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Casa do Alentejo:

São Martinho celebrado com castanhas e fado

Por João Vicente
Sol Português

Referida por muitos como a "Catedral do Fado de Toronto", a Casa do Alentejo de Toronto (CAT) optou por celebrar o São Martinho na noite de sexta-feira (8), embalada nas melodias da canção nacional interpretada por talentos locais.

O espaço acolhedor e envolvente do restaurante O Sobreiro, situado na sede da colectividade, mais uma vez proporcionou uma noite agradável, com a proximidade dos cantores com o público, o ambiente airoso e a decoração tipicamente alentejana a darem um cunho único à experiência.

O cartaz de fadistas foi composto por Teresa Vieira Santos, Avelino Teixeira e Manuel da Silva e a acompanhá-los musicalmente tiveram à guitarra Hernâni Raposo, à viola Valdemar Mejdoubi e à viola-baixo Sérgio Santos.

Segundo o presidente da CAT, Carlos de Sousa, O Sobreiro foi o primeiro a acolher o fado nesta colectividade, logo que se mudaram para as actuais instalações. no limiar do novo milénio – por volta de 1999/2000, segundo recorda.

"Era sempre à sexta-feira e durante quatro ou cinco anos era sempre fado vadio, portanto quem queria cantar aparecia", diz-nos, adiantando que então só "os guitarristas eram pagos".

"Tivemos grande sucesso durante vários anos, mas depois as pessoas começaram a ter uma certa idade e começaram a desaparecer", até que chegou ao ponto de terem guitarristas mas ninguém que quisesse cantar, altura em que a iniciativa foi abandonada.

Na verdade, a tradição fadista da CAT começou ainda mais cedo e Carlos de Sousa recorda-se de que quando era presidente em 1996 e a colectividade ainda ocupava outras instalações, na rua Dufferin, já na altura faziam noites de fado uma vez por mês.

Actuavam então nomes como Rilhas, que "estava lá sempre", recorda, assim como Fátima Ferreira e Armando Jorge, que ganhou o concurso de fado, assim como os músicos António Amaro e Manuel Moscatel, bem como João Brito – figuras que representavam um "ecossistema" fadista na comunidade e que a CAT nutria e acarinhava, e cuja influência perdura até aos dias de hoje.

Actualmente, e para além das noites de gala no salão grande da CAT, pode ouvir-se o fado cerca de três a quatro vezes por ano no restaurante O Sobreiro.

Para Avelino Teixeira, um dos fadistas acolhidos na noite de sexta-feira na CAT e que nos confessou ter "uma afinidade muito grande" pela colectividade, o facto de cantar n'O Sobreiro caiu que nem "ouro sobre azul".

Versado sobre a história do fado, Avelino Teixeira afirma que foi quando passou das tabernas e prostíbulos para os salões – onde reinava o folclore e o fado só era cantado nos intervalos – passando posteriormente para as designadas casas de fado, que "o fado realmente se torna mais fado", e considera que é exactamente a esse ambiente, com a proximidade do público, que aquele espaço na CAT se assemelha.

"O fado é moderno e está no seu auge", por isso "deviam de se fazer mais" espectáculos, diz, lamentando que sejam principalmente a Casa do Alentejo de Toronto e o Centro Cultural Português de Mississauga a realizar este tipo de eventos e apelando a outros clubes e associações para que incluam a canção nacional nos seus programas de actividades.

Também Teresa Vieira Santos, outra das vozes que se escutaram nessa noite, considera o ambiente "na sala da lareira, no restaurante (…), mais acolhedor" e se para ela "é sempre agradável cantar ali", em noite de São Martinho é até "mais adequado" já que, referindo-se à decoração, "é uma coisa mais típica, com as cabeças dos animais na parede, a lareira e a fonte alentejana atrás", refere.

A fadista lisboeta, que tem já um longo historial na CAT e que após três décadas casada com um alentejano diz sentir-se já um pouco alentejana por osmose, salienta ainda que a colectividade foi sempre uma forte apoiante do fado e dos fadistas da comunidade.

Juntando a sua voz ao coro de artistas que unanimemente aprecia o salão azul d'O Sobreiro como um local propício para o fado, Manuel da Silva considerou-o um espaço "muito importante que a Casa do Alentejo tem".

"Eu canto em todos os sítios onde me convidam", diz-nos, mas referindo-se aos diferentes espaços na sede da CAT, destaca: "já cantei nesta sala grande, já cantei naquela, mas é na sala azul, como se costuma dizer, que gosto de cantar o fado".

A apresentação e som nessa noite ficaram a cargo do presidente da colectividade, Carlos de Sousa, que começou por apresentar os músicos e estes de imediato brindaram o público com uma guitarrada, ali mesmo junto à "fonte" – uma réplica de um chafariz tradicional que decora a sala e que serviu de pano de fundo para o espectáculo.

O pretexto para esta noite de fado foi a celebração do São Martinho, tradição observada desde há séculos com um magusto, pelo que após cada um dos artistas ter sido chamado a actuar foi feito um interregno no espectáculo para que fossem servidas as castanhas assadas – porque o vinho, esse já estava na mesa.

Após o delicioso intervalo passou-se à segunda parte do serão fadista, durante o qual cada um dos artistas interpretou mais alguns temas até que, em trio, cantaram o clássico "Cheira bem, cheira a Lisboa", à desgarrada e com o público a juntar-se-lhes em peso.

Este seria, em princípio, o tema que daria por terminada a noite, mas os espectadores solicitaram o bis pelo que Teresa veio ainda a interpretar "Nem às paredes confesso", Avelino escolheu "Não há fado sem saudade" e Manuel optou por levar os instrumentistas para junto do público e interpretou "Igreja de St.º Estêvão" sem amplificação sonora, num momento que fechou a noite com chave de ouro.

Depois de escutarem uma grande ovação, fadistas e músicos continuaram ainda a conviver alegremente com o público durante mais algum tempo, enquanto as pessoas iam dispersando a pouco e pouco.


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