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Caldense acolhe cantadores e tocadores populares das Janeiras

Padaria e pastelaria luso-canadiana foi mais uma vez palco para demonstrações da tradição de Cantar os Reis

Por João Vicente

Sol Português

Fez este mês 29 anos desde que a Casa dos Poveiros de Toronto, colectividade pioneira na implantação da tradição de cantar os Reis e as Janeiras nesta cidade, começou a levar os seus cânticos até à padaria Caldense, um dos estabelecimentos mais populares da comunidade portuguesa.

Na altura a padaria luso-canadiana tinha apenas um estabelecimento, na rua Dundas, mas desde então abriu outras lojas em diferentes locais da cidade e todos os anos estes cânticos se escutam em várias delas, levando um pouco da cultura portuguesa aos seus clientes – portugueses e não só – agora a cargo também de outros grupos que entretanto foram despontado.

Na passada sexta-feira (5), no aniversário destas quase três décadas de cânticos natalícios, foram novamente os Poveiros os primeiros a levar a tradicional sonoridade da época até ao estabelecimento original, numa celebração anual que visa preservar e transmitir este costume etnográfico e religioso ligado aos três Reis Magos.

"Foi aqui que tudo começou", referiu Linda Correia, presidente da Casa dos Poveiros, destacando a obra dos fundadores da tradição a que dão continuidade.

Realçando o percurso que apesar do tempo gélido tinham já efectuado nesse dia, incluindo visitas a estações de rádio e televisão, a dirigente poveira adiantou que também "amanhã temos o dia inteirinho a andar por estas lojas e comércio, que são os nossos patrocinadores".

No repertório levaram os cânticos de Natal e dos Reis, além de algumas brincadeiras que foram salpicando pelo meio, "para animar a malta", e no seio do grupo incluíam-se também muitos jovens, algo que lhe dá grande regozijo e acha "bonito" de se ver.

Terminada a animada actuação, e após receberem a dádiva de um paio, além do costumeiro vinho do Porto e bolo rei que lhes foram entregues pelo próprio co-proprietário desta cadeia de padarias, Hélder Costa, os cantadores poveiros agradeceram aos clientes que se encontravam no estabelecimento, um dos quais, num gesto bonito, retribuiu ripostando: "foi um prazer ouvi-los e oxalá estejamos aqui de novo daqui por um ano".

No dia seguinte, foi o grupo de cantares da Associação Migrante de Barcelos animar a padaria Caldense, desta feita no estabelecimento da Symington, o que aconteceu logo pelo final da manhã.

A directora de Cultura da organização barcelense, Lucy de Oliveira, fez a apresentação dos temas que iam sendo tocados, ressaltando a certa altura o voluntarismo de todos quantos dão vida aos ranchos infantil e adulto, à escola de futebol e ao grupo de cantares da colectividade.

Num pedido de apoio, após realçar a importância dos patrocínios que recebem de empresas como a Caldense, pediu aos espectadores que assistiam para que fossem generosos e contribuíssem também com um donativo para o trabalho desenvolvido por esta casa a nível da cultura e do desporto.

Coube ao co-proprietário da Caldense, José Costa – irmão de Hélder – as honras de anfitrião, passando o vinho do Porto e o bolo rei aos elementos do grupo e aos clientes com a ajuda de uma colaboradora.,

Enquanto os cantadores se despediam, com votos de um bom Ano Novo e um brinde à Caldense, conversámos com José Costa, que nos disse ter vindo para o Canadá com apenas nove anos mas recordar-se ainda de ir com o pai a cantar às casas das pessoas da sua terra.

A experiência ficou-lhe na memória, apesar da passagem dos anos, e foi-se mantendo, em parte, também graças à continuidade que aqui tem sido dada à tradição.

É algo que lhe toca e de que diz gostar muito, e afirma que não são só os portugueses que gostam pois quando os clientes de outras etnias assistem, também adoram e não arredam pé até ao final da actuação.

Isso mesmo tivemos oportunidade de testemunhar passadas algumas horas, naquele mesmo local, quando ali actuou também o grupo de cantadores do rancho Estrelas do Norte.

Adugna Ken, de origem etíope, é um cliente habitual do estabelecimento e que, ao deparar-se com a actuação dos Estrelas do Norte, se pôs de imediato a bater o pé e a abanar a cabeça ao ritmo da música.

"Isto é lindo", disse em declarações ao jornal Sol Português, acrescentando: "gosto muito de música" e "o ritmo é bom".

Pouco depois eram Rihanna O'Neill e Moieez Asif que paravam para testemunharem com alegria aquele momento musical.

Ela mudou-se não há muito tempo para esta zona da cidade e gostou da surpresa que lhe estava reservada.

"Vínhamos só buscar pão e demos com isto... muito giro", acrescentou o amigo que estava de visita e a acompanhou.

A alegria e a boa disposição imperaram durante a actuação dos Estrelas do Norte e alguns dos seus elementos gravaram ou transmitiram até em directo partes do espectáculo através da Internet, para que pudesse chegar aos quatro cantos do mundo.

Lina Pedrosa, que preside ao rancho Estrelas do Norte, referiu que tudo começou em jeito de brincadeira, mas acabou por se tornar numa festa e convívio familiar anual.

Só no sábado o grupo visitou cerca de 25 locais diferentes, mas adiantou que a Caldense tem um lugar especial pois dão-lhes a casa e apoiam-nos todo o ano, por isso a actuação ali serviu também para retribuir e agradecer.

Tal como o irmão, também Hélder Costa indicou ser uma tradição anual que acolhe de bom grado e à qual deu continuidade "com muito gosto" quando tomou conta da empresa, há já mais de duas décadas, lamentando apenas que não haja ainda mais jovens envolvidos.

"Adoro, gosto disto", disse, adiantando que "faz-me lembrar os velhos tempos" e a juventude em Portugal, ao mesmo tempo que elogiava a alegria e a energia dos cantadores e tocadores que se arrojavam a ir de loja em loja, mesmo num dia gélido como foi sábado.


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