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Vacinas bivalentes: próxima etapa na luta contra a Covid-19

As previsões de uma nova vaga de Covid-19 no Outono tornam provável outra campanha de vacinação para as doses de reforço, mas existem muitas dúvidas sobre a forma como o vírus continuará a evoluir e que tipo de protecção uma nova vacina poderá vir a oferecer.

Vários fabricantes de vacinas estão numa corrida contra o tempo para criarem fórmulas que tenham em conta a variante Ómicron, mais infecciosa e que presentemente está a originar um elevado número de casos.

Enquanto isso, os responsáveis pela formulação de critérios e de protocolos estão a preparar as bases para mais uma campanha de vacinação em larga escala.

Muito depende das expectativas de que a chamada injecção bivalente possa atenuar um potencial aumento das infecções no futuro, à medida que chega também a época das gripes, o que poderá colocar mais pressão sobre um sistema de saúde já por si sobrecarregado.

O Comité Consultivo Nacional de Imunização (NACI, na sigla em inglês) divulgou na semana passada as directrizes provisórias para um programa de Outono que disse ser mais importante sobretudo para os idosos e aqueles que correm mais riscos de complicações caso contraiam Covid-19.

O grupo observou também que, embora a protecção da vacina contra doenças sintomáticas diminua com o tempo, a protecção que oferece para as complicações graves tende a manter-se mais tempo.

Nos Estados Unidos, os responsáveis da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês) expressaram já a sua decisão de que as vacinas de reforço a disponibilizar no Outono devem conter já alguma versão da variante Ómicron.

Aqui fica uma indicação da próxima etapa na luta contra a Covid-19.

Vacinas bivalentes

As vacinas actualmente disponíveis contra a Covid-19 são monovalentes, adaptadas exclusivamente à estirpe original do coronavírus. As vacinas bivalentes agora propostas visam mutações específicas na proteína espigão, observadas tanto na estirpe original como na variante Ómicron que gerou múltiplas subvariantes infecciosas que dominam as infecções actuais.

Na essência, as vacinas bivalentes são uma mistura entre a antiga sequência de mRNA, "original", e a nova sequência, explica o especialista em doenças infecciosas, dr. Zain Chagla.

O princípio básico já está bem estabelecido com as vacinas contra a gripe, refere a imunologista e professora da Universidade de Toronto, Tania Watts.

Os especialistas dizem que o Canadá já está a meio da sua terceira vaga da Ómicron – a sétima do coronavírus – e que esta pode ser seguida por uma nova ameaça de variante da Covid-19, mas isso não torna uma vacina ajustada à Ómicron necessariamente desactualizada se não estiver pronta até ao Outono.

Para o dr. Volker Gerdts, director e presidente da Vaccine and Infectious Disease Organization, a melhor estratégia é fornecer uma protecção tão ampla quanto possível.

"É por isso que algumas dessas chamadas vacinas bivalentes ainda contêm a estirpe original, acrescida duma estirpe adicional da Ómicron ou Delta", refere.

Entretanto, as subsidiárias canadianas dos laboratórios Pfizer e Moderna afirmam que as suas plataformas de vacinas mRNA permitem actualizações rápidas para abordar novas variantes, se necessário.

Mas é possível que "as vacinas de reforço bivalentes possam fornecer ampla protecção contra várias variantes diferentes, mesmo aquelas contra as quais não foram especificamente projectadas para combater", sublinhou Shehzad Iqbal, director dos serviços médicos da Moderna Canada, por e-mail.

Capacidades das vacinas bivalentes

Há aqui alguma incerteza, diz Chagla, professor da Universidade McMaster de Hamilton.

A evidência até agora é que estas podem aumentar os níveis de anticorpos, ainda mais do que as doses anteriores, mas não há dados clínicos que ilustrem o que isso significa exactamente. Será que isso traduz-se numa protecção mais prolongada contra doenças sintomáticas? Em ainda mais protecção contra o risco de hospitalização? Quanto tempo duram os efeitos e diminuirão com o tempo?

Na realidade, ele suspeita que estas se comportarão da mesma maneira que as actuais vacinas contra a Covid-19: os níveis de anticorpos induzidos decairão com o tempo e as pessoas podem ser infectadas novamente.

Data prevista para a chegada das novas vacinas

A Moderna Canada refere que submeteu a sua vacina de reforço bivalente à Health Canada em 30 de Junho para aprovação regulatória.

Shehzad Iqbal explica que a actualização proposta é uma dose de 50 mcg que contém a vacina original, conhecida como Spikevax, e uma candidata à vacina que tem como alvo a Ómicron.

"Embora não possamos especular sobre o momento em que será feita a avaliaça da Health Canada, o nosso objectivo é ter o reforço bivalente contendo o gene da Ómicron disponível para o início do Outono", disse Iqbal.

A Pfizer Canada também disse que prevê obter aprovação para outra vacina contra a Covid-19.

"Estamos actualmente em contacto com a Health Canada na preparação do envio dos nossos dados disponíveis, incluindo dados para construções que incluem as subvariantes BA.1 ou BA.4/5 da Ómicron", adiantou a empresa por e-mail.

Desafios

Se as vacinas bivalentes estiverem prontas para o Outono, o dr. Isaac Bogoch, especialista em doenças infecciosas, espera que possamos executar três programas de vacinação simultâneos: um programa de vacinação de reforço, um programa de vacinação contra a Covid-19 para crianças menores de seis anos, se também forem aprovados; e o programa anual de vacinação contra a gripe.

Porém, o docente da Universidade de Toronto salienta que "um dos desafios é que, em grande parte do país, grande parte da infra-estrutura para vacinação em massa foi já retirada".

Entretanto, tanto os drs. Bogoch como Chagla apontam para os avanços constantes na tecnologia que podem moldar os próximos anos, incluindo o trabalho para desenvolver vacinas intra-nasais sem agulhas.

Tal como Volker Gerdts, os especialistas também elogiaram os esforços envidados para criar vacinas pan-corona que podem dar protecção contra vários tipos de coronavírus.

Conforme explica Volker Gerdts, tal produto provavelmente incluiria estruturas de muitos elementos diferentes da família do coronavírus – não apenas o SARS-CoV-2 que provoca a Covid-19, mas também a síndrome respiratória do Médio Oriente, também conhecida como MERS, e um outro coronavírus respiratório comum.

Contudo, acrescenta que essa vacina, se vier a ser viável, está ainda a vários anos de distância.


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