PENA & LÁPIS


As seringas!

Por Hélio Bernardo Lopes
Sol Português

Quando este texto começar a ser lido pelo leitor, comece por responder a esta minha pergunta: tem dormido bem nos últimos dias? Se tiver tido a sorte de ter conseguido dormir um sono continuado e retemperador, terá conseguido que se tenha libertado do seu cérebro boa parte do lixo que também nele se vai acumulando com o tempo, mas também poderá agora compreender que a tal escassez de seringas destinadas às doses das actuais vacinas, presente em todo o mundo, não lhe causou um ínfimo de nervosismo nem de ansiedade.

Como o leitor percebe facilmente, o Governo não vem andando por aí a badalar com a escassez daquele tipo de seringas. Além do mais, tem que tratar dos destinos do País e de ir resolvendo a catadupa de problemas que sempre surgem a quem realmente governa, no lugar de simplesmente viver de casos. O novo caso político das seringas foi-nos trazido, qual caixa jornalística para encher papel ou ocupar tempo de antena televisivo, pela grande comunicação social. Uma realidade há muito percebida, fruto da necessidade de deitar a a mão a casos e casinhos, a fim de conseguir prender a atenção dos leitores, ou dos telespectadores.

Por enquanto, os partidos da oposição ainda não se deitaram a aproveitar esta mais recente caixa ao redor da escassez do tal tipo de seringas. Em todo o caso, o leitor deverá estar atento ao próximo caso, porque este das seringas não deverá ser susceptível de grande aproveitamento noticioso ou político.

No momento que passa, o tema que parece ainda alimentar a grande comunicação social parece ser o das vacinas supostamente utilizadas por quem o não deveria ter feito. No momento em que escrevo o presente texto, o tal problema das vacinas vai já no Atlântico, em plena Região Autónoma dos Açores, bem mais perto dos Estados Unidos que o Havai. O que nos coloca esta questão: para quando a Região Autónoma da Madeira?

Pensando um pouco – nem é preciso pensar muito – percebe-se que este problema das vacinas, e o da sua aplicação indevida, poderá conter duas vertentes: um problema mal formulado e um problema sem solução. Mal formulado porque os critérios realmente seguros são poucos: profissionais da Saúde e de acção social, pessoas com mais de 80 anos e concidadãos a viverem em lares. Simplesmente, mesmo olhando só estes grupos, desconhecendo o seu número exacto, o problema só terá solução se existirem vacinas na quantidade adequada. E, dado que a coragem de recorrer à vacina Sputnik V cresce muito lentamente no Ocidente, há que esperar e ter esperança e optimismo.

Simplesmente, o problema em causa pode não ter solução, mas a contento de todos. Se o caminho do Governo for um, a oposição e a grande comunicação social diz que está mal. Mas se o Governo escolher um outro caminho, aquelas forças dizem que... está mal. É como com a Rússia, especialmente com o Presidente Vladimir Putin no poder: está sempre mal, mesmo que se tenha de vir a recorrer à Sputnik V, de preferência, às escondidas.

O problema das seringas é como o das vacinas. Também aqui o Governo terá de estar mal, dado que tinha o dever – é a conversa da oposição... – de ter conjecturado a possibilidade desta escassez ora à vista de todos e por toda a parte. E o mesmo com os critérios de aplicação das vacinas. Falta em Portugal, na oposição e no jornalismo, a coragem de dizer a verdade: o óptimo não existe, quer porque o problema não é susceptível de ser bem formulado, quer pelo modo português de viver a luta partidária, quer porque o problema poderá mesmo não ter solução.

Em resumo: se o leitor vem dormindo continuadamente e bem, não se deixe levar por maus sonhos, mesmo que com seringas de agulhas muito grandes, porque o problema só existe por via da grande comunicação social, carente de temas como a boca com o pão. Durma descansado e esteja atento ao próximo caso-episódio.


Voltar a Pena & Lápis


Voltar a Sol Português