CANADÁ EM FOCO


Canadá/Covid-19: Segunda vaga da pandemia dá sinais de abrandar

Pela primeira vez em vários meses registaram-se duas semanas consecutivas em que o número de novos casos de Covid-19 e de mortes, quer a nível nacional, quer internacional, sofreu uma ligeira queda.

Assim, numa altura em que o número de infectados em todo o mundo ultrapassa os 107 milhões, com três milhões de novos casos (cerca de 700.000 menos do que na semana anterior) e 88.200 óbitos (que pela primeira vez desde Janeiro desceram abaixo de 90.000 por semana), a taxa de recuperação subiu para 73,6 por cento graças aos 78,7 milhões de pessoas que já superaram a doença.

Por seu turno, no Canadá houve 24.500 novos casos numa semana (número que pela primeira vez desde Novembro foi inferior a 28.000), para um total de 806.600 infecções desde o início da pandemia, enquanto que a taxa de recuperação atingiu os 92,2 por cento, ou 743.758 pessoas, e os 716 novos óbitos (o número mais baixo desde o início de Dezembro) elevaram para 20.821 as fatalidades até à data.

Na passada quarta-feira (3) foram revelados os detalhes para a reabertura das escolas e o regresso ao ensino presencial no Ontário, que no sul da província foi indicado teria lugar já nesta segunda-feira (8), excepto para as zonas mais afectadas, nomeadamente Toronto, Peel e York onde o ensino exclusivamente online vai prolongar-se por mais uma semana, até terça-feira (16), após o feriado do Dia da Família.

A província tinha então 106 casos confirmados da variante B.1.1.7 de Covid-19, e um da variante B.1.351 _ frequentemente referidas pelos nomes dos países onde primeiro foram identificadas, respectivamente Reino Unido e África do Sul _ temendo-se que estas estirpes mais contagiosas venham a dar azo a uma terceira vaga mais devastadora do que as anteriores.

Por esse motivo, peritos em saúde pública aconselharam o primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford, a prosseguir com cautela quando este anunciou uma reunião do seu gabinete para debater os próximos passos a tomar na gestão do confinamento.

Passavam-se cerca de quatro semanas desde que foi decretado o mais recente período de confinamento e era altura de rever o estado de emergência e as restrições em vigor.

No dia seguinte, quinta-feira (4) foi revelado que o Canadá tinha ultrapassado um milhão de inoculações com vacinas contra a Covid-19 e a Agência de Saúde Pública nacional indicava que nas últimas duas semanas se registou uma queda de quase 30 por cento no número de casos activos no país.

A ministra responsável pelas Aquisições a nível federal, Anita Anand, fortemente criticada nas últimas semanas, deu conta do resultado das auscultações feitas pelo governo junto dos fabricantes de vacinas com quem o Canadá assinou contractos no Verão passado, a propósito da possibilidade de as produzirem no Canadá.

Segundo indicou, todas disseram que não, alegando falta de instalações adequadas para fabrico de material biológico, embora houvessem empresas farmacêuticas canadianas dispostas a fazê-lo seguindo as instruções dos fabricantes.

Quanto à Novavax, cuja proposta de vacina aguarda aprovação do governo e anunciou que vai construir instalações de raiz no Canadá, as obras só se prevêem estar concluídas no Verão e a planta com capacidade de produção no fim do Outono.

Entretanto, o sindicato que representa os agentes da Real Polícia Montada Canadiana (RCMP, na sigla em inglês) pediu às entidades oficiais federais e provinciais para que considerem dar prioridade na administração da vacina contra a Covid-19 também aos "mounties" _ como são conhecidos os seus agentes _ para maior segurança, tanto deles como das comunidades onde actuam.

Segundo revelaram os serviços de saúde pública do Ontário, numa análise das infecções detectadas num só dia (20 de Janeiro), foram encontradas variantes do coronavírus em 5,5 por cento dos casos, a maioria dos quais ligados a um surto num lar de idosos em Simcoe-Muskoka.

Para evitar a propagação do vírus em geral, o governo provincial indicou que entre as medidas que estão a estudar inclui-se a possibilidade de virem a ser canceladas as férias escolares de Março, altura em que muitos estudantes tradicionalmente tendem a procurar destinos mais quentes e soalheiros.

A decisão só será tomada dentro de dias, mas no entretanto o governo anunciou alterações às regras que haviam sido impostas aos estabelecimentos que lavam e tosquiam animais de estimação _ conhecidos tanto em português como em inglês pela designação de groomers _ que passam a poder reabrir, sujeitos a algumas condições.

As regras foram alteradas para permitir que estes estabelecimentos prestem serviços que possam evitar a necessidade de recorrer a tratamentos veterinários "previsíveis e razoavelmente iminentes", segundo a linguagem oficial usada na legislação, assim como em situações em que o dono do animal foi citado e tem de cumprir com ordens dadas ao abrigo da lei provincial de protecção dos animais.

Os termos não são ainda completamente claros, mas em termos gerais significam que estes estabelecimentos _ que tiveram de encerrar por completo em Dezembro, após a intensificação das restrições _ vão continuar a ter uma intervenção muito limitada, nomeadamente em situações de "necessidade", e só vão poder aceitar um animal de cada vez, com marcação prévia e sem que haja contacto directo com o cliente.

Com a semana a chegar ao fim, foi anunciado que até à Primavera o número de vacinados no Canadá poderá quase duplicar se o Departamento de Saúde aprovar as três vacinas que está actualmente a avaliar.

Calcula-se que a inoculação proposta pela AstraZeneca seja aprovada a qualquer momento, enquanto que a da Johnson & Johnson se espera seja aceite até ao fim do mês e a da Novavax em Abril ou pouco depois.

De acordo com o Primeiro-ministro Justin Trudeau, apesar dos atrasos nas últimas semanas, o país está "bem a caminho" de receber seis milhões de doses das vacinas da Pfizer-BioNTech e da Moderna até ao fim de Março, tal como estava previsto, adiantando que tinha garantias dos directores de ambas as empresas.

Na mesma altura, a Oxfam Canadá e a ONE Campaign _ duas organizações que são líderes mundiais no combate à pobreza _ criticaram o Canadá por ter optado por obter quase 1,9 milhões de vacinas até ao fim de Junho junto do programa COVAX, que pretende fornecer vacinas aos países pobres.

No fim-de-semana, quando o número de casos de Covid-19 estava prestes a ultrapassar os 800.000, a dra. Theresa Tam, directora dos Serviços de Saúde do Canadá, indicou que os últimos dados apontam para uma diminuição na incidência de infecções, o que, segundo ela, revela a eficácia das restrições impostas.

Contudo, advertiu que é essencial continuar a cumprir as regras e ter fortes restrições em vigor para que essa tendência se mantenha.

No seguimento das polémicas em torno das prioridades de vacinação uma enfermeira que trabalha no lar de idosos Villa Leonardo Gambin, em Woodbridge, revelou que tinha recebido ordens para vacinar o presidente da direcção e alguns amigos e familiares da gerência por não haver um plano para a administração de uma remessa de vacinas cujo prazo de validade estava prestes a expirar.

Entretanto, no domingo (7) abriu o hospital Cortellucci Vaughan que com 185 camas _ 35 delas dedicadas a cuidados intensivos _ desde logo passou a funcionar como eixo para o tratamento de casos críticos e agudos de Covid-19, por forma a aliviar as instituições hospitalares na Área da Grande Toronto.

Nesse mesmo dia o Departamento de Saúde de Toronto confirmou a detecção dos primeiros casos de infecção com as variantes de Covid-19 do Reino Unido e da África do Sul na cidade.

Com o começo da semana chegaram também notícias de que os cientistas receiam que as novas estirpes do vírus não venham a responder às vacinas já existentes, especialmente a variante sul-africana.

A África do Sul mandou suspender a inoculação com a vacina da AstraZeneca por concluir que não tinha a eficácia necessária contra a variante predominante no país.

No entanto, o director-geral da OMS (Organização Mundial de Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, indicou que o estudo que levou a essa tomada de decisão envolveu um grupo pequeno de pessoas, na sua maioria jovens saudáveis, e apelou aos fabricantes de vacinas para que se preparem para as adaptar rapidamente, para que continuem a ser eficazes.

Enquanto isto, continuam a surgir indicações de que contrair a Covid-19 não protege das novas variantes, e talvez nem mesmo duma possível reinfecção com o vírus original, se o organismo não tiver desenvolvido defesas suficientes.

Apesar disso, os cientistas julgam que os casos de reinfecção continuarão a ser raros e normalmente menos graves do que os que ocorrem pela primeira vez.

Com o número de novas infecções a diminuir, o governo do Ontário anunciou que a partir de quarta-feira (10) iria levantar algumas restrições e suspender as ordens de confinamento em três zonas no Leste da província, onde a taxa de infecção é relativamente baixa.

Todas as outras zonas vão continuar em confinamento durante mais uma semana, enquanto que em Toronto, Peel e York as restrições vão manter-se pelo menos até ao dia 22.

O plano esboçado pelo primeiro-ministro provincial deixou expirar a declaração de estado de emergência na terça-feira (9) mas prevê um "travão de emergência" que permite voltar a decretar confinamentos regionais se os casos dispararem, especialmente se envolverem as novas estirpes, mais contagiosas, do coronavírus.

A variante britânica, que num surto em Barrie matou metade dos residentes do lar Roberta Place, passou de 155 casos detectados na sexta-feira (5) para 219 na segunda-feira (8), mantendo-se apenas um caso da variante sul-africana.

Segundo o dr. David Williams, director dos serviços de saúde do Ontário, o aliviar das restrições não significa "uma reabertura ou `regresso à normalidade'", enfatizando a importância de "limitar os contactos e ficar em casa, a não ser por razões essenciais".

A execução de acções de despejo por não pagamento da renda seguem o mesmo padrão do levantamento das restrições, voltando a ser cumpridas desde quarta-feira (10) nas regiões do Leste da província _ Hastings-Prince Edward; Kingston, Frontenac, Lennox e Addington; e Distrito e Concelho de Renfrew.

Vinte e oito outras regiões voltam também a poder dar seguimento a ordens de despejo de inquilinos na terça-feira (16), enquanto que em Toronto, Peel e York estas só serão cumpridas a partir de 22 de Fevereiro.

Tal como se previa, na terça-feira (9) o governo federal anunciou que a partir da próxima semana quem entrar no Canadá por via terrestre vai ter de mostrar um comprovativo de que se submeteu a um teste de despistagem da Covid-19 nas 72 horas antes de tentar atravessar a fronteira _ à semelhança das regras já em vigor para os viajantes que chegam por via aérea.

Segundo o Primeiro-ministro, os cidadãos ou residentes permanentes que não tenham feito o teste vão continuar a poder regressar ao país pois, como refere, o Canadá não lhes pode negar entrada, mas realça que, a partir desta segunda-feira, os testes passam a ser obrigatórios e quem não os tiver feito poderá incorrer numa multa até 3.000 dólares.

Em qualquer dos casos, a maioria dos viajantes "não essenciais", mesmo os que regressam ao país, continuam a ter de ficar em quarentena durante 14 dias.

Foi ainda esta semana que foi revelado que o Departamento de Saúde do Canadá deu autorização à Pfizer/BioNTech para contabilizar seis doses de vacina por frasco, em vez das cinco inicialmente rotuladas, a pedido da companhia.

Isto significa que a farmacêutica pode cumprir com os termos do contracto assinado com o Canadá, que estipula uma remessa de 40 milhões de doses, embora tenha de enviar menos frascos.

Recorde-se, porém, que para se conseguirem extrair seis doses de cada frasco é necessária uma seringa especial que neste momento, face à exigência da Pfizer de re-rotular os frascos, escasseia em todo o mundo.

Entretanto, em mais um rude golpe para o sector da aviação e de viagens, a transportadora aérea Air Canada anunciou o despedimento temporário de 1.500 funcionários sindicalizados e de um número não especificado de gerentes devido ao corte de mais 17 rotas para os EUA e outros destinos internacionais, com efeito a partir de 18 de Fevereiro e até 30 de Abril.

Numa nota mais positiva, um estudo elaborado por economistas do banco CIBC e revelado dias antes prevê que a vida nas grandes cidades do país volte à normalidade logo após a pandemia, a par do mercado imobiliário, uma vez que as empresas indicam que pretendem pedir aos empregados para voltarem aos escritórios em vez de continuarem a trabalhar de casa.


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