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Brampton:

Culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres move milhares

Por João Vicente
Sol Português

Foi há 12 anos que em Brampton se começou a celebrar uma das mais imponentes manifestações da religião católica ao dar-se início deste lado do Atlântico a uma recriação das festividades dedicadas ao Senhor Santo Cristo dos Milagres.

No passado domingo (9), as celebrações em torno deste culto secular de origem açoriana mais uma vez levaram milhares de fiéis até à igreja de Nossa Senhora de Fátima, situada naquela cidade, para o que foi o ponto alto de quatro dias de devoção ao Senhor Santo Cristo: a famosa procissão.

O evento, que é já considerado um dos maiores no calendário religioso do Ontário, contou com a presença e a participação do cardeal Thomas Collins, arcebispo de Toronto, do bispo John Boissonneau, da arquidiocese de Toronto, e do padre Hélder Cosme, vindo de São Roque, Açores, e marcou o auge das actividades que se haviam iniciado nessa sexta-feira (7) e só viriam a culminar no dia seguinte, segunda-feira (10).

Em pleno domingo, o número de devotos estava no seu máximo, começando as actividades religiosas pela celebração de uma missa solene que foi conduzida pelo próprio cardeal Thomas Collins.

Nela participaram o bispo John Boissonneau e o pároco da igreja de Brampton, Andrzej Chilmon, com destaque para a intervenção do padre Hélder Cosme que ofereceu um longo e reflectido sermão aos fiéis que enchiam a igreja e aos muitos mais que no exterior escutavam a transmissão da missa através de altifalantes.

No Canadá pela terceira vez, esta foi a primeira que o pároco de São Roque celebrou as festas do Santo Cristo neste país, embora já várias vezes o tenha feito nos Estados Unidos da América.

Com profundo conhecimento de causa, não tem por isso qualquer hesitação em afirmar que se tratam de realizações absolutamente "genuínas" e não apenas uma cópia das festas realizadas em São Miguel pois projectam "a vivência original que [os emigrantes] trazem dos Açores, mas adaptadas às circunstâncias canadianas".

Segundo ele, há três "referências imateriais" que estes "trouxeram consigo no coração", entre outras, designadamente: o Senhor Santo Cristo dos Milagres, o Espírito Santo e a Nossa Senhora de Fátima.

"Aqui, como há esta necessidade – como bons cristãos, bons açorianos e bons portugueses – de mostrar, de provar e manifestar a sua fé" através de "palavras, gestos e ritos, fazendo estas celebrações, julgo que é muito genuíno – muito genuíno e verdadeiro", afirmou Hélder Cosme em declarações ao jornal Sol Português.

"E, sendo honesto e verdadeiro, é uma prova e uma manifestação evidente de fé", concluiu.

O serviço litúrgico registou também a presença do mestre de cerimónias do pontifício, padre Mark Kolosowski, do diácono John Coletti, da igreja de São Francisco Xavier, e do pároco reformado Antoni Mendrela, ficando as leituras a cargo de João Rafael.

Pouco depois, a fé saiu mais uma vez à rua para a imponente procissão que circundou todo o quarteirão a sul da igreja, acompanhada musicalmente ao longo do trajecto por quatro filarmónicas, uma delas vinda dos Estados Unidos da América, a Banda de Nossa Senhora da Luz, de Fall River, a par das Bandas Sagrado Coração de Jesus e Senhor Santo Cristo, ambas de Toronto, e a Lira Portuguesa de Brampton.

O percurso este ano foi um pouco difícil, especialmente para os porta-bandeiras e para os homens que carregaram o lindíssimo andor com a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres – habilmente decorado por José António – devido ao vento forte e frio que se fez sentir durante todo o caminho e que, mesmo com estes revezando-se periodicamente, obrigou-os a despender grande esforço.

No total, o cortejo integrava mais de vinte secções, uma delas composta por entidades ligadas à comunidade portuguesa e ao mundo da política, e entre as quais se encontravam a presidente da Câmara de Brampton, Linda Jeffrey, o vereador local Martin Medeiros e a deputada federal Sonia Sidhu, bem como o representante da SATA/Azores Airlines em Toronto, Carlos Botelho.

Em declarações ao jornal Sol Português, a presidente da autarquia manifestou o seu orgulho em ver estas celebrações realizarem-se na sua cidade, indicando estar consciente de que à medida em que estas crescem, os encargos financeiros estão a começar a pesar na organização, nomeadamente os custos associados ao encerramento das ruas por onde transita a procissão.

Por isso expressou ser da opinião de que a região de Peel e a direcção da polícia devem ajudar a aliviar essas despesas.

"Acho que é a forma correcta de proceder, [mas] acho que a altura ainda não é oportuna", indicou a autarca, realçando no entanto que "o meu propósito é certificar-me que a comunidade portuguesa não fica sobrecarregada com este maravilhoso evento (…) porque pode tornar-se tão gravoso que acabam por ter de o fazer numa escala mais reduzida ou diferente", o que, na sua opinião, não seria desejável.

"Tenho orgulho de fazer parte [deste evento], e apoio a comunidade portuguesa e o desejo do meu colega Martin Medeiros de ver a procissão crescer", afirmou Linda Jeffrey.

Para o vereador Martin Medeiros, "ter assistido à construção desta igreja e ao estabelecimento desta tradição tem muito significado, não só como católico, mas também como representante local", manifestando-se ciente dos sacrifícios e dos custos acarretados pela organização à qual diz ter prestado apoio desde que foi eleito.

No final da procissão, no coreto localizado atrás da igreja, Guido Pacheco, presidente da comissão de festas, foi um dos oradores que discursou para agradecer a todos os voluntários pela sua dedicação na organização deste evento.

Após quatro meses de trabalho, Guido Pacheco adiantou à nossa reportagem sentir-se muito satisfeito com os resultados, realçando o privilégio das festividades este ano terem contado com a participação do cardeal Collins e do bispo Boissonneau, as duas entidades máximas da arquidiocese de Toronto.

Uma das iniciativas que o deixou particularmente satisfeito foi a introdução este ano de uma vigília nocturna que atraiu a juventude e vários outros grupos, e que se realizou após a celebração da habitual missa de cura e bênção dedicada aos doentes – evento que sexta-feira (7) assinalou o início das actividades.

As celebrações incluíram a mudança da imagem no sábado (8), cerimónia que envolveu o transporte do andor numa pequena procissão à volta da igreja, acompanhada pela Banda visitante de Fall River e a Lira Portuguesa de Brampton, seguindo-se a celebração da Santa Missa.

Entretanto, as actividades só viriam a concluir já no dia de segunda-feira (10), altura em que se realizou o tradicional cortejo de oferendas, seguido de missa de Acção de Graças.

Destaque também para a componente profana das festividades com a realização de arraiais e espectáculos todos os dias, incluindo o de domingo, no final da procissão.

Tendo por mestre-de-cerimónias o radialista António César, os espectáculos ao longo destes dias contaram com actuações da David DeMelo Band, vinda dos EUA, assim como de Bandas e artistas locais, incluindo o conjunto Sagres, o duo Lucy e Bela, e os cantores Jessica Amaro, Lídia Sousa, João Marques e Ricardo Cidade, bem como o Grupo Folclórico da Casa dos Açores.


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