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Canadá/Covid-19: Ontário declara estado de emergência e impõe novas restrições

Com mais 5,2 milhões de infectados no espaço de uma semana e o número de óbitos a aproximar-se dos dois milhões, o mundo contabilizava no início desta semana 91,1 milhões de casos de Covid-19 desde o início da pandemia, 71,1 por cento (64,8 milhões), considerados já recuperados.

A nível nacional bateram-se mais uma vez os recordes diários com cerca de 58.000 infectados no espaço de uma semana, cifrando-se o total até à data em mais de 666.000 casos.

Embora mais de 565.000 pessoas já tenham superado a doença, o que elevou a taxa de recuperação de 83,7 para 84,8 por cento, faleceram mais 1.100 canadianos, o que elevou para 17.000 o número de óbitos atribuídos à pandemia desde que chegou ao território nacional.

Também no Ontário a situação continuou a piorar, o que levou o governo a ter de adoptar medidas ainda mais restritivas, a entrar em vigor esta semana.

Quando a 6 de Janeiro a equipa do hospital Michael Garron completava a primeira fase de vacinação de todos os residentes que foram considerados qualificar-se para a inoculação nos 22 lares de idosos a seu cargo, a dra. Theresa Tam, directora dos serviços de saúde do Canadá, revelava que até à data tinham sido já detectados no país 11 casos da nova variante do vírus Covid-19, descoberta no Reino Unido escassas semanas antes.

O número havia acrescido em dois casos desde a véspera, mas até aquele momento não tinha ainda sido detectada nenhuma outra variante, situação que afligia já a África do Sul, a braços com uma terceira estirpe do coronavírus.

Estávamos a meio da semana e o ministro dos Transportes, Marc Garneau, lembrou que a proibição de voos do Reino Unido terminava nesse dia à meia-noite, mas garantiu que as novas regras que estavam prestes a entrar em vigor e que exigem que quem chega ao Canadá tem de apresentar um comprovativo de teste de Covid-19 com resultado negativo, iam impedir a entrada do vírus pela fronteira.

Enquanto isso, o governo do Ontário anunciava o início de um sistema de despistagem da Covid-19 no aeroporto internacional de Toronto que permite aos viajantes pré-inscreverem-se para o programa ou fazerem o teste quando chegam ao aeroporto.

Os participantes no projecto-piloto recebem um kit gratuito para o teste, que tem de ser auto-administrado sob a supervisão de um funcionário de saúde, seja de forma presencial ou por tele-conferência.

Independentemente do resultado ser positivo ou negativo, à chegada ao Canadá todos os viajantes continuam a ter de ficar em quarentena durante 14 dias.

Com o número de infecções no país a aumentar drasticamente, incluindo o número de pacientes hospitalizados em estado crítico, algumas morgues indicaram estar no limite das suas capacidades e na província de Quebeque ponderava-se a adopção de restrições ainda mais apertadas, incluindo o recolher-obrigatório, que viria a ser decretado pouco depois.

Em Toronto, o presidente da Câmara, John Tory, anunciou que a partir de quinta-feira (7) a autarquia ia começar a oferecer a vacina aos cerca de 1.300 paramédicos que trabalham nos serviços de saúde do município e que, voluntariamente, podem deslocar-se a um dos três locais disponibilizados para o efeito, cada um dos quais com capacidade para inocular 50 pessoas por dia.

Como destacou, os paramédicos são uma extensão das urgências dos hospitais pelo que garantir a sua inoculação é importante para proteger os funcionários hospitalares e outros trabalhadores de "primeira linha".

Segundo dados revelados pelas autoridades de saúde, e tal como alguns peritos haviam advertido ao preverem que o índice de mortalidade viesse a acelerar durante o Inverno, o número de óbitos em Toronto atribuídos aos efeitos do coronavírus ultrapassava já os 2.000.

Também um importante projecto de construção em curso na cidade, o metro de superfície Eglinton Crosstown LRT, sob a tutela da firma Crosslinx Transit Solutions, viria a ser profundamente afectado pelo vírus, com a revelação quinta-feira de que 28 trabalhadores estavam infectados e 70 outros em isolamento.

Nesse dia o Ontário bateu também dois recordes ao registar 3.519 novos casos de Covid-19 e 89 mortes no espaço de 24 horas, e pela primeira vez os hospitais de Toronto viram-se obrigados a transferir os seus pacientes pediátricos internados para o Hospital das Crianças, para abrirem camas face à vaga de doentes a necessitarem de tratamento para a Covid-19.

Como precaução, o governo do Ontário viria a anunciar que as escolas da província iriam continuar em regime de ensino virtual até 25 de Janeiro, à excepção das que se encontravam localizadas na região norte da província – data que dias depois viria a ser prolongada até 10 de Fevereiro nas regiões de Toronto, Hamilton, Peel, York e Windsor-Essex.

Entretanto, o jogo de ping-pong de recriminações mútuas entre Otava e o Ontário com respeito ao fornecimento de vacinas continuou a decorrer, com o primeiro-ministro provincial, Doug Ford, a indicar que só na quinta-feira tinham sido vacinadas quase 15.000 pessoas e a apelar ao governo federal para acelerar o processo de distribuição pois as clínicas da província corriam o risco de esgotar as suas reservas.

Apesar disso, continua a existir alguma reticência não só entre o público como entre alguns profissionais do sector da saúde quanto à vacinação, situação que os peritos parecem ter chegado à conclusão que será melhor controlada com uma campanha de educação do que a tentar obrigá-los a serem inoculados contra a sua vontade.

A caminho do fim-de-semana, o Ontário voltou a bater o recorde de casos diários, indicando sexta-feira terem sido identificados 4.249 novas infecções nas 24 horas anteriores.

Enquanto isso, o Primeiro-ministro Justin Trudeau dava conta do progresso que foi feito durante o debate que manteve na véspera com os seus homólogos provinciais a respeito do processo de distribuição de vacinas, incluindo formas de combater as informações erróneas que circulam sobre o assunto.

Segundo o chefe do governo federal, na semana anterior foram enviadas mais de 124.000 doses da vacina da Pfizer-BioNTech para 68 locais espalhados pelo país e previa-se a distribuição de mais 208.000 doses até ao fim do mês, assim como mais de 171.000 doses da vacina da Moderna até ao final desta semana.

Segundo o departamento de Saúde do Canadá, já tinham sido inoculados cerca de 230.000 canadianos e até àquela data não tinham registado nenhum caso de efeitos secundários "inesperados".

Por seu turno, o departamento de Estatísticas do Canadá viria a revelar que a economia tinha perdido 63.000 postos de trabalho em Dezembro – a primeira queda desde Abril – ficando-se a taxa de desemprego pelos 8,6 por cento, um aumento de 0,1 por cento em relação a Novembro.

Foi também nesta data que Doug Ford emitiu o seu alerta mais estridente a respeito da situação, ao avisar que os recordes galopantes, incluindo taxas de positividade "dramaticamente altas" em crianças e as projecções "assustadoras" iriam levar a um período de confinamento mais duro, a ser detalhado no início desta semana.

Efectivamente, no domingo (10) o governo do Ontário indicava continuarem muito perto dos mais de 4.000 novos casos diários, tendo sido detectadas 3.945 infecções no espaço de 24 horas.

No dia seguinte, segunda-feira (11), enquanto a directora dos serviços de saúde do Canadá, dra. Theresa Tam, mais uma vez alertava para o aumento no número de hospitalizações e de mortes atribuídos à Covid-19 em todo o país, em Toronto a dra. Eileen de Villa, directora dos serviços de saúde da autarquia, dizia que os níveis de Covid-19 em Toronto eram tão sérios que era "difícil de descrever".

Entretanto e face ao extraordinário enriquecimento que algumas das principais famílias do país têm registado durante a pandemia enquanto a classe média e pobre continua a sofrer desmesuradamente os efeitos económicos das medidas de confinamento decretadas, têm havido grandes críticas às companhias que pretendem pagar compensações suplementares aos seus executivos.

Neste clima de ressentimento, Jeremy Rudin, do Gabinete do Superintendente de Instituições Financeiras em Otava, indicou que não iria permitir aos bancos e seguradoras que aumentassem os dividendos pagos aos accionistas, nem oferecessem aumentos de compensação aos executivos ou a possibilidade de recompra das suas acções até que sejam levantados os confinamentos.

Segundo estimava o banco RBC (Royal Bank Canada), num documento nesse dia emitidos, o país só estará a caminho da retoma económica quando tiverem sido vacinadas pelo menos entre quatro a 4,5 milhões de canadianos em situação de alto risco.

Nessa tarde, Doug Ford emergiu com ar soturno do seu gabinete para anunciar que as entidades oficiais tinham "trabalhado durante todo o fim-de-semana" para determinar quais os próximos passos a dar para melhor controlar a pandemia.

Na sua avaliação, "vamos [passar por] águas bem turbulentas nos próximos dois meses" indicando que "o sistema de saúde está à beira da ruptura" e é necessário "tomar todas as precauções para salvaguardar os mais vulneráveis".

O primeiro-ministro provincial incentivou mais uma vez o público a aderir às medidas de confinamento enfatizando que todos temos "a vida doutras pessoas nas mãos".

Em Toronto, o presidente da Câmara, John Tory, anunciou a abertura de um centro de imunização no Metro Toronto Convention Centre, que estará a funcionar a partir da próxima segunda-feira (18) e que, segundo ele, será "um enorme passo em frente" no combate à pandemia.

A responsável pelos serviços de saúde da autarquia, dra. Eileen de Villa, emitiu um relatório sobre a situação na cidade e a respeito do que considera ser um grande número de pessoas que continuam a trabalhar enquanto doentes, por necessidade financeira.

Apelou por isso ao governo provincial para que autorize os trabalhadores a poderem tirar até cinco dias por doença, com remuneração, período que aumentaria para 10 dias durante surtos de doenças infecciosas, ao mesmo tempo que pedia para que fosse reforçada a protecção dada aos trabalhadores temporários durante a pandemia.

Na cidade de Londres, no Ontário, o Centro de Ciências Médicas anunciou o despedimento do seu director-executivo, dr. Paul Woods, que tinha viajado cinco vezes aos EUA desde o início da pandemia, incluindo durante as férias de Dezembro, contrariamente às recomendações das autoridades de saúde que apelam ao público para que evite deslocar-se a outras localidades.

Na terça-feira (12) o governo do Ontário viria a decretar o estado de emergência por um período de 28 dias, com o primeiro-ministro Doug Ford a pedir para que a partir das 00h01 de quinta-feira (14) as pessoas só saiam de casa para actividades essenciais.

Estas incluem: comprar comida ou medicamentos; ir ao médico ou a exames ou tratamentos; prestar auxílio a pessoas vulneráveis; cuidar de crianças ou levá-las à creche; frequentar uma instituição de ensino; ir ao banco; aceder a serviços do governo; fazer exercício ou passear os animais; e ir para o emprego, se não puderem trabalhar de casa.

Foi também nessa altura que o chefe do governo provincial anunciou o adiamento da data de regresso às aulas presenciais nas zonas mais afectadas pela pandemia, de 25 de Janeiro para 10 de Fevereiro.

As novas medidas limitam ainda o horário de funcionamento dos estabelecimentos comerciais considerados "não-essenciais" ao período entre as 7h00 e as 20h00, assim como estabelecem um limite para ajuntamentos de apenas cinco pessoas e a recomendação do uso de máscara mesmo ao ar livre, sempre que não for possível manterem a distância mínima de dois metros.

O fortalecimento das restrições surge face a dados publicados terça-feira que indicam que o sistema de saúde do Ontário poderá entrar em ruptura e que o número de mortes provocadas pela Covid-19 ultrapassará as que se registaram durante a primeira vaga da pandemia a menos que o contacto entre as pessoas seja fortemente limitado.

As projecções previam que o número de óbitos diários viesse a duplicar de 50 para 100 até ao fim de Fevereiro, caso se mantivessem apenas as restrições anteriores.

Ainda segundo as informações publicadas, cerca de 25 por cento dos hospitais no Ontário não têm camas disponíveis nos cuidados intensivos e outro tantos têm apenas uma ou duas livres.

Face à nova variante do coronavírus descoberta no Reino Unido, que tem o potencial para aumentar de forma drástica o número de casos, a lotação nos cuidados intensivos e a mortalidade, o dr. Adalsteinn Brown, um dos peritos que elaboraram as previsões, advertiu que a escassez de recursos poderá levar as equipas de saúde a ter que tomar decisões difíceis nas próximas semanas, classificando-as de "escolhas que ninguém quer fazer e nenhuma família quer ouvir", nomeadamente, "quem recebe tratamento e quem não o recebe".

Segundo adverte, "se não seguirmos estas restrições, a Covid-19 vai continuar a alastrar de forma agressiva antes que as vacinas tenham oportunidade de nos proteger", o que, conclui, "terá consequências trágicas para nós, para a nossa saúde, para a nossa província e para o nosso sistema de saúde".


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