1ª PÁGINA


CCPM:

Espectáculo intimista levou o fado a Mississauga

Por João Vicente
Sol Português

Há vários anos que o Centro Cultural Português de Mississauga (CCPM) tem vindo a estabelecer as suas credenciais como um destino por excelência para os amantes do fado e o espectáculo que ali se realizou na noite de sexta-feira (8) somou mais um triunfo a um palmarés já longo de sucessos.

No espírito das noites tradicionais fadistas, o encontro abriu com um jantar típico, constituído por caldo verde e bacalhau, após o que se deu início à actuação, mas não sem que antes o presidente-executivo da colectividade, Tony de Sousa, olvidasse dirigir algumas palavras de agradecimento a todos quantos ali se deslocaram, incluindo elementos da comunicação social.

Realizado no salão mais pequeno, na cave e não no salão nobre da colectividade, o espectáculo contou com as prestações em palco dos fadistas Tony Gouveia e Clara Santos, acompanhados musicalmente por Hernâni Raposo (guitarra), Valdemar Mejdoubi (viola) e Pedro Joel (contrabaixo).

As características do local, mais contido e íntimo, assim como a presença de um público participativo transformou esta noite de fado numa experiência diferente, pela positiva, cujo tom ficou estabelecido logo que Hernâni Raposo pegou no microfone e se ouviu da assistência um "I love you, Hernâni", ao que o guitarrista e mestre-de-cerimónias prontamente respondeu com "I love you too, Horácio", para gáudio de todos.

Horácio Domingos, que recentemente regressou de alguns dias de férias na República Dominicana, onde conviveu com Clara Santos e Valdemar Mejdoubi por ocasião do festival Winterfest 2019, estava realmente a sentir-se em casa e deu largas à sua alegria.

"Gosto de fazer parte das coisas e sou uma pessoa muito divertida", afirmou com uma gargalhada, quando apontámos com sentido de humor, mas não sem razão, que parecia quase a terceira estrela do espectáculo.

Foi Tony Gouveia quem inaugurou o palco, apresentando uma série de temas extraídos dos seus dois álbuns de fado, nomeadamente "O Nosso Fado", editado em 2005, e "Fado Ardente", de 2008, além de alguns clássicos, daqueles que o público normalmente espera ouvir num espectáculo destes.

Posteriormente, o fadista Tony Gouveia confessou ao jornal Sol Português que esta foi a primeira vez que actuou naquela sala, mas gostou muito pois fez-lhe lembrar o ambiente íntimo e acolhedor das casas de fado em Lisboa.

O artista disse-se ainda contente por conhecer, de uma forma ou outra, a maioria das cerca de 80 pessoas na assistência, incluindo um casal que destacou não ser português mas que se prepara para ir visitar Portugal e que nessa noite foi assistir a um espectáculo de fado pela primeira vez.

De facto, Cathy Rowe e Mark Guthrie deliciaram-se com a recepção calorosa e o ambiente familiar e descontraído que foram encontrar nesta Noite de Fado do CCPM, e se de início se limitavam a observar com atenção, lá mais para o fim já se apercebiam da dinâmica do evento e alinhavam a bater palmas ritmadas, nos momentos certos e sem que ninguém os indicassem.

"Fui ver alguns dos vídeos do Tony no meu iPad antes de vir para cá, só para me preparar e saber o que esperar, e o Tony já me tinha avisado que apesar de ser um estilo geralmente lento e triste também iam haver algumas partes mais enérgicas e tem sido muito divertido", afirmou Cathy à nossa reportagem.

Também Clara Santos, que se seguiu a Tony Gouveia em palco, se mostrou agradada com a sala e o ambiente que ali se criou, dizendo-nos ao intervalo que "aqui em baixo parece que sentimos [mais] o calor do público", algo que considera muito importante para o fado.

Ao lado do palco, a vê-la brilhar mais uma vez, estava a mãe, Maria dos Anjos, que confessou só não ver a filha actuar se estiver doente ou ausente do país.

"Vou com ela para todo o lado com muito prazer, muita alegria, muita satisfação", esclareceu Maria dos Anjos indicando que "é uma coisa que não consigo explicar, é mesmo uma alegria".

Foi uma alegria partilhada pela assistência que apreciou sobremaneira a actuação de Clara Santos, prendando-a e Tony Gouveia com aplausos, brincadeiras e demonstrações não só de apreço mas também de uma familiaridade carinhosa.

Por fim, os fadistas concluíram a sua actuação com um dueto e mais um fado cada um, fechando da melhor maneira uma noite que deixou todos os envolvidos satisfeitos e bem dispostos.

Este serão no CCPM foi organizado pela Fado House, uma iniciativa de Hernâni Raposo que procura divulgar o fado fora da comunidade Lusa e que já vai surtindo efeito.

"Lá em cima [no salão nobre] temos aquelas galas de fado bonitas, mas é bonito ver assim 80, 90 100 pessoas juntas onde se pode conviver um bocadinho mais", afirmou Tony de Sousa, referindo que a sua ambição é fazer algo semelhante uma vez por mês mas, feliz ou infelizmente, o CCPM tem tantas actividades que isso se torna humana e logisticamente impossível.

Mesmo assim, ainda este mês, no dia 29, haverá mais uma noite de fado, desta feita com a fadista convidada da ilha Terceira, Vera Brasil e Avelino Teixeira.

Quanto aos artistas que participaram nesta noite fadista, Tony Gouveia actua amanhã, sábado (16), no Clube Português de Leamington com a esposa, Elizabete, tendo previsto para este ano o lançamento de mais um álbum, enquanto Clara Santos vai realizar a 6 de Abril a sua 5.ª Gala de Fado na LIUNA Station, em Hamilton, altura em que apresentará também um novo álbum, intitulado "Alma Nua".

Entretanto, o CCPM revelou em primeira mão ao jornal Sol Português que este ano irá homenagear a vereadora e vice-presidente da Câmara de Toronto, Ana Bailão, com o Spirit Award de 2019, numa cerimónia a realizar dentro de cerca de um mês.


Voltar a Sol Português