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Artistas comunitários pronunciam-se sobre impacto da pandemia

Por João Vicente
Sol Português

Desde meados de Março que a música deixou de se ouvir nos clubes e associações portuguesas, obrigados a cancelar as suas actividades e a encerrar as portas em consequência das medidas decretadas para tentar conter a propagação da pandemia de Covid-19 que, tal como noutros países, grassa também no Canadá.

Assim como na semana passada colhemos a perspectiva de empresários da comunidade sobre a forma como foram afectados e anteriormente auscultámos vários clubes e associações antes de fecharem, desta vez abordámos artistas luso-canadianos cuja actividade musical, para além doutras profissões que muitos têm em paralelo, é desenvolvida sobretudo no seio das organizações portuguesas.

Além do seu depoimento pessoal sobre a actual situação e perspectivas para o futuro próximo, vários expressaram também preocupação em relação à continuidade das colectividades que preservam e promovem a cultura lusitana no Canadá.

De forma geral, e embora tenham sofrido como todos os que tiveram de suspender a sua actividade profissional, muitos são os que consideram que esta pausa prolongada lhes trouxe também aspectos positivos, quer a nível emocional quer criativo.

Carlos Borges, que com Nelson Câmara constitui metade do duo Som Luso, confessa que é uma situação difícil pois estão ambos "ansiosos" por recomeçar as actividades, o que se complica por não poderem ensaiar juntos devido às regras de distanciamento social.

Contudo, diz que essa ansiedade é atenuada pelo facto de se concentrarem na aprendizagem de novos temas para que, assim que lhes for permitido retomarem a actividade, terem "um repertório mais renovado".

A sua opinião é de que dentro de um ou dois meses a tendência será para começar a restabelecer a normalidade, mas também considera a possibilidade de que mesmo assim não voltem a haver bailes até ao fim do ano, por isso os artistas provavelmente vão continuar a concentrar-se na apresentação de músicas ao vivo nas redes sociais.

Se Carlos Borges se pode dar ao luxo de ficar em casa para garantir o bem estar da família, e a profissão que desenvolve além da música assim o permite, já o seu colega Nelson Câmara, que vive sobretudo do trabalho de produção musical no seu próprio estúdio está, por enquanto, impedido de exercer essa actividade.

Esta é uma situação que afecta todos os artistas, incluindo a cantora Jessica Vidal que além de ter tido de cancelar espectáculos, incluindo uma digressão às Bermudas e o lançamento de dois singles planeados para este Verão, acabou o seu último ano do curso universitário com aulas online, longe dos colegas e sem com eles poder festejar como finalista.

Reconhece estar em boa companhia pois, tal como os outros, é vítima das circunstâncias, mas admite que é algo que custa, mesmo sabendo que "é para o bem de todos estarmos em casa".

Como ressalva, não deixa de ser também um pouco "triste não podermos conviver" e mesmo que exclame com um suspiro que "temos de levar um dia de cada vez e esperar para ver o que vai acontecer", sente falta de "cantar para a comunidade portuguesa".

O cantor lírico Miguel Domingos e ex-maestro da Orquestra do Sagrado Coração de Jesus da Igreja de Santa Helena declara-se ciente do impacto que este momento está a ter nas nossas vidas e teme que venha a afectar as artes e a economia em geral de uma forma que só se poderá verdadeiramente apreciar no ano que vem.

"Isto é uma crise diferente", diz-nos, declarando-a "uma crise humana já que, "tudo leva a crer que não foi crise para o planeta [nem] para os animais – acho que foi até um [benefício] para todo o género de seres vivos na terra, excepto o humano".

Apesar de tudo o que se está a sofrer e das consequências que poderão ainda daqui advir, mantém uma réstia de esperança de que "isto não deite as pessoas abaixo ao ponto de não se erguerem de novo" e que, no final possa trazer também algumas "coisas positivas".

Para Minah Jardim, que nos diz ter estado a cumprir com o isolamento social desde a segunda semana de Março, altura em que também cancelou as aulas de canto que dá, a sua vida "levou um volte face completo", limitando-se a uma saída semanal para tratar do essencial pois de resto diz ter tido bastante apoio dos filhos.

"A paciência começa a esgotar-se" – confessa – "mas tenho de chamar a mim todas as minhas forças interiores e positivas para continuar a conformar-me com isto tudo". Mesmo assim, considera não se sentir sozinha e revela que o Dia da Mãe, por exemplo, foi até bastante agradável, com muitas mensagens e telefonemas numa "onda muito forte e positiva" de apoio.

Claro que todos os planos profissionais foram postos de lado, inclusive uma ida aos Prémios Internacionais de Música Portuguesa, que anualmente se realizam em Boston, EUA, um espectáculo que tinha agendado nas Bermudas e ainda uma ida a Portugal, mas por outro lado continua a tocar, a cantar e a compor, quando os dias se proporcionam a isso.

Declara também o seu reconhecimento e gratidão pelo trabalho dos profissionais de saúde e de todos quantos têm arriscado as suas vidas para manter os serviços essenciais em funcionamento e embora se sinta protegida no seu cantinho lamenta as perdas humanas e a lacuna que a falta da actividade musical deixou na sua vida.

A fadista Clara Santos, por seu lado, confessa que "se quisesse mentir podia dizer que está tudo bem, mas [a situação] afectou-me bastante a mente", lamentando a falta da rotina e de "não poder estar no palco a fazer as coisas que eu adoro".

Revelando a personalidade aberta e alegre que lhe é conhecida, diz-nos que tem aproveitado esta pausa para organizar algumas coisas que há algum tempo pretendia colocar em ordem, mas acrescenta com uma gargalhada que "as limpezas, arrumações e o Netflix também têm limites".

Já conseguiu ler "uma pilha de livros" que há muito esperavam para ser lidos e revela ter também enchido um bloco de notas e começado outro com as suas escritas, mas diz que tem tido dificuldade em escrever letras para canções e por isso mal pode esperar para que sejam levantadas as restrições pois, como destaca, estar em palco faz parte da sua personalidade e faz-lhe falta.

Como gerente da equipa de técnicos e mecânicos numa concessionária automóvel, Jessica Amaro não deixou de trabalhar, mas nem por isso deixou de sentir o impacto do momento que se vive, uma vez que até os espectáculos que tinha agendados para Julho na Europa foram adiados para o próximo ano.

Entretanto teve de "encontrar outra maneira diferente para continuar com o bichinho da música", por isso optou por seguir o conselho de uma amiga e começou a transmitir as suas actuações nas redes sociais.

Tem-se dedicado também a escrever músicas novas, inspiradas na crise actual, optando ainda por contactar mais frequentemente com os colegas para, mesmo à distância, poderem comiserar sobre o momento que estão a partilhar.

Apesar de tudo, admite que gosta de estar em casa e passar tempo com os pais, partilhando connosco a pressão que sente no trabalho e o alívio que diz sentir ao chegar-se ao fim do dia e poder dedicar-se ao que lhe dá prazer e que, além da música, passa por fazer queijo.

Entretanto, revela-nos que ela e os pais já fizeram mais de cem chapéus para os enfermeiros do Hospital Trafalgar e considera que esta actividade os tem aproximado mais da comunidade em que vivem ao levá-los a envolverem-se mais.

Tem presenciado gestos genuinamente altruístas – como o de uma vizinha que mandou flores para ajudar a alegrar as pessoas em seu redor – e é com alguma serenidade que aguarda os desenvolvimentos, embora considere que o processo de recuperação será longo.

Tony Gouveia diz-nos que de início não estranhou muito, pois já está reformado, mas a nível de espectáculos nem por isso deixa de ter saudades do calor do público e da camaradagem com os músicos.

Vai-se mantendo ocupado com outras actividades, incluindo a traduzir um documentário sobre fado, mas também a organizar aquilo que por vezes se vai deixando para outro dia.

"Começar a limpar já o quintal", diz com uma gargalhada, adiantando que "agora não há desculpas", além de que aproveitou para tratar de uma série de caixas de papelada acumulada ao longo dos anos, redescobriu recordações de espectáculos e tem relido e saboreado algumas mensagens dos seus fãs, assim como fotografias.

Confessa que tem feito por apreciar este momento e dar as suas caminhadas, e entretanto foi convidado a participar do programa radiofónico Sons de Portugal.

Entretanto estava previsto lançar um novo disco no passado sábado (9) mas, como tudo o mais, o espectáculo foi adiado indefinidamente, e concentrou-se por isso na gravação de dois temas para a emissão online de um concerto para angariação de fundos a favor da bebé Eva Batista que decorreu nesse mesmo dia e do qual participaram também vários outros talentos da comunidade local, de Portugal e doutras comunidades.

Apesar de ter esperança de que as coisas se venham a recompor, diz-se preocupado com o futuro das colectividades comunitárias, especificamente com o facto de terem uma grande componente de pessoas mais idosas que se poderão mostrar receosas de voltar a conviver como dantes.

A sua esposa, Elizabeth, também ela com uma carreira artística, afirma que evitar de ver as notícias a ajuda em termos de saúde mental, ainda que com uma mãe octogenária em casa tenha que cumprir à risca todas as recomendações das autoridades de saúde.

Segundo nos diz, tem aproveitado para passar bastante tempo com ela, a cozinharem juntas e a conversarem "à velocidade dela", além de não lhe poupar beijos e abraços.

No trabalho dirige uma equipa de 80 pessoas e sente-se grata porque a empresa tem conseguido manter os empregados a tempo inteiro, embora tivesse de despedir temporariamente os que trabalhavam a tempo parcial para que pudessem usufruir dos benefícios oferecidos pelo governo.

Por outro lado, afirma que o ritmo do trabalho, da lida da casa e da vida musical por vezes é exaustivo, por isso acolheu esta oportunidade e aproveitou para passar momentos de muito carinho e amor com a mãe.

Espera que a situação evolua para uma nova normalidade e que entretanto as pessoas que ficaram em casa aproveitem estas semanas "para reflectir, pensar e mudar alguma coisa" nas suas vidas.

Tal como todos os outros, também Tony Câmara viu os seus espectáculos e concertos cancelados até ao fim de Julho, situação que aceita com o seu jeito afável dizendo apenas com uma gargalhada: "o que é que se há-de fazer? É assim – a vida é essa agora".

Por outro lado, admite que "ao mesmo tempo muitas coisas positivas" lhe aconteceram devido a esta situação, incluindo apreciar o tempo que tem passado em casa com a família, o que dantes era difícil de conciliar com uma vida atarefada durante a semana no trabalho e ao fim-de-semana com espectáculos.

"As minhas prioridades agora mudaram e é assim que vão continuar a ser", garante, indicando ter aprendido muito: "Os meus filhos estão a crescer muito rapidamente por isso ajudou-me a ter uma melhor ligação com eles nesta idade em que precisam do pai".

Além do mais, está feliz com a projecção que as suas actuações nas redes sociais estão a ter, as amizades que daí têm surgido e as portas que lhe têm aberto a colaborações futuras e que, como refere, "não teriam surgido se não estivesse a fazer estes `Lives' no Facebook".

A primeira vez fez-lo "por desafio", mas dois dias depois o vídeo da sua actuação tinha sido visualizado 5.000 vezes e choviam elogios de todo o lado, além dos comentários de pessoas que com ele partilhavam as suas experiências pessoais durante este período, por isso decidiu dar-lhes continuidade e... já lá vão seis actuações.

Também ele admite ter algum receio quanto ao regresso à normalidade, mas acredita que as salas eventualmente se vão encher como nunca, pois "o pessoal está com saudades".

Por enquanto, e no meio de todas as incertezas, está a preparar-se para uma eventual retoma dos espectáculos a nível comunitário – que crê possam voltar a ocorrer lá para Setembro – embora, como todos os outros, continue "a aguardar para ver".


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