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CCPM:

Em memória da rainha do fado

Gonçalo Salgueiro e Mara Pedro abrilhantaram 18.ª Gala em homenagem a Amália

Por João Vicente e Noémia Gomes
Sol Português

Amália Rodrigues, universalmente reconhecida como a rainha do fado, faleceu em 1999 e desde então o Centro Cultural Português de Mississauga (CCPM) tem vindo a organizar todos os anos uma noite de gala em sua memória, evento que é habitualmente marcado pela actuação de alguns dos mais destacados fadistas da actualidade.

No passado sábado (6) a 18.ª edição da Grande Gala do Fado dedicada a Amália atraiu cerca de meio milhar de pessoas à sede da colectividade onde, durante cerca de duas horas de espectáculo, puderam apreciar o talento de dois novos artistas de renome: Mara Pedro e Gonçalo Salgueiro.

Naturais de Viseu e Montemor-o-Novo, respectivamente, ambos já haviam pisado anteriormente o palco do CCPM – Mara Pedro há dois anos e Gonçalo Salgueiro no ano passado – e confessam-se inspirados pela influência de Amália na decisão de se dedicarem ao fado.

Os artistas, que continuam a somar novas conquistas ao seu já longo currículo apesar da juventude, foram acompanhados por três consumados músicos num espectáculo que teve apresentação de um radialista da emissora Rádio Amália e que integrou a comitiva que aqui se deslocou de Portugal para abrilhantar esta gala.

No decorrer do serão, que começou por um jantar tradicional constituído por bacalhau à lagareiro, o presidente do CCPM, Tony de Sousa, fez destaque a um novo quadro que está exposto à entrada do clube e que retrata Amália Rodrigues.

Da autoria do jovem Daniel Ramalho, a nova aquisição foi facultada por uma oferta do vice-presidente do CCPM, Jorge Mouselo, e veio aumentar o espólio relativo à saudosa fadista – que inclui, entre outros artigos, o vestido por ela usado num dos seus espectáculos no Olympia de Paris.

Entretanto, e em antecipação ao espectáculo, coube ao mestre-de-cerimónias, Joaquim Maralhas, da Rádio Amália, apresentar o trio de músicos convidados, constituído por Guilherme Banza na guitarra portuguesa, Rogério Ferreira na viola de fado e José Nunes na viola baixo.

A primeira fadista em palco foi Mara Pedro, que começou por cantar o hino do Canadá "como forma de dizer boa noite, mas também para agradecer ao país" que a recebeu pela quarta vez – tal como, destacou, acolheu todos os que se encontravam presentes.

Na sua interpretação do tema "Lágrima", a jovem cantou uma letra particularmente evocativa da ocasião ao destacar que: "Amália vive, Amália vive contente/Como um cometa, no peito de toda a gente/No meu peito, Amália trago presente/Não morreu, no fado deixou semente".

Entretanto, e perante os óbvios remendos que se viam na viola de Rogério Ferreira e deixavam perceber que algo se tinha passado, Mara fez questão de destacar que o instrumento sofreu de facto um percalço que o deixou danificado, mas que apesar disso o consumado músico e profissional tinha resolvido continuar a sua actuação, o que lhe mereceu uma salva de palmas do público.

Mudando então para temas mais alegres e mexidos, apropriados à sua personalidade e forma de estar em palco, a jovem fez frequentes apelos à participação do público, incluindo também clássicos mais sóbrios, do repertório de Amália.

Prestes a lançar o seu quarto CD, a artista apresentou um tema inédito, de sua autoria, "Fruto do Destino", que indicou estar incluindo no novo álbum.

Embora o restante material esteja embargado pela editora até à publicação, a jovem mostrou-se contente por poder "pelo menos apresentar uma das músicas" do disco, destacando ser "aquela que diz mais de mim", já que foi ela própria quem escreveu a letra.

O público correspondeu, com uma recepção que a artista considerou "muito positiva" para esta primeira apresentação e pela qual agradeceu.

Gonçalo Salgueiro, por seu turno, apresentou neste espectáculo um repertório totalmente centrado nos temas popularizados por Amália Rodrigues, demonstrando amplamente a sua invulgar capacidade vocal e domínio de voz.

Patente esteve ainda o seu à-vontade e sentido de humor quando aceitou sugestões da plateia e alguém lhe sugeriu um tema de Tony Carreira, o que levou a uma rápida mas necessária correcção pois a noite era dedicada a Amália e ele não estava disposto a cantar temas de mais ninguém.

A mesma sugestão viria novamente a suscitar gargalhadas quando voltou a ser mencionada mais tarde.

Mas nem tudo tem sido alegria e boa disposição na vida do artista que indicou que este espectáculo marcou o seu regresso ao palco desde que visitou o CCPM em Janeiro de 2017, após uma ausência de quase um ano para observar luto pelo falecimento da mãe.

"Em Outubro, infelizmente devido à perda da minha mãe, lancei o CD `Mãe'", explicou o artista adiantando que depois de "um espectáculo no grande auditório do CCB, em Lisboa, resolvi fazer uma pequena pausa porque emocionalmente estava a precisar"

Como salientou: "as pessoas às vezes não percebem, mas os períodos de luto têm estas necessidades e perder uma mãe é perder um bocado de nós, então tive de parar um pouco e recomecei aqui, convosco", adiantando estar "muito feliz por isso".

Quanto à importância de Amália, Gonçalo Salgueiro considera que "aquilo que nós temos hoje em dia enquanto fado, foi ela que o fez: ela vestiu o fado de negro, ela mandou baixar as luzes, ela levou o fado pelo mundo numa altura em que não havia ainda a Internet, não havia salas à bilheteira, ela foi a todos os países do mundo, ela fez tudo, ela deu-nos tudo".

Na sua opinião, "é tão fácil fazer um espectáculo só com temas da Amália" – o "melhor repertório que existe", como destaca – "porque há tanto por onde escolher e é tudo tão maravilhoso".

"A reacção das pessoas hoje aqui foi quase comovente: quando comecei a cantar a "Gaivota" e vi que as pessoas estavam emocionadas até eu me emocionei um bocadinho, e foi extraordinário", concluiu.

A julgar pela reacção do público, muita gente partilhou desse sentimento ao longo desta gala, durante a qual os dois fadistas voltariam a actuar alternadamente, antes de darem por finalizado o grandioso espectáculo com os convidados de Portugal e os membros da Direcção da colectividade juntos em palco.

O público viria ainda a ter uma oportunidade de chegar mais perto dos artistas durante a sessão de autógrafos e fotografias que se seguiu no átrio do clube.

Entretanto, Tony de Sousa indicou à nossa reportagem estarem já a preparar-se "para a próxima" edição da Grande Gala, considerando que esta proporcionou "uma noite maravilhosa".

Os detalhes ainda estão por finalizar, destacou o presidente do CCPM, mas para o ano a cabeça de cartaz vai ser uma fadista vinda de Portugal e, se mais alguém com ela partilhar o palco – o que não está ainda decidido – será um artista local.

Também ainda em formato embrionário está a ideia de criarem uma outra Gala de Fado, a realizar em 2019 e que, a acontecer, será composta inteiramente por fadistas do Canadá.


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