PENA & LÁPIS


Vitrúvio, Sulpícia e a Covid

Por Francisco G. Amorim
Sol Português

Há algumas décadas, lá bem no "intériô" do grande país conhecido como Estados Unidos do Piauí (glorioso nome de uma terra acolhedora, como lhe chamou Luiz Gonzaga, o grande rei do baião), "ali" nos arredores de São Francisco das Chagas, o povo, cansado de caminhar debaixo daquele solzão implacável até à sede do município para, aos domingos, ouvir a palavra de Deus, juntou-se um dia para obrigar o prefeito, agnóstico e semi-comuna, a construir uma igreja dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Sertanejos, sem esquecer um pequeno altar para o peregrino António Conselheiro, mártir da sua fé, muito amado e respeitado no Nordeste.

O local, há muito escolhido, só aguardava a decisão da construção. Uma pequena estátua a Lampião e Maria Bonita ficaria para depois, no largo em frente da igreja, e quando para isso houvesse verba.

O povo reuniu-se e ninguém conseguia dar palpite, muito menos esboçar um traçado do templo. Queriam obra que não envergonhasse a terra. Nada de luxo. Mas respeito e beleza não custam caro. Teria que ter lugar para umas cem pessoas e que as imagens fossem todas encomendadas ao Mestre Vitalino. Grandes as dos santos e duas menores, para não chocar o bispo; uma de António Conselheiro e outra do Padim Pade Ciço.

O prefeito tinha um primo em Teresina, a capital daquele país, cujo filho estava a estudar arquitectura, sem parecer capaz de terminar o curso. Mas alguma coisa ele devia já saber disso, e não iria cobrar nada pelo projecto.

Assim decidido, vem o eterno estudante da capital, ar feliz por tão distinta honra que o povo lhe prestava ao encomendar-lhe um projecto. E logo uma igreja.

Seu Severino, quem tinha a maior casa do lugar, dispôs logo de um sítio para abrigar o futuro distinto arquitecto, que na tarde do dia da chegada nada mais fez do que comer bem e beber umas pingas, famosas naquela terra.

Raimundo, o arquitecto a ser, quis mostrar erudição e, sem quase saber o que era um ângulo recto, foi dizendo ao seu hospedeiro que, quando recebeu o convite, foi estudar um pouco dos respeitáveis mestres antigos e tinha encontrado um que se encaixava perfeitamente no desejo do povo. Um romano antigo, mais antigo do que Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Mãe Maria Santíssima, um arquitecto muito famoso, quase o pai dos arquitectos todos, que se chamou Vitrúvio!

Seu Severino, só de ouvir tal nome já antevia a igrejinha lá da terra a concorrer com as grandes catedrais, sobretudo com a da capital que ele havia visitado uma vez.

A esposa, dona Vitória, estava de barrigão e o casal não sabia ainda que nome dar à criança quando nascesse. Ficou logo decidido: se for macho vai ser Vitrúvio. Não tem outro em todo o Nordeste. E assim foi.

Entretanto a igreja cresceu rápido, já que toda a população colaborou, e quando pronta, as belas imagens próprias da arte brasileira nos respectivos lugares, veio o bispo proceder à Dedicação a Nossa Senhora.

Vitrúvio já tinha nascido, mas seu Severino esperou para o baptizar na nova igreja, e pelo bispo! O cerimonial começou com procissão, depois missa cantada e por fim grande festa. O povo agora tinha a "sua" igreja onde o padre da sede do município ia todos os domingos celebrar.

Desde menino, Vitrúvio foi ouvindo que o nome dele era o de um grande arquitecto de 2.000 anos atrás, o que lhe conferia distinção e orgulho. Foi crescendo e logo que conseguiu juntar alguns mirreis começou a interessar-se pelo que se passara no tempo do seu patronímico e botava figura ao mencionar nomes jamais ouvidos lá no sertão.

Rapaz inteligente e trabalhador, com alguns bens que a família lhe iria deixar, fez saber que só casaria quando encontrasse uma moça que se chamasse Sulpícia! Talvez a maior poetisa romana dos tempos vitruvianos. No ano seguinte, três lindas meninas foram baptizadas com esse nome.

Os anos foram passando, Vitrúvio estudou na capital até ao fim do colegial sem deixar de acompanhar a evolução das possíveis pretendentes! Uma logo se destacou. Bonita, ar de saúde, simpática. Quando fez 12 anos Vitrúvio teve uma conversa com os pais dela e logo se estabeleceu que, quando ela fizesse 18, casariam. E aconteceu, com grande festa.

Foram nascendo alguns filhos: Petrónio, César, Pompeia e Messalina. O orgulho do casal, cujos bens tinham aumentado muito com a dinâmica administração do seu Vitrúvio.

Como nem tudo que brilha é ouro, um dia chegou uma notícia terrível: tinha chegado ao Brasil um bichinho que matava mais do que cobra cascavel ou coral, mais do que a malária ou onça esfaimada, com um nome estranho que lhe cheirava a coisa romana: Covid.

Vitrúvio pesquisou na sua biblioteca, no dicionário de latim, e nada encontrou com esse nome. Preocupado com a possibilidade do bicho se espalhar pelas matas e sertões, foi a Teresina consular especialistas.

O primeiro veterinário logo lhe disse que não era bicho mas doença grave, um vírus que ataca os humanos. Qualquer coisa como o que para o Brasil tinham trazido os europeus, que só de se aproximarem dos índios estes morriam sem ninguém saber como nem o porquê.

Mais assustado, Vitrúvio foi procurar o médico mais conceituado da cidade, que lhe deu uma rápida explicação do problema, sem igualmente deixar de antes lhe mostrar a semelhança entre o que aconteceu nos primeiros tempos da colonização, quando grupos que através dos tempos foram ganhando imunidade e os "inocentes" que entravam em contacto com novas doenças morriam logo. Ainda lembrou que os europeus também levaram do Brasil algumas doenças desconhecidas na Europa, como a sífilis.

O médico explicou-lhe que o assunto era muito grave, mais ainda porque ninguém em todo o mundo sabia como tratar essa nova doença e que, enquanto a população não tivesse criado imunidade, estaria sempre sujeita a ser infectada por alguém que fosse portador desse vírus. Recomendou-lhe os normais conceitos de higiene e que usassem uma máscara, porque o maldito vírus entra pelo nariz e boca. Mas frisou: se toda a gente se isolar e ninguém lá na sua região apanhar a doença, todos continuarão sempre a poder apanhar a doença porque não têm imunidade!

Cientistas de todo o mundo estão a pesquisar vacinas, mas até que isso possa ser uma garantia são necessários vários anos de pesquisa-ensaios-erro e acerto, e entretanto vai morrer muita gente, sobretudo os que tiverem já doenças mais ou menos grave, idosos debilitados, etc.

Disse-lhe, por fim: "Meu amigo, não se afobe [preocupe], mas tenha cuidado. Nós não podemos ficar todos isolados, em casa, porque aí, sim, morreríamos de inanição e fome. Mas tomando os cuidados necessários, devemos escapar... e um dia os médicos acabarão por encontrar como curar esses doentes e chegará a vacina – não sei quando! Só nessa altura voltaremos a ter uma vida normal. Mas não esqueça: o vírus veio para ficar como todos os outros vírus de gripes, tuberculose, sarampo, varíola, malária, etc. E ainda hoje há gente que morre disso!

E não acredite muito nessa massiva publicidade na tv e outros órgãos de informação, porque por detrás de tudo isto, que já é uma tragédia, e grande, há quem estimule e amedronte as pessoas para derrubarem as economias dos países. Com que finalidade, ainda não se sabe bem, mas se isso acontecer o problema será muito maior do que a doença em si.

Vitrúvio, abalado, agradeceu muito e prometeu mandar ao médico umas garrafinhas da boa pinga que ele mesmo produzia nas suas propriedades.

Doutor. eu acho que se beber umas pinguinhas todos os dias esse vírus arretado vai dar-se mal!

Depois, comprou algumas máscaras, poucas, e voltou para casa. Chamou toda a população da área, reuniram-se na igreja, e contou o que tinha ouvido e aprendido. Aconselhou que toda, toda a gente confeccionasse as suas próprias máscaras, coisa fácil de fazer, que se deixassem de conversinhas de pé de orelha, se mantivessem um pouco afastados e lavassem as mãos a toda a hora. Mas continuassem a trabalhar. Parados morreriam de fome!

A forasteiros serão impostas, com todo o rigor as mesmas regras.

E assim, até hoje, vizinho de São Francisco das Chagas vai levando a vida à espera que a ciência resolva tão intricado problema.

E quando lá chegar a tão desejada vacina, experimentada e devidamente testada, o povo vai vacinar-se e fará a grande festa, com a especial paçoca, carne de sol, Maria Isabel, bode assado, baião de dois, sarapatel e outras iguarias; a cachaça a correr e as sanfonas a cantarem a alegria de viver. A alegria da vida e a tristeza da seca quando todos cantam Asa Branca.

Nesse dia eu vou lá tambémm

www.fgamorim.blogspot.com


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