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Centro Cultural Português de Mississauga:

`Dilúvio' humano em noite de cantorias

Por Avelino Teixeira
Sol Português

As cantorias, ou cantares ao desafio, são uma das formas musicais mais características que existem em Portugal. Supõe-se que tenham derivado dos cantares amebeus dos pastores gregos, enquanto outros estudiosos preferem ligá-los ao desafio de tradição repentista árabe, muito frequente no Mediterrâneo.

Seja como for, é uma prática artística com raízes longínquas e comum a vários povos, que lhes atribuíram diferentes nomes: Inga Fuka no Índico Oriental, Pantuda na Malásia, Haikai no Japão, Payada na Argentina, Controvérsias, Bravata e Aporreon no México.

Ao longo dos anos, esta forma de cantar tem sido a diversão também dos açorianos, sequiosos de uma boa sátira ou de uma reflexão consciente, e os que emigraram para este continente trouxeram consigo também esta tradição.

Foi isso que se observou no passado sábado (6) no Centro Cultural Português de Mississauga (CCPM), que esgotou a lotação e atingiu a sua capacidade máxima perante um autêntico dilúvio humano!

Este evento anual, que se iniciou em 2012 com a colaboração do saudoso Isidro de Sousa – entretanto falecido, a 12 de Julho de 2016 – voltou mais uma vez a repetir-se e desta feita foi dedicado em homenagem aos veteranos cantadores José Fernandes e Vasco Aguiar.

Depois de um jantar convívio, confeccionado e servido pelos voluntários desta que é a única colectividade portuguesa de Mississauga, o presidente do Executivo, Tony de Sousa, subiu ao palco para dar as boas-vindas ao público, agradecer aos patrocinadores, referenciar os próximos eventos e apresentar os que o ajudaram a organizar o espectáculo que nessa noite ali se iria realizar.

Referia-se a Rogério Mendes, Zé Nandes e Ermenegildo Toste, este último que haveria também, com muita graça, de exercer as funções de mestre-de-cerimónias nessa noite.

Depois de um minuto de silêncio para assinalar o falecimento de Edite Maria Borges, a palavra passou a Zé Nandes, o co-fundador do grupo "Só Forró", da Ilha Terceira, para a prestação de uma homenagem aos cantadores José Fernandes e Vasco Aguiar.

Zé Nandes fez-lo emotivamente, em mote de improviso, enumerando as qualidades humanas e artísticas dos homenageados, que considerou honrarem sobremaneira os açorianos.

Ele que foi o autor das quadras filigranadas nas placas que foram depois entregues aos homenageados, ao cantador Vasco Aguiar, que se encontrava presente, escreveu:

És sábio na poesia

És Vulcão que nos aquece

És livro na cantoria

Que nunca ninguém esquece

És liberdade que se empenha

És S. Miguel ao nosso lado

Vasco Aguiar da Bretanha

Te ficamos obrigado

És Açores és agrado

Cheiro da maré de lá

Nosso sincero obrigado

Em terras do Canadá

A José Fernandes, que por motivos de saúde se fez representar por sua irmã, Leontina Vieira, versejou:

És sábio na poesia

És vulcão que nos aquece

És livro na cantoria

Que nunca ninguém esquece

És liberdade que não esconde

És Terceira a nosso lado

José Fernandes Ormonde

Te ficamos obrigado

Ribeirinha é teu berço

Foste embalado lá

Te agradecemos com apreço

Em terras do Canadá

Como se não bastasse, poetando em palco disse a propósito de ambos:

Ser Poeta é ideia

É Vulcão é valores

Eles são a maré cheia

Das ilhas dos Açores

Como era de esperar, ouviram-se então palavras de reconhecimento por parte dos homenageados e a cerimónia terminou com os cantadores e tocadores convidados para essa noite a interpretarem um pezinho à moda da Terceira, improvisando quadras como:

Vasco Aguiar e José Fernandes

Os dois cantadores mais finos

Que faziam tremer os grandes

E ajudavam os mais pequeninos

São poços de inteligência

Que orgulham os cantadores

Serão sempre a referência

Das nove ilhas dos Açores

Terminava assim o intróito para a cantoria, que se iniciou com João Carlos Silva na guitarra e Januário Araújo na viola, acompanhando José Borges e José Esteves, dono de uma voz cristalina e perfeita dicção.

Foi a todos os níveis um desafio interessante e divertido, baseado nas atitudes da nova geração e, em termos graciosos, referindo a desacreditada fricção entre micaelenses e terceirenses.

No segundo segmento actuaram Fábio Ourique e António Isidro, acompanhados à guitarra por Délio Borba e à viola por Manuel Quadros.

Os dois jovens, com vozes fortes e bem timbradas, aludiram com admiração e respeito aos homenageados em alguns dos seus versos e, para terminar a sua intervenção, optaram por cantar dois fados, um dos quais "Lisboa Menina e Moça", que incitou a plateia a cantar com eles em uníssono.

Após um intervalo, assistiu-se ao terceiro desafio, novamente com acompanhamento musical de João Carlos Silva e Januário Araújo.

Desta feita defrontaram-se José Borges e José Plácido que, como era de esperar, gracejaram deles próprios e, em tom respeitoso, referiram-se com palavras de apreço e admiração aos seus colegas que nessa noite eram alvo de homenagem.

José Plácido continuou no palco para desafiar António Isidro, que voltou novamente à cena num confronto durante o qual deu para entender que os dois se admiram mutuamente, embora pertençam a faixas etária completamente diferentes.

Nota-se que todos os cantadores têm muita admiração pelas qualidades da improvisação, cultura e conhecimentos do idioma português de António Isidro, que acham que herdou o semblante do icónico e já falecido cantador Charrua.

Já passava da primeira hora da madrugada do domingo quando, ainda sem que ninguém arredasse pé, os tocadores e cantadores se preparavam para a tão desejada desgarrada, confronto conjunto que como habitualmente – e porque assim é que tem graça – viria a ser constituído por insultos, críticas, palavras maldosas e insinuações entre cinco cantadores de grande gabarito que são o orgulho dos amantes da cantoria à moda dos Açores.

No final do espectáculo, que teve som a cargo de Nelson Tavares, da TNT FX, todos pousaram para a foto da praxe com a equipa de voluntários e elementos da Direcção do Centro Cultural Português de Mississauga.


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