normal do negócio, segundo refere, pelo que nunca se qualificaram para as ajudas financeiras do governo – o que pode ser encarado como positivo.

Quanto ao que ainda está para vir, tanto para a sociedade em geral como para o mercado – porque ambos estão interligados – Mário Gomes considera que tudo irá depender do civismo das pessoas e do cuidado que tiverem.

"O relaxamento pode conduzir a problemas", destaca, lembrando que "o vírus não veio para passar, veio para ficar e nós é que temos de saber lidar com o vírus e não o vírus connosco".


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