PENA & LÁPIS


Sobre os Ombros do Passado:

Pioneiros que construíram e marcaram a nossa Diáspora

O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.

– Mário Quintana

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Por Diniz Borges
Sol Português

A comunidade de origem na zona centro/sul do Vale de San Joaquim, um dos vales mais férteis do mundo, e seguramente o mais fértil nos Estados Unidos, com presença na literatura açoriana, particularmente na poesia, tem sido uma região importante para a nossa emigração dos Açores para terras do Eldorado.

É neste mítico e místico Vale, que também tem sido de lágrimas e injustiças, como narrou John Steinbeck, onde, tal como escreveu o poeta Marcolino Candeias, "não há paredes e o conho ribomba pela campina fora", que muitos emigrantes de todas as ilhas do nosso arquipélago refizeram as suas vidas, plantaram as sementes da cultura açoriana e construíram a açorianidade que hoje se vive um pouco por todo este Vale.

As vivências de hoje não apareceram por mera obra e graça do Espírito Santo, pelo contrário, foram construídas por uma amalgama de homens e mulheres que em tempos idos fomentavam a comunidade de hoje. Nesta zona do Vale de San Joaquim, onde hoje vivem algumas das nossas comunidades, totalmente integradas, a rádio em língua portuguesa, que nesta zona data 1931, foi o veículo que mais construiu comunidade e criou as estruturas que hoje temos.

Não seriamos a mesma comunidade, nem nesta zona nem em todo este estado da Califórnia, sem a rádio em língua portuguesa e as personagens que a fizeram, homens e mulheres que nos marcaram para sempre e que jamais devem ser esquecidos.

Longe vão os tempos em que esta zona da Califórnia (de Fresno a Bakersfield—uma distância de quase 200 quilómetros) possuía uma amalgama de programas de rádio, feitos pelas mais diversas personalidades, muitos com estilo verdadeiramente artesanal, mas todos contribuíam para uma comunicação constante com a comunidade.

Muito antes da antiga emissora KIGS, que transmitiu totalmente em português durante pouco mais de duas décadas; muito antes da primeira estação de rádio em circuito fechado na Califórnia – o Rádio Clube Comunidade, fundado em 1982; e antes da estação KTPB, também em circuito fechado e que tentou fazer o inimaginável: juntar todos os programas de rádio, a qual durou cerca de uma dúzia de anos. Muito antes de tudo isto, os programas de rádio em língua portuguesa, transmitidos nas mais variadas estações foram vozes extremamente pertinentes nas vidas das nossas comunidades.

Tal como essas mesmas estações, todos separadamente e em uníssono deram um valioso contributo à nossa comunidade. Daí que é importante que num momento em que passamos a largos passos para uma nova comunidade, relembremos na comunidade e informemos os Açores sobre estas figuras iconográficas. Porque sem os homens e as mulheres de uma rádio já desaparecida, não teríamos sido a mesma comunidade.

De tantos nomes que existem e que precisam de ficar nos anais da nossa história da emigração açoriana para os Estados Unidos, destaco Joaquim e Amélia Morisson, emigrantes da ilha do Faial que todas as tardes de domingo, precisamente pelas seis horas, ao som da célebre marcha "Estrelas e Riscas" do compositor luso-descendente John Phillip Sousa, apresentavam através das ondas hertzianas o programa Ecos do Vale. Durante 90 minutos a comunidade de origem portuguesa nos condados já referidos, e em outros onde chegava esta estação, literalmente, parava para ouvir e aprender com o casal Morisson. Os seus contributos para a nossa comunidade ainda hoje são sentidos.

Primeiro, e acima de tudo há que referenciar que num momento em que a instrução dos locutores das nossas rádios era limitada, o casal Morisson denominava com mestria a língua portuguesa. Daí que os 90 minutos do seu programa eram uma aula de português. Antes de sonharmos com escolas e cursos de língua nas nossas instituições ou no ensino público americano, de domingo a domingo, o casal Morisson, ensinava, para quem quisesse aprender, a arte do bem falar.

Durante uma hora e meia não havia um único tropeço linguístico. Para crianças e jovens, que como eu haviam emigrado muito novos (no meu caso com 10 anos de idade) ouvir, religiosamente, Ecos do Vale era a única forma de continuarmos a aprender a língua portuguesa em terras americanas.

Numa era em que a nossa emigração dos Açores era composta de homens e mulheres com pouquíssima instrução escolar, muitos com dificuldades na sua própria língua, o casal Morisson, ao contrário de outros colegas seus, mantinha a integridade da língua portuguesa. Da publicidade aos comentários, das notícias da comunidade às novidades da mãe pátria, Joaquim e Amélia Morisson, mantinham um programa de rádio organizado, bem-apresentado, bem-humorado e com um português que, tal como dizia o meu pai: consolava ouvir.

Um dos segmentos únicos nesta rádio em língua portuguesa eram as suas famosíssimas Lições do Joaquim. Uma rubrica que marcava o programa e que marcou a comunidade. Nesses longínquos anos, nas décadas de 1950, 60, 70 e começo dos anos 80, as Lições do Joaquim eram, nesta zona da Califórnia, radio-teatro no seu melhor.

Durante 10 a 12 minutos, Amélia Morisson voltava ao seu tempo de professora primária nos Açores, com um único aluno: o seu marido Joaquim. Nessas lições vivia-se a comunidade, Portugal e os Estados Unidos. As Lições eram mais do que meras rábulas, eram sim, autênticas lições de história, sociologia, filosofia, antropologia, política, língua e cultura.

As posições progressistas que o casal Morisson assumia através destas lições estavam alicerçadas numa tradição portuguesa e açoriana fortemente influenciada pelo culto do Espírito Santo, e a solidariedade que o mesmo envolve, assim como os princípios da justiça social que se alastravam aqui nos EUA, particularmente nos finais da década de 1960.

O casal Morisson, no seio de uma comunidade bastante conservadora, eram vozes de progresso e as Lições do Joaquim reflectiam um acto de coragem e ousadia.

O programa Ecos do Vale e a postura do casal Morisson na comunidade açoriana do centro/sul do vale de São Joaquim, através do seu serviço de emigração e notário público, foram marcantes.

Num período em que seria muito fácil enriquecer à custa da falta de conhecimentos de uma emigração pacata e desconhecedora do mundo que a rodeava, e muitos pelo estado da Califórnia fizeram fortunas na rádio e no aproveitamento da comunidade de então, o casal Morisson manteve uma verticalidade ímpar. Os seus serviços eram sempre mal remunerados e quer Joaquim, quer Amélia, para além da rádio, trabalharam imenso para a integração da nossa comunidade, particularmente ao longo entre 1960 e 1981. Acreditavam, veementemente, na integração sem diluição, e já nessas décadas apelavam à participação cívica das nossas comunidades, encorajando os emigrantes a adquirirem a cidadania americana. Através do seu programa, e nos fóruns públicos em que participavam, fomentavam o desejo de ver a nossa comunidade mais instruída e mais envolvida no mundo que a rodeava.

Recordo-me que as Lições Joaquim propunham à comunidade que o ensino, os cursos superiores, eram a trajectória certa para as futuras gerações e que os pais, mesmo com poucos ou nenhuns conhecimentos da língua inglesa, deveriam envolver-se no ensino dos seus filhos e encorajá-los a irem mais além. Ter um discurso destes, numa comunidade que acabava de chegar, particularmente nos anos 60 e 70 do século passado era louvável e de uma grande visão. Uma audácia que nem sempre tinha eco.

Era através dos Morisson's que muitos dos imigrantes dos Açores conseguiam o seu primeiro emprego, adquiriam conhecimentos sobre como abrir uma conta bancária, comprar o seu primeiro carro, conseguir carta de condução e saber as notícias da nossa terra. Este casal, literalmente, dava as mãos à nossa comunidade recém-chegada e levava-os pelos caminhos do novo país.

Como referenciei, teria sido muito fácil explorar gente tão necessitada. Não o fizeram, e isso diz-nos muito sobre a sua integridade, o seu caracter.

É importante que nas nossas comunidades de origem açoriana, espalhadas por todo o continente americano, façamos um levantamento sobre o nosso passado colectivo, que se arquivem as nossas histórias e que celebremos condignamente quem construiu a comunidade que hoje temos. E que nos Açores se saiba que os homens e mulheres que saíram das suas freguesias, vilas e cidades sempre souberam dignificar a sua terra e a sua cultura. Como comunidade, a nossa trajectória não começou ontem, nem começou com a actual geração. Se hoje somos a comunidade que somos, devemo-lo a pessoas iconográficas como Joaquim e Amélia Morisson.

A história destes e doutros pioneiros não pode ficar esquecida. Os jovens precisam saber como foi construída a comunidade que eles hoje usufruem. É que tal como foi dito algures: entre o passado, onde estão as nossas recordações e o futuro, onde estão as nossas esperanças, fica o presente onde está o nosso dever.


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