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Canadá: Fraudes aumentam na era do teletrabalho

O crescente número de pessoas a procurar emprego devido à crise provocada pelas medidas de contenção da pandemia de Covid-19 a par da transição da economia para um modelo de teletrabalho em que tudo se desenvolve a partir da Internet fazem desta uma altura oportuna para fraudes laborais, alerta um analista de informática no Centro Canadiano anti-Fraude da Polícia Montada (RCMP, na sigla em inglês).

Segundo o agente Jeff Thomson, as fraudes relacionadas com ofertas de emprego estão a aumentar e a tornar-se mais sofisticadas, como o revela o número de queixas que têm vindo a receber.

Em 2019 aquele centro recebeu mais de 2.400 queixas mas só este ano, até ao mês de Julho, já tinham registado 2.300 queixas de fraudes em torno de falsos empregos.

Embora trabalhar de casa se tenha tornado comum, as autoridades alertam para a necessidade do público se precaver de esquemas criados por empresas fictícias que contratam pessoas para desempenhar cargos que não existem e as quais acabam depois por burlar.

Um exemplo deste tipo de esquemas envolveu uma jovem de 25 anos, Ashley, que, como revelou a uma investigação da emissora CBC, pensou estar a ser contratada pela companhia Gux-IT, de Vancouver, que se viria a descobrir ser falsa.

A jovem teve o cuidado de verificar se o cargo para o qual estava a ser contratada estava anunciado no portal da companhia, certificando-se também que este tinha o número de telefone e endereço da empresa, além de "espreitar" até onde ficava o escritório central através do Google Street View.

Todas as suas comunicações com pessoas que pensava serem os responsáveis da empresa partiram de endereços de email da Gux-IT e a entrevista foi realizada por telefone, cujo indicativo era efectivamente de Vancouver.

Contudo, viria a descobrir mais tarde que a companhia era falsa e que o portal electrónico tinha sido copiado doutra companhia, alterando apenas o nome e os contactos.

O "emprego" para o qual foi contratada envolvia a compra de domínios (endereços electrónicos) pelos quais teria de pagar pelo alojamento na Internet em Ethereum (uma moeda digital semelhante à mais conhecida Bitcoin) e que a companhia recarregaria na sua conta periodicamente.

Actualmente existem já caixas multibanco para moedas digitais em Toronto e arredores e Ashley recebeu 2.000 dólares na sua conta pessoal para comprar Ethereum numa dessas caixas.

Segundo Jeff Thomson, este tipo de ocorrência é conhecida como um "esquema de saque" e serve para lavagem de dinheiros provenientes de contas alheias a que os criminosos têm acesso ilegalmente, servindo-se depois dos "empregados" para finalizarem a operação.

Uma vez convertido em moeda digital, que é virtualmente impossível de rastrear, o dinheiro desaparece e são os "empregados" que ficam implicados no crime.

Felizmente para esta jovem, no momento em que estava para finalizar a transacção recebeu confirmação das suas suspeitas de que a companhia não existia ainda a tempo de a cancelar.

Contudo, durante o processo de contratação, em que ficou estipulado que seria paga quinzenalmente através de e-transfer – pagamento bancário enviado por e-mail – a jovem forneceu aos escroques uma cópia da sua carta de condução, embora não tivesse adiantado o número de segurança social.

Ao contactar as companhias responsáveis pela avaliação de crédito pessoal, Equifax e Transunion, ficou estupefacta ao descobrir que a sua data de nascimento e morada tinham sido alteradas no sistema de uma delas e que na outra já alguém tinha telefonado a pedir informações, presumivelmente porque alguém pretendia obter um empréstimo em seu nome.

Como alerta o agente Jeff Thomson, que lembra que situações que envolvem a conversão de dinheiro vivo em moeda digital são sinal de que algo não está bem, os escroques "não andam só atrás do dinheiro" que conseguem extorquir às vítimas mas também "da sua informação pessoal" que é para eles uma forma de "mercadoria" extremamente valiosa.


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