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Casa da Madeira de Toronto:

Dia Internacional da Mulher assinalado com oradora convidada

Por João Vicente
Sol Português

Para assinalar o Dia Internacional da Mulher, celebrado no passado sábado (9) na Casa da Madeira de Toronto, a colectividade madeirense voltou a convidar Paula Medeiros a pronunciar-se sobre o tema no decorrer de um serão que incluiu um baile e espectáculo a cargo do artista Michael Silva, vindo de Câmara de Lobos.

Em declarações ao jornal Sol Português, a oradora convidada referiu estar ali nessa noite "com muita honra e prazer", tendo aceite o convite pois começa já "a ver algum efeito".

"Desde que cá venho tem-se notado que algumas mulheres têm-me procurado", disse a presidente do PSD-Toronto, que salientou ser assistente social de profissão, tanto no Canadá como em Portugal, e por isso consciente da realidade pela qual muitas mulheres continuam a passar.

Como destacou, "sempre que alguém vem ter comigo a pedir informação sobre um local de acolhimento (…) para onde se possa encaminhar uma mulher ou uma família – mãe e filhos – (...) porque está a ser vítima em casa", ou "sempre que uma mulher vem (…) à procura de apoio psicológico porque está a ser vítima e pretende sair daquele ambiente (…), todos esses passos para mim são pequenas vitórias e isso faz-me continuar a vir, ano após ano, até à Casa da Madeira para falar sobre o Dia da Mulher e fazer um momento de reflexão" com a assistência.

"Há coisas a mudar e todos juntos conseguimos ter impacto e conseguimos alcançar um futuro melhor para todas as mulheres", acrescentou.

No início do encontro e depois de ter dirigido uma saudação a todos, o presidente da Assembleia-Geral, Salomé Gonçalves, pediu um minuto de silêncio em memória das vítimas de violência doméstica, momento que foi dedicado também ao cunhado do presidente da colectividade, Luis Bettencourt, que havia falecido dois dias antes.

Mais tarde e em declarações à nossa reportagem, Salomé Gonçalves expressou a sua opinião de que "o Dia Internacional da Mulher devia ser feriado em todo o mundo" e a actividade das mulheres mais apreciada pois, como destacou, "se virmos bem, uma mulher trabalha mais do que um homem: além do emprego ainda tem de fazer a vida de casa e tudo isso, portanto temos que apreciar mais e dar mais carinho às mulheres".

Na sua perspectiva, a luta pela igualdade de estatuto e de direitos ainda tem alguns passos a dar, nomeadamente no que respeita a salários iguais uma vez que, como afirma, se "a mulher faz o mesmo trabalho que o homem, porque não? – tem de ter os mesmos direitos".

A palestra teve lugar após o jantar e Paula Medeiros começou por destacar a presença e o apoio que os jornais Sol Português e Voice têm dedicado a este evento, a esta causa e aos assuntos que a rodeiam, dirigindo uma especial saudação e agradecimento a António Perinú, director desta publicação.

"O Sol Português é um jornal de excelência", referiu a oradora, destacando que "tem feito um excelente trabalho na nossa comunidade e para a nossa comunidade e está sempre atento a causas importantes",

"A comunicação social normalmente [divulga] várias coisas importantes e interessantes, mas há outras que por vezes ficam para trás, mas os jornais Sol Português e Voice nunca se esquecem daquilo que é importante", afirmou ainda a líder do PSD de Toronto antes de convidar o público a dirigir uma salva de palmas a estas publicações.

Prosseguindo então com a sua alocução, Paula Medeiros referiu a "necessidade de voltar às bases", face ao que afirmou ser o agudizar da violência doméstica, tanto em Portugal como no Canadá, onde o número de mulheres mortas ou vítimas de maus tratos tem vindo a aumentar.

"Este ano em Portugal, em dois meses já morreram 13 mulheres e uma menina de dois anos, assassinada pelo próprio pai por vingança à ex-mulher" referiu Paula Medeiros, revelando a sua estupefacção perante actos tão bárbaros perpetrados no seio dum povo católico, dito "de bons costumes".

Como afirmou, "algo está mal, algo tem de ser mudado e o Dia Internacional da Mulher serve exactamente para isso".

O que considerou de desigualdade sistémica entre géneros no local de trabalho foi outro dos assuntos abordados, apontando o facto de que o número de mulheres que frequentam cursos superiores em Portugal ultrapassa já o dos homens, no entanto essa proporção continua a não se reflectir nos cargos de chefia de departamentos e empresas.

"Vamos reflectir, vamos pensar, porque todos nós nesta sala podemos mudar o mundo", lembrou a oradora, acrescentando que "todos nós nesta sala temos que cuidar das nossas mulheres e educar as nossas crianças porque elas vão ser o futuro e elas é que o podem mudar".

Na sua avaliação, só é possível mudar o panorama actual de duas formas: "pela via judicial e pela educação" e citou o seu próprio caso, que sendo natural de uma das freguesias mais pobres da Europa, conseguiu expandir os seus horizontes e chegar mais longe através da formação académica.

Paula Medeiros abordou ainda a importância de serviços de apoio a mulheres em crise, lembrando à plateia que existem centros vocacionados para tal, tais como o Abrigo, Working Women Community Centre, o West Neighbourhood (antigo St. Christopher) e outros.

"Vamos usar o sistema, que é para isso que ele existe, e qualquer um de nós aqui poderá beneficiar dessa situação e dar uma palavra de conforto", referiu.

Por fim, e a nível de dissuasão e castigo, a oradora referiu a necessidade de exercer pressão e exigir penas mais severas em ocorrências de violência doméstica, dando como exemplo alguns casos recentes em Portugal em que agressores violentos receberam penas suspensas – um que tentou atacar a esposa com uma catana e outro que agrediu sexualmente uma turista inglesa.

"Como português, sinto-me revoltado", afirmava Rafael Silva em relação aos exemplos citados.

Quanto a ele, o problema passa pela falta de consequências nestes casos e a solução é simples: "a lei tem que ser mais dura e ter a mão mais pesada" acrescentando que "a cadeia é para casos graves e isto é um caso grave – a violência doméstica não só afecta a mulher como afecta os filhos e os netos e acho que passa pelo governo e pela justiça ser mais severa e punir esses infractores".

Verónica António assistiu à palestra com as duas filhas e confessa que o seu desejo é vê-las crescer como pessoas fortes e independentes, em pé de igualdade com os homens que as rodeiem.

Embora ache que ainda vai demorar até se atingir esse patamar, continua a ter esperança de que as filhas possam vir a desfrutar dessa experiência.

Após a palestra procedeu-se à distribuição de flores pelas mulheres que se encontravam no salão e houve ainda oportunidade para uma foto de grupo que incluiu também o presidente da colectividade.

Por fim, o serão passou para o domínio do divertimento com a subida ao palco do cantor convidado, Michael Silva, que depressa levou a que a pista de dança se enchesse, mantendo a festa animada pela noite dentro com uma série de temas divertidos, de raiz popular.


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