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5.ª Gala do Fado de Hamilton:

De "Alma Nua", Clara Santos leva o fado a novo público

Por João Vicente
Sol Português

A 5.ª Gala do Fado de Hamilton, evento anualmente organizado pela fadista Clara Santos e cuja mais recente edição se realizou no pretérito sábado (6), mais uma vez elevou o estatuto da canção nacional nesta cidade do sul do Ontário, dando o fado a conhecer a um novo público ao mesmo tempo que deleitava e saciava também quem já de há longa data o ama.

O evento, que decorreu no salão principal do Centro de Convenções e Banquetes LIUNA Station, em Hamilton, e foi abrilhantado por um trio de fadistas constituído por Tony Gouveia, Elizabete Gouveia e a própria organizadora, foi também o momento escolhido para a apresentação do segundo álbum de Clara Santos, "Alma Nua".

Apesar de ter abraçado ambos os projectos, a que se entregou de corpo e alma, e embora admitisse sentir-se cansada, seria a própria a receber pessoalmente muitas das cerca de 400 pessoas que acorreram ao evento, com elas posando para fotos de ocasião conforme a sala ia enchendo.

Os artistas convidados, que têm acompanhado com interesse a carreira de Clara Santos desde que esta se revelou publicamente, elogiaram a organização desta noite de gala, um projecto que reconheceram envolver muito trabalho e que foi planeado até ao último pormenor pela própria artista, que trabalha a tempo inteiro e se dedica ao fado ao fim-de-semana.

Elizabete Gouveia indicou à nossa reportagem não ter sido a única a notar os detalhes, realçando que "todos os músicos, eu e o Tony temos um saquinho com um presente na mesa", há um tema coordenado, "preto e dourado, há uma caixinha dourada com um chocolatinho, há um cartão de agradecimento", a par de outros pormenores que indicou revelarem grande cuidado e atenção.

"Perguntei-lhe como faz tudo sozinha", dizia Elizabete à nossa reportagem, para explicar que a artista lhe respondeu: "`aprendi da maneira mais difícil, por isso agora tomo eu conta de tudo e faço eu, para me certificar que tudo acontece como deve ser'".

"Sou muito independente", admitiu Clara Santos, ao explicar-nos que por vezes tem dificuldade em pedir ajuda, além que "também não quero exigir e dar stress às outras pessoas".

Por isso prefere arcar com toda a responsabilidade, embora confesse que é "muito trabalho – muito mesmo, com "M" maiúsculo".

O fruto desse trabalho estava nessa noite à vista, deixando todos satisfeitos com o resultado, incluindo um casal que entrou um pouco por acaso, atraído, como nos explicou, simplesmente porque lhes disseram que podiam ali jantar e ver um espectáculo, e que, à falta de outros lugares vagos, acabou por ficar sentado na mesa da imprensa.

Victoria e Garry Gullison confessaram à nossa reportagem que até aquele momento não sabiam o que era o fado, nem faziam ideia do que os esperava, mas disseram-se interessados em descobrir.

Talvez não tão às escuras – mas quase – estava Fred Banfield, que foi assistir ao espectáculo com um amigo português, Jeremias, que lhe tinha prometido já há uns anos que um dia o havia de levar a uma noite de fado.

No início do serão caberia ao pastor Márcio Silva, da Igreja Baptista da Rua Hughson, dirigir algumas palavras de acolhimento e proferir a oração de graças antes da refeição, no final da qual se deu início às actuações.

Tony Gouveia foi o primeiro a pisar o palco, pondo desde logo toda a gente a cantar com ele o clássico de Fernando Farinha, "É Pá Canta Lá o Fado".

Depois chamou ao palco a esposa, Elizabete Gouveia, e ambos interpretaram em dueto o fado da procura enquanto a plateia vibrava e lá no fundo do salão Victoria Gullison assistia com interesse, batendo o pé e dançando um pouco, agarrada aos ombros do marido.

Depois de um intervalo, foi a vez de Clara Santos subir ao palco para prendar a assistência com o tema "Há palavras que nos beijam", prosseguindo depois com um agradecimento aos patrocinadores deste evento, incluindo os jornais Sol Português e Voice.

De seguida interpretou em sequência "Não Sou Eu", "Divino Fado", "Alma Fadista" e "Malmequer", fazendo então uma breve pausa para a apresentação de variações pelos instrumentistas da noite – Hernâni Raposo (guitarra), Pedro Joel (viola), Sérgio Santos (viola-baixo), Caco César (Cajon) e Alexandre Silva (teclados).

De regresso ao palco, a artista mais uma vez agradeceu ao público por ter optado por estar ali a desfrutar do serão, e dirigiu um reconhecimento à irmã, que esteve encarregue da apresentação de imagens no ecrã, assim como ao responsável pelas luzes e pela produção sonora, Tony Silva, da TNT FX.

Depois de interpretar o fado "Medo", a artista convidou ao palco cinco elementos do público que, munidos de adufes, pandeireta, maracas e ferrinhos ajudaram a marcar o ritmo, juntamente com as palmas da plateia, no acompanhamento da "Rapsódia do Malhão"

Escutaram-se ainda os temas "Ausente" e "Olhos Fechados", este último composto por Hernâni Raposo com base em ideias que a fadista tinha vindo a anotar e que, como nos contou pessoalmente e viria a revelar também em palco, o músico conseguiu destilar no espaço de uma hora.

"Nós [Clara e Hernâni] fomos para Calgary o ano passado e eu disse-lhe: `tenho aqui uma ideia' – tinha várias notas no meu telefone e decidi tentar mais uma vez, mas não consegui", explicou a fadista destacando que não estava a conseguir expressar "a essência" da mensagem que pretendia transmitir.

"Disse-lhe a ele, mais ou menos, e ele escreveu o fado numa hora!", adiantou ainda com uma ligeira nota de indignação na voz, ao que Hernâni Raposo ripostou, com sentido de humor, "tenho 59 anos de idade, quando [lá] chegares [...] também vais escrever numa hora – ou em meia hora, talvez".

O tema resultante é agradável e fica no ouvido, possuindo algo reminiscente dos temas compostos por Jorge Fernando, com os quais partilha essas características.

Na recta final do espectáculo a fadista interpretou ainda o seu já conhecido "Ai Fado", optando depois por juntar-se ao público, com os guitarristas, vindo a encerrar o espectáculo com o tema "Fado Loucura" interpretado à capela.

Com veredicto muito positivo, Victoria e Garry Gullison indicaram ter apreciado sobretudo a voz da artista e o sentimento transmitido através dos fados, tanto os mais melancólicos como os mais alegres, considerando-a "uma pessoa muito forte" além de que "as imagens de fundo ajudaram quem não fala português", esclareceram.

Por seu turno, Fred Banfield começou por dizer que achou o espectáculo "fabuloso" e que "embora não percebesse uma palavra", sentiu que a artista "estava a cantar para mim".

Na sua apreciação, gostou tanto dos temas tristes como dos alegres, tanto assim que foi comprar o CD e pedir um autógrafo à fadista, dizendo por fim: "hei-de voltar".

Surpreendido ficou também o fotógrafo responsável pelas imagens que adornam a capa do álbum, Sam Taylor, que admitiu que o que sobressaiu mais deste espectáculo foi "a paixão – foi isso que me tocou", neste que foi para ele também o primeiro contacto com o fado.

"Não sabia bem o que esperar, mas, caramba, não sabia que estava a trabalhar com uma estrela!", exclamou com entusiasmo.

Também Tony Gouveia, veterano dos espectáculos, considerou o concerto "muito bom" destacando: "gostei dos temas inéditos, também gostei da nova abordagem nalguns temas da Mariza e da Ana Moura, e achei engraçado a participação especial do público a ir ao palco – acho que foi uma excelente ideia", para o que considerou "uma noite muito positiva".

Nomeada este ano para um prémio International Portuguese Music Award (IPMA) com o tema "Divino Fado", Clara Santos indicou à nossa reportagem estar já a projectar um novo disco, mas, como reconheceu, "este bebezinho [o seu segundo CD] está fresquinho e precisamos de o deixar andar pelo mundo".


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