CANADÁ EM FOCO


Militar canadiano que atacou Rideau Hall declara-se culpado em tribunal

Corey Hurren, o militar canadiano na reserva que em Julho entrou violentamente pelos jardins de Rideau Hall com a camioneta, deu-se como culpado de oito acusações de que é alvo, durante uma audiência do tribunal que teve lugar na passada sexta-feira (5).

A sua intenção, expressa durante a audiência, era fazer "uma declaração" ao Primeiro- ministro Justin trudeau, durante uma das conferências de imprensa diárias que na altura se realizavam.

O militar veterano, de 46 anos, começou por ser indiciado por 22 crimes relacionados com esta sua acção, mas acabou por se dar como culpado de sete relacionados às armas de fogo que trazia consigo e de uma acusação de mau comportamento pelos estragos que fez no portão.

Segundo o testemunho prestado em tribunal, Corey Hurren deixou um bilhete à família e aos amigos onde dizia não aguentar mais as restrições que foram impostas devido à pandemia de Covid-19, bem como os prejuízos que sofreu com o encerramento forçado da sua empresa.

A nota fazia alusão também à mais recente proibição de compra de armas e indicava sentir que o Canadá estava sob uma ditadura comunista.

De acordo com a declaração de factos mutuamente acordada e que foi lida em tribunal, na manhã de 2 de Julho, depois de esbarrar com a camioneta contra o portão, Corey foi visto através do sistema de vigilância a munir-se de várias armas de fogo antes de se afastar a pé do veículo.

Quando um polícia se aproximou dele e lhe pediu para pousar a arma no chão, recusou e disse: "não posso fazer isso", mesmo quando este voltou a insistir para que o fizesse.

Um segundo agente da polícia que chegou ao local constatou que o réu tinha uma caçadeira na mão direita, apontada ao chão, e uma outra às costas, encontrando-se ainda uma terceira espingarda no chão.

Quando invadiu Rideau Hall e se dirigiu à residência do Primeiro-ministro, Corey Hurren tinha em sua posse uma caçadeira Lakefield Mossberg, uma caçadeira Grizzly Arms _ ambas carregadas _ um revólver Hi-Standard cuja posse é proibida, uma espingarda M14, também proibida, e uma pistola basculante International Arms.

No decorrer da audiência foi revelado que a companhia do réu tinha falido devido às restrições que foram impostas durante a pandemia e não se qualificava para os subsídios de emergência, sentindo-se por isso zangado e "traído pelo seu governo".

"Não lhe resta nada", disse um dos polícias que investigou o caso.

O réu explicou que se dirigiu de Manitoba a Otava porque queria prender o Primeiro-ministro, para lhe mostrar "o quanto as pessoas estavam zangadas com a proibição de armas e com as restrições da Covid-19".

Corey Hurren considera Justin Trudeau "um comunista corrupto, que está acima da lei" mas, segundo a declaração de factos acordada e apresentada em tribunal, indicou não pretender matá-lo.

Num dos depoimentos que prestou à Real Polícia Montada Canadiana (RCMP, na sigla em inglês) após ser detido, disse que talvez tivesse sido preferível fazer "um movimento súbito", para que fosse abatido ali mesmo, mas que não queria "f—r os tipos" _ os agentes da RCMP _ mais do que já tinha feito.

A sua intenção, revelou, era que a sua acção fosse vista como "uma chamada de atenção" e permitisse uma "mudança de direcção" e disse não ter um plano formado, mas que se sentia mais descontraído nessa manhã, como há muito tempo não acontecia.

Deu ainda indicações de estar preocupado com a forma como a RCMP o iria encarar e com possíveis comparações "ao outro tipo", referindo-se a Michael Zehaf-Bibeau que num atentado terrorista em Outubro de 2014 atacou o Parlamento e alvejou mortalmente um soldado.

Questionado após ser detido se se arrependia de alguma coisa, disse apenas ter pena de não ter parado para olhar para a estátua de Terry Fox _ o atleta canadiano que se tornou famoso ao atravessar a pé o Canadá, de costa a costa, após ter perdido uma perna devido ao cancro.

O réu, que se identifica como métis (mestiço de origem indígena e francesa) também disse à RCMP que no Canadá deixam as pessoas que "têm a cor certa" ter armas proibidas.

Dados recuperados do telemóvel e das suas contas nas redes sociais davam conta de conversas com os amigos em torno de "teorias de conspiração relacionadas com o governo canadiano" e com a Covid-19 e abordava ainda o massacre que havia ocorrido em Abril, na província da Nova Escócia, especulando acerca de uma teoria de "sacrifício".

A próxima audiência no tribunal está marcada para dia 23 de Fevereiro.


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