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Senhor Santo Cristo dos Milagres:

Milhares celebram e acolhem com alegria anúncio de obra emblemática em Brampton

Por João Vicente
Sol Português

A Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Brampton, esteve mais uma vez no epicentro dos festejos em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, culto de origem açoriana e que durante quatro dias – de sexta (6) a segunda-feira (9) – atraiu milhares de fiéis.

Esta celebração de cariz religioso, que nasceu há 13 anos nesta cidade por mão de Guido Pacheco, continua a singrar e a atrair um número crescente de visitantes, graças em grande parte aos incansáveis esforços e à devoção do abnegado voluntário – que continua à frente da comissão de festas – e da equipa que reuniu em torno desta iniciativa.

Explica o pároco Andrzej Chilmon à nossa reportagem que no início a ideia era levar a imagem do Senhor Santo Cristo para Brampton e ali ter uma capela, a fim de facilitar a vida aos idosos que assim já não precisariam de se deslocar a Toronto para a sua devoção.

Mas "depois o senhor Guido, com a sua energia e amor ao Santo Cristo, começou a desenvolver e organizou tudo, e agora para nós [esta realização] é uma grande bênção porque se vê que o povo bem a valoriza, vai, reza e estamos com a igreja sempre aberta por isso [as pessoas] têm sempre acesso à imagem e à capela", referiu.

Para Guido Pacheco, "a fé que este povo está mostrando ao Senhor Santo Cristo, aqui em Brampton, isso é que é importante", notando que apesar do sucesso se expressar também em números, para ele o que mais conta é a qualidade dos devotos e o seu empenho na componente religiosa das festas e não a quantidade nem os que vêm só para assistir aos arraiais.

O seu empenho e devoção têm-no ajudado a ultrapassar os seus próprios momentos difíceis, uma vez que tem vindo a combater um cancro e escassas cinco semanas antes destas festas teve de se submeter a uma operação cirúrgica.

Se fosse a seguir o conselho dos médicos deveria estar a descansar, mas como afirma à nossa reportagem: "estou a ficar muito melhor de roda do trabalho do Senhor Santo Cristo".

Agora o impulsionador desta celebração dedicada ao Senhor Santo Cristo dos Milagres pretende adicionar outro elemento que venha a elevar e a distinguir a paróquia junto dos fiéis pelo que foi com gosto que anunciou um projecto que visa a construção de uma réplica das famosas Portas da Cidade de Ponta Delgada.

Segundo Guido Pacheco, o monumento – que até aqui tem sido representado por um simulacro de madeira – será construído "de pedra e cal", como se costuma dizer, e numa proporção que embora ligeiramente inferior ao original será maior do que a representação actualmente exposta nas traseiras da igreja.

Quatro dias de devoção

Embora o expoente máximo das festas dedicadas ao Senhor Santo Cristo dos Milagres tenha sido a procissão que se realizou no domingo, a componente sacra teve início na sexta-feira no que foi designado como um dia dedicado aos doentes – com missa de cura e bênção especial, seguida de vigília.

Entretanto, no sábado realizou-se também uma procissão – ainda que de menores dimensões – para a mudança da imagem, e à conclusão das actividades religiosas, que decorreu na segunda-feira após o cortejo de oferendas, realizou-se uma missa de Acção de Graças.

O domingo, porém, foi o dia que registou maior afluxo de visitantes e a missa solene que precedeu a procissão foi proferida pelo Cardeal de Toronto, Thomas Collins, com a assistência do pároco Hélio Soares, que aqui se deslocou vindo da freguesia de Capelas, São Miguel – Açores, e na presença de vários sacerdotes de outras paróquias que viriam a integrar também o cortejo.

Para o pároco açoriano, esta foi a terceira vez que se deslocou ao Canadá e embora fosse o seu primeiro contacto com a festa do Senhor Santo Cristo de Brampton, reconhece com esta experiência que as tradições trazidas de lá pelos imigrantes e adaptadas a esta realidade e a este espaço são vividas "de forma muito intensa".

O interesse do padre Hélio Soares tem também uma vertente de investigação académica que o leva a explorar os pormenores de "como é que o fenómeno se manifesta" nas comunidades, bem como as adaptações a que tem sido sujeito, citando, a título de exemplo, o facto de aqui se distribuírem ramos de flores do andor do ano anterior que as pessoas guardam como recordação ou relíquia.

Pouco depois, e uma vez terminada a missa à qual assistiram também vários sacerdotes de outras paróquias que viriam a integrar o cortejo, a procissão saiu à rua percorrendo as ruas circunvizinhas à Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

O imponente cortejo foi constituído por 20 secções onde se incluíram as várias associações, grupos paroquiais e de estudantes, sacerdotes, assim como as Bandas Filarmónicas de Brampton e de Montreal, bem como as do Senhor Santo Cristo e do Sagrado Coração de Jesus, de Toronto, e ainda alguns dignitários.

Além dos vereadores luso-canadianos de Brampton, Martin Medeiros e Paul Vicente, desfilaram ainda nesta secção a deputada federal Sonia Sidhu, o representante da SATA/Azores Airlines em Toronto, Carlos Botelho, e o director regional das Comunidades dos Açores, Paulo Teves, que duas semanas antes participou igualmente nas festas do Espírito Santo de Fall River, na Nova Inglaterra, EUA.

Falando à nossa reportagem a propósito desta celebração, reconheceu que "a comunidade [portuguesa] de Brampton e do Ontário é extremamente forte" e que a sua deslocação deve-se ao facto de considerarem "sempre bom o governo dos Açores estar onde estão as nossas comunidades".

O vereador Paul Vicente, que está radicado em Brampton desde 1984, indicou à nossa reportagem que já participa nas festas do Senhor Santo Cristo desde pequeno, quando os pais ajudavam a organizar as que se realizam em Toronto e ele desfilava "como anjo ou São José", segundo nos diz.

Por isso conhece a tradição intimamente e como refere, para os devotos é "uma acção de fé", e esta "uma das festas mais importantes e mais queridas em Brampton para aqueles que são de Portugal".

Para ele pessoalmente, que nasceu no Canadá, cresceu com a tradição e passou quatro anos no santuário de Fátima, "ter em Brampton uma igreja que celebra Nossa Senhora de Fátima e que também celebra o Senhor Santo Cristo é muito especial".

Também Martin Medeiros, que já tem alguns anos de carreira como vereador, reconhece o quanto esta celebração é especial, registando o seu prazer ao constatar que não só parece ter aumentado de dimensão como está a conseguir atrair os jovens.

Como presidente da Comissão de Planeamento de Brampton, é também com bons olhos que vê agora a intenção de aliar um monumento permanente a esta paróquia e a este culto religioso que tanto significado tem para a comunidade portuguesa.

Para além dos dignitários já citados, após a procissão viriam ainda a participar dos festejos a vereadora Rowena Santos e o presidente da Câmara de Brampton, Patrick Brown, referindo este último que já antes participou nestes festejos mas esta foi a primeira vez que o fez no seu cargo oficial.

Segundo o autarca, neste momento Brampton tem uma Assembleia Municipal onde 20 por cento dos membros são portugueses e a Câmara "está realmente a celebrar a comunidade lusa" já que, como destacou, acaba de aprovar uma moção do vereador Martin Medeiros com vista à criação de um "Jardim Açores".

Após terem sido proferidas algumas palavras de ocasião no coreto montado nas traseiras da igreja foi altura de dar o pontapé de saída ao arraial, continuando muitos, porém, a concentrar a sua atenção na imagem do Senhor Santo Cristo – primeiro no exterior, onde o andor foi serenado pelas bandas que participaram da parada, e depois de volta ao templo onde durante algum tempo se registou uma fila de fiéis que desejavam chegar perto.

Durante todos os dias se registaram animados arraiais nos quais, para além das filarmónicas já referidas, actuaram artistas como o percussionista CStyxx, a cantora Lídia Sousa, o conjunto Além Mar, o Grupo Folclórico Pérolas do Atlântico da Casa dos Açores de Toronto, o acordeonista Paulinho do Minho, o Duo Lucy e Bela, e os cantores Mário Marinho, João Marques e Michelle Madeira.


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