PENA & LÁPIS


O cerco fechou-se: Não podemos viajar

Ilhas das Caraíbas não estão imunes ao vírus…

Por Inácio Natividade
Sol Português

Pronto, o cerco fechou-se. Já não podemos viajar para fora do país. De facto, viajar para onde se o mundo todo está infectado com coronavírus?

A suspensão de voos anunciada pelo Primeiro-ministro Justin Trudeau abrange companhias aéreas como a Air Transat, Air Canada, Sunwings e West Jet, impedindo-as de voarem paras as ilhas das Caraíbas e para o México, e é o complemento de todas as outras medidas de protecção e combate à pandemia.

O período de proibição vai de 29 de Janeiro a 31 de Abril e é, na minha perspectiva, a última machada na liberdade de escolha face ao confinamento.

As companhias aéreas cessaram imediatamente as operações para aqueles países, mas antes trouxeram de regresso à realidade os que lá se encontravam a gozar do sol e do mar, a beber tequilha e rum, e a dançar batchata, merengue, cumbia e outros ritmos tropicais.

O governo parece sempre predisposto a proteger-nos de tudo menos do resto. Também exigiu novos testes e três dias de quarentena após a chegada ao Canadá.

Medidas draconianas? De forma alguma. As novas variantes da Covid-19 – conhecidas por B.1.351, com origem na África do Sul; P.1 com origem no Brasil, e B.1.1.7, com origem no Reino Unido – constituem um autêntico desafio e gigantesca dor de cabeça.

A taxa de transmissão é pelo menos 35 a 45% mais elevada do que a estirpe inicial e a prevalência duplica a cada 10 dias.

O governo, ao extremar medidas de contenção, pretende frear a curva de crescimento dos casos de contágio importados uma vez que as novas variantes podem potencialmente causar taxas de morbidade e de mortalidade mais graves.

No passado fim-de-semana, infelizmente, chegou a informação de que nem todas as vacinas desenvolvidas até ao momento são eficazes para essas variantes.

Entretanto, a hipótese da pandemia ter sido causada por um vírus que se escapou de um laboratório chinês foi descartada pela missão das Nações Unidas em Wuhan.

Os cientistas da Organização Mundial de Saúde pensam que tenha havido uma espécie intermediária (cães, gatos ou outro animal) mais próximo dos homens e na qual o vírus se pôde adaptar melhor ao ser humano e tornar-se mais contagioso.

Um pesadelo atrás de outro. Nada parece exacto nesta vidinha que se tornou um amontoado de incertezas nefastas a atingir o ponto de ruptura existencial e a obrigar-nos a lutar contra a clausura da casa.

As Caraíbas eram o local predilecto, um lugar aprazível para reflexão e descanso. Mas estas ilhas também não estão imunes ao vírus, que já deixou milhões de pessoas infectadas e provocou milhares de mortes.

A medida do governo federal vem mitigar as consequências dos casos importados, mas tem um impacto económico desastroso para as companhias aéreas e adensa os problemas de foro psiquiátrico.

Numa sociedade que controla tudo e nos obriga ao confinamento e ao afastamento social, mais esta proibição de viajar pode acicatar problemas preexistentes. Se até os cães deixaram de latir e os gatos de miar…

A insanidade mental, violência doméstica, rupturas matrimoniais e divórcios têm vindo a assumir proporções alarmantes… Estaremos à beira de um ataque de nervos que vai distinguir os mais fortes dos outros? Talvez sim.

Neste mundo cada vez mais transvestido, em que nem todos vivemos a mesma realidade factual, temos de interagir com os mais idosos e devemos dar apoio aos que estão menos capacitados para enfrentar a solidão sem uma bebida na mão – que apesar dos efeitos ansiolíticos causa dependência – e impedir outros de recorrer à droga, que só os leva a um beco sem saída e à autodestruição.

Psicólogos e psiquiatras não têm mãos a medir. Nesta altura do campeonato procuram prevenir que muitos vivam num mundo fictício e imaginário para se refugiarem da realidade, levando-os a voar em pensamento e no tempo sem ponto de partida – facto que bem pode significar uma espécie de morte antecipada.

Lidamos com um flagelo cuja dimensão depende do comprometimento de todos em lidar com as regras e restrições impostas durante este regime de confinamento.

De tudo quanto se sabe, o coronavírus fica encrostado no nariz e ataca o sistema imunológico quando lhe convém.

Pode já estar à solta nos nossos pulmões e nas vias respiratórias, mas o nosso sistema imunológico enquanto estivermos assintomáticos, acha que está tudo bem.

Talvez fosse útil a ciência explicar quais são os factores genéticos que conduzem a uma doença mais severa para para uns e assintomática para outros...

As pessoas devem sempre sujeitar-se ao teste como medida preventiva. Estamos ansiosos, intranquilos, mas ficar em casa é a solução adequada face às circunstâncias.

Temos todos ter fé, que melhores dias certamente virão.

Neste momento de dificuldade, ajudar os idosos tem sido gratificante para mim. Nada de idealismo mas realismo. Exige mínimo esforço; apenas empatia.

Ouço histórias – cada idoso é uma história de várias vidas, e porque ser idoso é a última etapa na vida de alguém, cada livro pode ter diversas leituras.

Dado as doenças crónicas que os abatem, ostracizados pela família, merecem de todos o maior carinho.

Muitos idosos a viver na solidão quase não recebem visitas. Para um africano como eu soa a contraproducente desumanismo e a crueldade.

Os mais idosos, tenham ou não posses, constituem o pólo central numa família que se preza.


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