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Dos Açores para o mundo – 50 anos de carreira em 65 de vida

Victor Martins comemorou alegria de cantar e de viver em espectáculo no CCPM

Por Rómulo Ávila

Sol Português

A 5 de Outubro de 1957 nascia na ilha Terceira, Açores, Victor Martins, artista que no último fim-de-semana celebrou no Centro Cultural Português de Mississauga (CCPM), para além da data do seu 65.º aniversário, meio século de carreira musical entre familiares, amigos e fãs.

O artista deu os primeiros passos e despertou para a vida na ilha do Pico, pois embora nascido em solo terceirense mudou-se para aquela ilha ainda cedo, acompanhando os pais, Manuel e Prudência Martins, naturais das Lajes do Pico.

Longe de saber que o poder da montanha lhe daria asas para voar bem longe, Victor Martins desde cedo se interessou pelas pautas musicais, pelas letras e por fazer uso "da voz que Deus lhe presenteou".

A sua inspiração está, aliás, bem patente na música que canta: "Minha terra, debruçada sobre o mar, és um cântico de sol, um poema de luar. (...) oh nossa terra, oh nosso mar, a luz do sol e do luar. Minha terra, flor de pedra, a brotar, nossa ilha e a montanha, ao céu querendo beijar. (...) Minha terra (...) se algum dia te deixar, vai comigo a saudade em meu peito a soluçar".

A letra foi feita pelo tio, o escritor Dias de Melo, natural da freguesia da Calheta de Nesquim e autor de "Pedras Negras", "Toadas do Mar e da Terra", e "Mar pela Proa", e o artista luso-canadiano entoa-a com emoção e carinho pelos Açores.

Na noite de sábado (8) passado, rodeado de amigos e família, Victor Martins soprou as suas velas na sede do CCPM, palco de um espectáculo ali realizou para marcar a dupla celebração de vida e carreira.

Composto por antigos e novos êxitos, o espectáculo foi complementado ainda pela apresentação do vídeo-disco da sua nova canção, "Mariana e a sua mini saia".

Nas mesas dos mais de 350 espectadores que assistiram ao evento, para além da boa disposição e alegria, encontravam-se aperitivos bem açorianos – chouriço, morcela e queijo branco – e após a refeição, a sobremesa teria naturalmente de ser o bolo de aniversário.

As velas foram apagadas com Victor Martins no meio de um naipe de artistas da comunidade portuguesa, aqueles a que o aniversariante chamou de "companheiros de caminhada, companheiros de luta".

O serão musical incluiu também a actuação da Karma Band, que animou o público numa noite marcada pela alegria contagiante.

Em declarações ao jornal Sol Português, Manuel Martins, pai do aniversariante, confessou sentir "orgulho na carreira do filho", dizendo "tudo fazer para estar sempre ao lado dele".

Com 95 anos e ladeado pela actual companheira de vida, deu como exemplo a sua recente hospitalização, quando "pedia todos os dias aos médicos para ir à festa" do filho.

Homem rijo, antigo baleeiro que registou ter trabalhado no Cais do Pico durante quase 20 anos, a sua insistência e força de vontade foram recompensados e conseguiu mais uma vez estar com ele para o ver celebrar mais este marco.

"As pessoas já deviam saber como são os Homens do Pico, quando querem muito uma coisa conseguem e são muito fortes – são feitos de pedra", dizia-nos com orgulho.

A celebrar 50 anos de música e 65 de vida, recheados de alegria, algumas tristezas, de objectivos concretizados e de alguns por cumprir, muita luta, muito trabalho, foi assim que Victor Martins se apresentou, agradecendo a todos pelo apoio e colaboração, e fazendo votos de que o futuro ainda lhe reserve coisas boas.

Visivelmente emocionado, o mestre de cerimónias, António César, viria a dedicar-lhe estas palavras:

"Há artistas que nascem com a chancela de uma missão colada à vida. São os que colocam o sonho, a consciência, a fé, acima de tudo e até de si próprios. São os que com bravura saltam os limites e deixam transbordar a sua sensibilidade. São os que dão a cara, mesmo sabendo que podem sofrer. Assim é Victor Martins que tem servido a comunidade com lealdade há cinco décadas (…) sempre ao lado dos que precisam da sua voz agradável, da sua dedicação pela comunidade sem esperar comendas ou homenagens."

Terminou-se esta celebração dando vivas à vida, à alegria e à música, e a entoar: "Ver nascer o sol numa traineira (...) em águas azuis com maré alta, golfinhos saltam com alegria e eu não me esqueci do barco Terra Alta. Nasci na terra dos bravos (...) os meus pais eram do Pico, da terra dos baleeiros".

Foi assim que Victor Martins, "no seu lindo cavalo de pau pintado", foi cavalgando o mundo, concretizando sonhos e vingando na música, sem nunca esquecer o que, como destacou, a comunidade portuguesa lhe deu e o quanto o apoiou.


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