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Brampton:

Luso-canadiano candidata-se a vereador dos bairros 1 e 5

Por João Vicente
Sol Português

O seu nome pode não estar ainda na ponta da língua, mas se conseguir derrotar os seus adversários e chegar ao cargo de vereador dos bairros 1 e 5 de Brampton, Joe Pimentel tem potencial para uma longa carreira política, dado o seu currículo e vontade de trabalhar e criar consensos em torno de ideias e projectos que considera beneficiarem os residentes daquele município a norte de Mississauga.

O candidato esteve recentemente na redacção do jornal Sol Português onde nos deu a conhecer um pouco do seu historial e as motivações que o levaram agora a dedicar-se à vida política.

Natural dos Açores, Joe Pimentel chegou a Brampton em 1965 – cidade que na altura tinha apenas cerca 20.000 habitantes – e ali cresceu.

A mãe e vários dos seus familiares trabalhavam nas estufas, que era a indústria dominante na região, e o pai trabalhou na construção.

No início dos anos '80, eram já cerca de 50.000 os portugueses que viviam em Brampton e o ritmo de crescimento da cidade não tem abrandado, cifrando-se hoje a população total em torno dos 600.000 habitantes.

Entretanto, o número de pessoas que se identificam como portuguesas desceu para cerca de 40.000, o que é ainda uma proporção respeitável numa cidade com mais de 120 culturas representadas.

Depois de terminar a universidade, onde estudou para professor, Joe Pimentel arregaçou as mangas e foi trabalhar.

Inicialmente tinha três empregos, num restaurante, numa loja de brinquedos e um part-time no município de Brampton, vindo ainda a trabalhar mais tarde na construção.

O avô e dois tios já tinham trabalhado para o município, por isso pode dizer-se que seguiu os passos dos seus familiares, mas assim que começou a trabalhar logo se apercebeu de que os portugueses tinham problemas.

Como nos explica, "trabalhavam muito, mas quando tinham um problema com as férias ou overtime não podiam explicar-se porque os representantes sindicais" só falavam inglês, indicando ter sido o que motivou a candidatar-se a representante do sindicato CUPE 183, que representa empregados do sector público.

Após alguns anos ofereceram-lhe uma promoção mas, como nos explica, ficou "de pé atrás" pois "não sabia se queriam que eu fosse gerente só para sair do sindicat, porque andava sempre em cima deles".

Após ponderar a proposta, decidiu assumir o cargo de coordenador de operações e, mais tarde, de operações, obras públicas e transportes.

Por último, como assessor do funcionário-chefe da administração da Câmara e gerente de projectos e iniciativas empresariais, trabalhou de perto com todos os vereadores, com os diferentes programas a cargo da autarquia, assim como no planeamento estratégico e no orçamento municipal.

Infelizmente, em 2016 foram despedidas várias pessoas do departamento onde trabalhava, incluindo ele próprio, "por arrasto", como nos explica, mas o seu trabalho exemplar foi reconhecido com uma carta de recomendação tão positiva que até o seu advogado se admirou admitindo nunca ter visto nada assim.

Além dos cargos que desempenhou na Câmara Municipal de Brampton ao longo dos anos, Joe Pimentel tem participado em múltiplos comités e corpos directivos de diferentes organizações que considera terem-lhe permitido aprofundar ainda mais o seu conhecimento da forma como o município funciona, motivo porque é consultado frequentemente por dirigentes cívicos e comunitários.

Entre os organismos em que participa, destaca a Peel Children's Aid, o comité de equidade e inclusão da Câmara de Brampton, a igreja de Nossa Senhora de Fátima e o festival multicultural Carabram, além de apoiar o Rosa's Centre – organização dedicada a adultos com autismo.

Através dessa longa experiência de 31 anos ficou "a conhecer os cantos à casa", como costuma dizer-se, e ficou também com o "bichinho da política" e a vontade de fazer algo mais pela comunidade uma vez que, como nos diz, se apercebeu dos mecanismos internos da cidade e do efeito e ramificações das decisões tomadas pela Assembleia Municipal.

Joe Pimentel acredita que os portugueses têm uma voz única, derivada do seu sentido de aventura, coragem e visão para o futuro, como o têm vindo a demonstrar desde a era dos Descobrimentos.

"Tenho orgulho e quero ver a nossa comunidade presente à mesa quando estivermos a falar daquilo que é importante para a cidade", afirma o candidato, destacando no entanto que para isso é preciso que os portugueses se envolvam na política.

"Não custa muito", destaca, lembrando o exemplo que deu quando foi convidado para um jantar que reuniu entre 300 e 400 pessoas.

"Quando não gostamos de alguma coisa, telefonamos ao vereador e dizemos: `eu não gosto'; e quando se gosta de alguma coisa, faz-se o mesmo, mas diz-se `eu gosto disto ou eu quero isto', e já estão envolvidos na política, estão a ver? – é tão simples".

Se a participação cívica através do voto e do envolvimento activo é fácil, navegar os corredores da governação municipal, tentar chegar a um consenso e legislar já é mais difícil, mas Joe Pimentel tem confiança de que terá sucesso.

Embora tenha plena consciência de que estaria a representar toda a comunidade que o elegeu, diz-nos que o seu foco seria na comunidade portuguesa pois é da opinião que esta tem vindo a perder a sua voz em relação a outras mais numerosas e às quais os políticos têm vindo a dar prioridade por esse motivo.

"Antigamente eram os portugueses a receber essa atenção dos políticos, mas agora somos menos", diz com um encolher de ombros, acrescentado que "somos menos na quantidade de votos, mas não naquilo que sonhamos para o nosso futuro".

Para Joe Pimentel, muitos dos problemas de Brampton devem-se ao facto de ser uma cidade que cresceu rapidamente, a pensar que ainda era vila, e por isso sofreu – e ainda sofre – as "dores do crescimento".

Um dos sintomas, segundo ele, é a congestão de trânsito que além de representar uma perda de milhões de dólares para a economia também dificulta a tarefa de atrair empresas para a cidade.

A falta de uma forte base industrial e comercial que possa ser tributada significa que os moradores têm de arcar com uma proporção significativa dos impostos, atingindo por isso um valor que considera acima do que seria desejável.

A sua plataforma de campanha inclui lutar para melhorar as infra-estruturas citadinas e a situação do trânsito para atrair mais empresas para Brampton,

Gostaria ainda de implementar um "crédito de imposto em espécie" que, como nos explica, seria um aliciante para os residentes obterem um desconto nos impostos proporcional ao tempo de voluntariado que oferecem a certas instituições de caridade, por exemplo.

Entretanto, caso seja eleito pretende pedir um estudo das prioridades na prestação de serviços camarários com vista a encontrar eficiências que permitam reduzir os custos.

Com respeito à segurança, destaca que o facto do número de crimes ter aumentado em Brampton leva à procura de soluções fáceis, mas a sua experiência diz-lhe que estas nem sempre são as melhores.

"Os moradores acham que ter mais agentes da polícia dá conta do recado", diz o candidato que acrescenta de imediato: "Ok, vamos ter mais polícias, mas isso vai aumentar os impostos porque é preciso pagar-lhes o salário – e não vai resolver o problema, porque ele é muito mais complicado".

Como refere, é algo que requer um debate alargado, sendo que "ao falarmos das complicações", as pessoas "ficam mais bem informadas acerca do que é preciso fazer: envolverem-se mais nas reuniões comunitárias, participarem da vigilância de bairro e assim por diante".

Joe Pimentel concorre pelos bairros 1 e 5, que são dos mais antigos de Brampton e que, como explica, ao contrário de algumas das áreas mais novas, mantêm uma diversidade cultural significativa.

Ali residem ainda muitos portugueses e italianos, a par de filipinos e outros grupos étnicos, mas há quem tenha tentado jogar umas comunidades contra as outras por isso defende a necessidade de auscultar os representantes de cada para que todas tenham voz.

Como salienta, "o vereador é o pai que traz a palavra à mesa, para começarem a debater aquilo que desejam fazer".

As eleições autár-quicas terão lugar no dia 22 de Outubro por toda a província do Ontário e nelas podem votar todos os cidadãos canadianos com mais de 18 anos que estejam qualificados a votar no município em questão – quer como residentes, não-residentes que possuam ou aluguem uma propriedade, ou como cônjuges desses não-residentes.

Para informações mais detalhadas, os interessados podem consultar: tinyurl.com/eleitoresaptos.


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