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Cantoria dos Quatro Amigos em Scarborough:

Centenas assistem e garantem sucesso desta realização anual

Por Noémia Gomes
Sol Português

Conhecida por "Cantoria dos Quatro Amigos", a mais recente edição desta popular série de espectáculos de cantigas ao desafio realizou-se no passado fim-de-semana, enchendo durante dois dias (sábado, 9, e domingo, 10) o salão paroquial da igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Scarborough, com centenas de espectadores.

Estes encontros dedicados às cantorias – popular forma de expressão musical improvisada centrada nas tradições açorianas – já ali se realizam há 17 anos e têm como organizadores João e Lorena Martins, Manuel e Zurita Morgado, Carlos e Connie Carvalho, e José e Luciana Basílio Sousa, coadjuvados pelos mordomos do Espírito Santo, Fátima e José Correia.

João, Manuel, Carlos e José são, colectivamente, referidos como os "quatro amigos" que dão nome ao evento e viriam a ser chamados ao palco pelo apresentador, José Basílio.

João Martins agradeceu a presença e apoio de todos quantos colaboram nesta iniciativa, assim como do público que a apoia, e apresentou como convidado especial o vice-presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, José Gaspar Lima.

O edil expressou o seu prazer em juntar-se a esta festa anual e ao mesmo tempo aproveitou a ocasião para promover as grandes festas Sanjoaninas 2020, que embora ainda um pouco distantes estão já em preparação, convidando todos a deslocarem-se à Terceira para nelas participarem.

Mais tarde e em declarações ao jornal Sol Português, José Gaspar Lima viria a confirmar que esta deslocação a Toronto foi a convite da Irmandade do Espírito Santo da Senhora do Rosário e de João Martins, que desde há alguns anos a esta parte o têm convidado a participar neste encontro.

"Decidimos vir a esta festa de cariz açoriano com cantorias e desgarradas e aproveito ao mesmo tempo para divulgar um pouco das Sanjoaninas para o ano 2020", referiu o edil, que indicou ter aceite também o convite de outras entidades e organizações em Toronto, incluindo dos Amigos da Terceira-Canadá para o Festival de Alcatra.

Com respeito às Sanjoaninas, que destacou como "as maiores festas da ilha", indicou que se irão realizar ao longo de 10 dias, de 19 a 28 de Junho, e terão por tema "Angra nas Asas de um Sonho", contando no programa com um dia dedicado ao S. João do Porto, assim como "o maior desfile de marchas dos Açores, com uma média de 30 a 40 marchas".

"Temos vindo aqui anualmente visitar os amigos e divulgar as festas, mas desta vez vim sozinho, trouxe o cartaz e não temos planos para vir mais tarde como é habitual", adiantou, pois como referiu: "hoje em dia não há necessidade de vir a comitiva", uma vez que têm acesso "aos meios sociais e informativos para melhor divulgar as festas".

Aproveitando a oportunidade, o vice-presidente da autarquia deixou uma mensagem de agradecimento ao Sol pela oportunidade de falar sobre as festas, assim como "um abraço a todos os amigos", reforçando estarem "de braços abertos para os receber, em qualquer altura do ano".

Entretanto, e em antecipação do jantar, os párocos António Resendes Pereira e Williams Raposo foram chamados a proferir a bênção e a dar graças pela refeição que estava prestes a ser servida.

Também a mordoma do Espírito Santo, Fátima Correia, faria um apelo a todos para que assistam às festas que se realizam na paroquia e que, como destacou, servem para angariar fundos para as grandes festas do Espírito Santo que irão decorrer em Junho.

Apôs o jantar foram então apresentados os músicos João Carlos Silva, Januário Araújo, Délio Borba e José Sousa, que alternadamente viriam a acompanhar os cantadores, e de seguida foram chamados ao palco os improvisadores convidados.

Manuel dos Santos, Fábio Ourique, Paulo Miranda, Bruno Botelho e Roberto Toledo iniciaram a cantoria em conjunto, num "Pezinho" cantado em forma de saudações e louvores à Senhora do Rosário.

Momentos depois, o primeiro desafio opunha o veterano Manuel dos Santos ao jovem Bruno Botelho numa troca de impressões em quadras e sextilhas sobre o casamento, idosos e rivalidades – um misto de assuntos sérios e divertidos que lhes mereceram fortes aplausos do público.

Manuel dos Santos, que iniciou esta carreira há 46 anos, é natural dos Altares mas reside na Califórnia, EUA, onde canta há 44 anos, e com esta foram já 53 vezes que pisou os palcos canadianos.

Por seu turno, Bruno Botelho, de 18 anos, é natural das Feteiras, S. Miguel, e canta há apenas dois anos, tendo esta sido a sua segunda intervenção no Canadá, embora conte já com numerosas actuações em S. Miguel e na Terceira.

O segundo embate ocorreu entre o multi-facetado e semi-veterano Fábio Ourique e a nova sensação das cantorias, Roberto Toledo, de 14 anos.

Natural de S. Mateus, Terceira, Fábio Ourique estreou-se no Canada há sete anos e na altura "era o segundo mais novo e hoje o segundo mais velho" como disse em cantiga.

Já o jovem Roberto Toledo nasceu nas Fontinhas, Terceira, onde começou a cantar aos oito anos, seguindo os passos do avô, José Pereira das Fontinhas.

O duo fez uma actuação de luxo e muito divertida, sobretudo quando Fábio pediu ao jovem para imitar os cantadores mais antigos, como o Charrua, Turlu, Ferreirinha da Costa, Manuel Antão, Ferreirinha das Bicas, João Retornado, Maria Clara, Eduíno do Raminho e o tio, João Ângelo, num momento hilariante e muito aplaudido.

Houve ainda um segmento particularmente emocionante, quando Roberto cantou ao falecido avô, o que lhe trouxe lágrimas aos olhos bem como a muitos dos espectadores, o que prontificou Fábio a oferecer-lhe uma medalha, recebendo ambos estrondosos aplausos nesta actuação, com a plateia a pôr-se de pé por duas vezes.

No terceiro desafio Bruno Botelho voltou ao palco para defrontar Paulo Miranda, um jovem natural da Candelaria, S. Miguel, e que apesar da idade conta já com um palmares invejável e várias actuações, não só nos Açores como no estrangeiro.

Os dois debateram-se num misto de assuntos sérios e divertidos em torno do trabalho, do pão nosso de cada dia e da rivalidade entre as duas freguesias que representavam, Feteiras e Candelaria, respectivamente.

Com a hora já avançada e a cantoria prestes a terminar, Roberto Toleda e Paulo Miranda cantaram ainda as divertidas "Velhas", que é sempre um segmento muito divertido, assim como a desgarrada na qual participaram todos os repentistas – como diziam nas cantigas, "três rabos tortos e dois coriscos" – com as habituais sátiras entre S. Miguel e a Terceira, "Alcatra vs. Malagueta".

Tal como tinha sido anunciado no início da festa, parte dos fundos angariados nessa noite reverteram a favor da pequena Eva Batista, alvo da campanha For "Eva Strong", pelo que aos avós, que se encontravam presentes, foram entregues 4.037 dólares para a ajuda dos medicamentos, que custam perto de três milhões de dólares e não são cobertos pelo sistema de saúde.

A festa na paróquia de Nossa Senhora do Rosário continuou no domingo (10) com um almoço e uma sessão de fados com os fadistas Tony Gouveia, Clara Santos e Elizabete Gouveia, acompanhados pelos músicos Hernâni Raposo e Pedro Joel, seguida de mais uma grandiosa cantoria com os mesmos cantadores e tocadores do dia anterior.

A única alteração foi o cantador José Esteves que depois de uma actuação em Winnipeg se deslocou a Toronto a tempo ainda de participar nas cantoria de domingo e durante as quais, em jeito de surpresa, se bateu com Fábio Ourique num brilhante desafio.

Face a mais um sucesso, João Martins viria a confirmar à nossa reportagem que a 18.ª edição destas cantorias está já agendada para 2020, no segundo fim-de-semana de Novembro.


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