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Genealogia e história de Vale das Furnas compilada em edição monumental

Por João Vicente
Sol Português

Em 1983, Luís Miguel Rodrigues Martins, então um jovem com cerca de 20 anos de idade, natural de Vale das Furnas – freguesia do concelho da Povoação, na ilha de São Miguel, Açores – dava início a um projecto de pesquisa da sua genealogia.

Pouco tardou a que alguém comentasse que o verdadeiro genealogista não é só o que faz a sua própria árvore genealógica, mas a dos outros, daí que, munido de um novo objectivo e determinação férrea, se propôs a recolher e a organizar também a genealogia de todas as famílias da freguesia.

Licenciado em História Científica pela Universidade dos Açores e actualmente a desempenhar as funções de arquivista e bibliógrafo da EDA (Electricidade dos Açores), Luís Martins possui a formação e as características pessoais e profissionais necessárias para conseguir pesquisar, organizar e apresentar um gigantesco volume de informações.

Ainda assim, e mesmo tendo a aptidão, o interesse e o afinco para desempenhar esta gigantesca tarefa, foram necessários 34 anos para compilar toda a informação que agora se encontra publicada nas 4.500 páginas dos sete volumes – mais um só para o índice – da sua obra, a qual retrata mais de três séculos e meio da história dos habitantes das Furnas.

Foi esta monumental colecção que o autor apresentou ao público no passado domingo (10), perante várias dezenas dos seus conterrâneos radicados no Canadá e que se deslocaram ao Centro de Convenções em Mississauga para o escutar.

Como Luís Martins revelou, o desfecho para a missão a que se dedicou foi positivo, mas a origem da vontade e do empenho que deram como fruto a obra "Famílias do Vale das Furnas (1671-2017)" foi uma mágoa que o marcou, embora admita que na altura não se tivesse apercebido disso.

"Com a morte do meu avô [em 1981], a minha avó informou a família: `o vosso avô morreu com um desgosto [por não] saber quem seriam os seus antepassados', e eu ouvi aquilo e aquilo ficou", diz Luís Martins, que passados dois anos foi para a biblioteca pública "munido das ferramentas necessárias" para tratar de organizar a árvore genealógica da família.

Em 1996 concluiu a sua pesquisa, mas o âmbito do trabalho "explodiu" por forma a abranger toda a população da freguesia, algo que a informática viria eventualmente a facilitar, "principalmente no alinhamento de nomes de famílias colocados por ordem alfabética, porque antes tinha de se fazer aquilo manualmente", explica o autor.

Nem tudo correu sempre bem e a dada altura deparou-se com a perca total dos dados que recolheu e de todo o seu trabalho quando o computador falhou sem que tivesse uma cópia de segurança.

Face ao desastre que acabava de ocorrer, reconsiderou o projecto e pensou em desistir, mas acabou por persistir, passando os próximos dois anos a refazer tudo e continuando durante muitos mais até dar por concluída a obra, em 2017.

O projecto foi muito para além da recolha de nomes, datas e informação genealógica pois, como destaca, "a obra atravessa este tempo e ao atravessar este tempo atravessa também a própria história do nosso país".

Dá como exemplo grandes confrontos e tragédias políticas e sociais, incluindo as guerras civis, a queda da monarquia, o fenómeno emigratório, a guerra no Ultramar e outros.

"Há aqui homens das Furnas que morreram em combate nas guerras civis, depois a queda da monarquia", refere, destacando "quando o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia visitaram as Furnas em 1901, e depois quando acaba [a monarquia] e começa a república, em 1910".

Nessa altura "há crianças que são baptizadas com os nomes do rei D. Carlos e do príncipe D. Filipe, quando foram assassinados", pois, como indica, "as pessoas ficaram tristes e começaram a baptizar muitas crianças com esses nomes".

Como dá conta, "as famílias ao fim e ao cabo também vão acompanhando a nossa própria história; o 25 de Abril, os soldados que voltaram do Ultramar, está tudo aqui", assegura Luís Martins.

"Quem foi para o Ultramar, quem voltou, quem morreu, [...] as datas da emigração – quando vieram para o Canadá e Estados Unidos […], enfim, tem aqui muita história [e] uma caixinha destas é uma pequena jóia para as famílias que têm origem nesta terra".

O autor refere que esta situação não é única e na verdade espelha a realidade de muitas outras freguesias portuguesas, sendo também comum as famílias perderem "o fio à meada" com o passar das gerações, não só em termos de parentescos familiares para além dos avós ou bisavós, mas também de tios e outros parentes, nados mortos ou que faleceram durante a infância e que nunca mais voltam a ser mencionados às novas gerações.

Foi o caso da pessoa responsável pelo comité que organizou este evento, Luís Borges, que pensava que o pai era o terceiro filho da família quando na verdade era o quinto, ou do próprio autor da obra que desconhecia que um antepassado longínquo recebeu uma comenda do rei de Portugal aquando da batalha de Alcácer Quibir – facto há muito perdido no tempo.

Luís Borges tomou conhecimento deste projecto há cerca de seis anos, quando visitou as Furnas, e desde logo se interessou, vindo a tornar-se num dos patrocinadores desta edição pois diz compreender a dedicação de Luís Martins, tanto pelas mais de três décadas que investiu neste trabalho como pela magnitude da obra.

"Vejo os livros não só como um ponto de referência para nós sobre os nossos antepassados, mas também para as futuras gerações", afirmou Luís Borges, ressaltando que tenciona oferecer uma colecção destas a cada um dos três filhos pois "futuramente faz parte da nossa história".

Além dele, integraram a comissão responsável pela organização do lançamento da obra no Canadá o padre João Mendonça, pároco da igreja de São Sebastião de Toronto e mestre-de-cerimónias nessa tarde, assim como Rui Maciel, Luís Silva, Mário Furtado, Norberto Paiva, António José Furtado e o vereador da Câmara Municipal de Povoação, Rui Fravica.

O evento incluiu um almoço bufete seguido da apresentação da obra, momento que abriu com a interpretação dos hinos do Canadá, de Portugal e do Vale das Furnas pela família Furtando, da Banda do Senhor Santo Cristo, seguida de uma palestra e discursos de vários intervenientes, incluindo Rui Fravica que se deslocou ao Canadá para participar nesta ocasião especial.

Apontando os registos escritos como "uma forma importante de demarcarmos o nosso passado", o vereador elogiou "o trabalho meticuloso e exaustivo" do autor, e ressalvou o seu "empenho e dedicação" em levar o projecto à sua conclusão.

No final dos discursos, os músicos Paulo Paiva e o filho tocaram alguns temas típicos das Furnas e por fim Luís Martins dirigiu-se à mesa onde passou a autografar os livros que os interessados iam adquirindo, enquanto conversava e esclarecia as questões que lhe colocavam.

Tal como a maioria das pessoas que se encontravam presentes, José Ferreira deslocou-se a este evento preparado para levar uma destas colecções para casa pois, como indicou à nossa reportagem, é "muito importante saber da minha família e amigos da minha terra", e considera que após 43 anos de ausência estes livros talvez lhe avivem as saudades.

Também Luís Alberto da Costa Borges Quieto, que nos indicou ser descendente de uma linha de fidalgos e que já tinha feito a sua reserva para este encontro com antecedência, se mostrava entusiasmado com a perspectiva de descobrir mais algumas informações sobre a sua família.

"Tenho muito orgulho em comprar esse volume que está aqui e vou-me sentar em casa muitas horas a ver isto tudo, para ver se descubro quem mais são os primos que tenho por aqui", afirmou em declarações ao jornal Sol Português.

Segundo apurámos, amanhã, sábado (16), no Centro de Convenções Oásis, durante a festa da equipa de futebol Vale Formoso, que representa as Furnas, vai ser leiloada uma destas colecções, no valor de 230 dólares.

Entretanto, os interessados em adquirir estes livros poderão contactar directamente com Luís Borges através do telefone 647 242-7820 ou do e-mail lborges@dunwin.ca.

Há ainda a possibilidade de algumas destas colecções virem a estar acessíveis em bibliotecas locais, mas Luís Borges explica que por enquanto isso está ainda por decidir, realçando que "intenção existe, mas plano de acção ainda não".


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