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Dia de Portugal em Toronto:

Adaptadas à nova realidade, comemorações assinalaram data especial para comunidade lusa

Por João Vicente

Sol Português

As medidas decretadas para travar a pandemia de Covid-19 que ainda grassa levou este ano a que as comemorações do Dia, Semana e Mês de Portugal ficassem marcadas pelo uso de máscaras e, tanto quanto possível, pelo distanciamento físico entre os parcos participantes que foi possível e permitido reunir.

Condensadas num só dia – o próprio 10 de Junho, feriado nacional e Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades – uma mão cheia de elementos da comunicação social, políticos e representantes associativos assinalaram um total de cinco cerimónias a que, apesar de tudo, aqui e ali ainda compareceram alguns elementos do público.

A cerimónia do içar da bandeira frente à Câmara Municipal de Toronto, que decorreu pela manhã, não teve lugar na praça Nathan Phillips, como é habitual, mas realizou-se no canto do jardim localizado no terraço da autarquia, junto ao mastro onde o estandarte ficou hasteado.

Neste evento apenas foi permitido acesso aos elementos da comunicação social que assistiram aos discursos do Presidente da Câmara, John Tory, da vice-presidente e anfitriã do evento, Ana Bailão, e da presidente da comissão ad-hoc que actualmente dirige a Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas do Ontário (ACAPO), Katia Caramujo.

Marcou também presença, embora não participasse das formalidades, o deputado provincial eleito por Spadina-Fort York, Chris Glover.

Expressando-se em português, John Tory começou por dar as boas-vindas, felicitar a comunidade pelo Dia e Mês de Portugal e declarar a sua afinidade com os luso-canadianos, especialmente a vice-presidente da Câmara, a qual viria depois, já em inglês, a elogiar pelo trabalho que tem vindo a desenvolver, "especialmente na pasta da habitação".

Por seu turno, Ana Bailão expressou o seu desejo de que nesse dia, em que se comemoravam as comunidades lusas à volta do mundo, os cerca de 500.000 portugueses e luso-descendentes que residem no Canadá tirassem um momento para celebrar o seu legado cultural.

Entre os muitos feitos, a vereadora destacou o primeiro carteiro no Canadá, no século XVIII, o movimento laboral das mulheres da limpeza, que decorreu nos anos '80, e os expoentes actuais da comunidade, como o jogador John Tavares e o cantor Shawn Mendes, antes de terminar com um pedido para que a comunidade apoie os pequenos comerciantes.

Entretanto, questionado sobre possíveis ajudas da autarquia aos clubes e associações que atraiam milhares de pessoas aos fins-de-semana e que continuam encerrados devido às medidas de contenção da pandemia, John Tory disse que a Câmara pouco pode fazer devido à sua situação financeira, mas adiantou que se teriam envidado esforços para fazer chegar mais rapidamente a essas organizações quaisquer subvenções municipais a que tivessem direito.

Depois de desinfectar a moldura da proclamação do mês de Portugal e de a entregar a Katia Caramujo, foi o próprio edil a encarregar-se de hastear a bandeira das quinas enquanto a cerimónia concluía com os hinos do Canadá e de Portugal.

Nessa tarde, junto ao monumento erigido no High Park em comemoração dos pioneiros da comunidade portuguesa, pares do rancho Os Antigos, de Vaughan, e do Rancho Folclórico da Nazaré, de Mississauga, serviram de pano de fundo para uma cerimónia simples durante a qual discursaram a deputada provincial por Davenport, Marit Stiles, e o elemento da comissão ad-hoc da ACAPO e dirigente da Casa dos Poveiros, Laurentino Esteves.

A deputada fez questão de reconhecer "os muitos luso-canadianos no Canadá, mas especificamente no Ontário, que têm estado nas linhas da frente do combate à pandemia", incluindo nos sectores da saúde e em ocupações consideradas essenciais.

Por seu turno, Laurentino Esteves destacou o quanto o não poder viver a cultura lusa da forma como a comunidade estava habituada mais evidencia a sua importância e a falta que essa vivência faz.

Também ele incentivou o apoio ao comércio luso-canadiano, assim como aos clubes e associações logo que a ocasião se proporcione.

A colocação de uma coroa de flores junto ao monumento aos pioneiros deu por terminada esta cerimónia, após o que a comitiva seguiu para a igreja de Santa Helena onde decorreu um evento organizado pela recém-estabelecida Little Portugal Dundas BIA (associação de comerciantes e empresários), que resultou da fusão das associações congéneres da "Dundas West" e da "Little Portugal".

A anfitriã foi a presidente da BIA e gerente da sucursal da instituição de crédito IC Savings, Anabela Taborda, que começou por realçar a importância destas comemorações anuais para a zona de comércio representada por aquela associação.

Escutar-se-iam de seguida a deputada federal por Davenport, Julie Dzerowicz, bem como Marit Stiles, Ana Bailão e Katia Caramujo.

Em evidência durante o evento esteve uma das novas bandeiras que irão demarcar a zona da rua Dundas abrangida pela BIA, contando com 12 versões diferentes que, conjugando imagens lusas e canadianas, e um novo logótipo, irão adornar um total de 95 postes.

Julie Dzerowicz salientou o facto de no Canadá se poderem acalentar duas nacionalidades com orgulho e elogiou as boas relações Portugal-Canadá, vindo mais tarde, em declarações à imprensa, a lamentar a falta da parada, que classificou como algo "muito especial numa cidade como Toronto e que actualmente já não se vê muito".

A deputada declarou-se confiante de que as colectividades lusas venham a superar esta crise provocada pela Covid-19, embora expressasse receio em relação ao primeiro clube luso-canadiano na cidade, o First Portuguese Canadian Cultural Centre (FPCCC), para o qual apelou à comunidade e às outras colectividades para que ajudem aquele icónico centro cultural a encontrar um espaço, pois é esse o seu maior problema.

Os hinos canadiano e português foram interpretados por Daniel Scida em trompete e pelo irmão, Justin, no clarinete – ambos elementos da Banda do Sagrado Coração de Jesus da paróquia de Santa Helena – dando-se assim por concluída a cerimónia.

Apesar das restrições impostas pela luta contra a pandemia, os voluntários não deixaram de ser celebrados junto ao monumento que há anos foi erguido em sua honra no parque Trinity-Bellwoods

Ali se voltaram a escutar os mesmos oradores, aos quais se juntou entretanto o deputado Chris Glover e o ex-presidente da ACAPO, José Eustáquio, este último a recordar durante a sua alocução a saudosa data em que o monumento foi inaugurado na presença do então presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio.

Para além de enaltecer os voluntários, Julie Dzerowicz fez questão de recordar três figuras da comunidade luso-canadiana falecidas desde há um ano a esta data, nomeadamente o ex-agente da polícia e vereador da Câmara Municipal de Cambridge Frank Monteiro, o jornalista Fernando Cruz Gomes e o presidente da Associação 25 de Abril de Toronto, Carlos Morgadinho.

O deputado Chris Glover viria a enaltecer o espírito de abnegação e de entreajuda da comunidade lusa como uma das características que mais admira e que indicou ter podido verificar pessoalmente ao telefonar aos idosos da comunidade e, com o auxílio de um tradutor, constatar que todos os contactados afirmaram estar bem por receberem apoio de familiares e da comunidade.

Escutaram-se mais uma vez os hinos nacionais tocados pelos irmãos Scida e com a colocação de uma coroa de flores junto ao monumento aos voluntários concluiu-se mais este tributo, partindo a comitiva para a última cerimónia do Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas em Toronto.

Foi precisamente na praceta Luís de Camões, junto ao edifício que já foi sede do FPCCC, que se comemorou o poeta em memória do qual se celebra o dia da nação e que representa um ex-libris da literatura e da cultura portuguesa.

Mais uma vez se ouviram alguns dos oradores assim como os hinos interpretados pelos irmãos Scida, tendo Katia Caramujo feito votos de que a 14 de Novembro as restrições em torno da pandemia já permitam uma realização normal para a cerimónia de nomeação dos novos nomes que irão adornar o Passeio dos Luso-Canadianos Famosos, situado em torno daquele edifício.

Fazendo o ponto da situação, a responsável da ACAPO considerou que o dia "começou bem, com a devida distância", embora fosse "um bocadinho mais triste porque havia pessoas que gostavam de ter ali estado e não puderam, tal como nos outros eventos" devido às restrições provocadas pela pandemia.

Indicou, no entanto, que houve um esforço no sentido de transmitir os eventos online, dando assim oportunidade a um maior número de pessoas de participarem virtualmente.

Como realçou, com os eventos acessíveis através das redes sociais isso poderá vir a ter até um balanço positivo uma vez que poderá chegar mais facilmente aos jovens que a elas estão ligados.

As fotos e vídeos das cerimónias, que ao fim do dia já tinham acumulado centenas de visualizações, continuam acessíveis através da página da ACAPO em facebook.com/acapo.ca.


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