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Santo Cristo dos Milagres em Brampton:

Milhares de portugueses participam numa das maiores realizações religiosas do país

Demonstração de fé foi assistida pelo Bispo de Toronto e pelo reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo de Ponta Delgada

Por João Vicente

Sol Português

"É importante levar a religião para a rua", afirmou domingo (10) o Bispo de Toronto, John Boissonneau, ao participar nas celebrações religiosas em honra do culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres que anualmente se realizam na paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Brampton.

Esta recriação da principal festa religiosa dos Açores inclui uma majestosa procissão que mais uma vez levou dezenas de milhar de pessoas até àquela cidade, para demonstrarem publicamente a sua fé, e o Bispo foi um de vários sacerdotes que acompanharam o cortejo.

"Quando toda a gente diz que a religião pertence apenas na sua casa, mesquita, templo ou igreja, nós dizemos `não', a nossa religião é pública e pertence nas ruas – temos o direito de afirmar que Jesus se importa com a nossa sociedade e agimos nesse sentido", referiu o Bispo, adiantando que o que move os participantes desta grandiosa procissão é a sua crença de que têm uma mensagem de esperança e essa mensagem está representada na procissão.

De Portugal para participar destas festividades veio pela primeira vez o cónego Adriano Borges, reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada, e foi ele quem presidiu às missas, assistido pelo seu anfitrião, Andrzej Chilmon, pároco da igreja de Nossa Senhora de Fátima, de Brampton.

As festividades do Senhor Santo Cristo dos Milagres decorrem nesta paróquia há já 11 anos e no fim-de-semana, além do convidado vindo dos Açores e do bispo John Boissonneau, contaram também com a participação do pároco já reformado Antoni Mendrela.

"Nós não somos parentes distantes de Jesus; nós somos seus irmãos e o irmão é aquele que quer bem, o irmão é aquele que está presente, o irmão é aquele que se aproxima, por isso hoje aproximemo-nos do senhor não para espectáculos, não para cumprir obrigações, mas porque o amamos, porque o Senhor Jesus deu a sua vida por nós porque nos ama", declarou a certa altura do seu sermão o cónego Adriano Borges, momentos antes do auge destas celebrações que foi a procissão de domingo.

Na realidade, as festividades tinham-se iniciado mais de uma semana antes, com nove dias de novena, enquanto na sexta-feira (8) se realizou também a tradicional Missa dos Doentes assim como a cerimónia da bênção da nova capa, oferecida pela Associação Feminina do Senhor Santo Cristo dos Milagres de Brampton, havendo ainda bazar e arraial.

Entretanto, no sábado (9) procedeu-se à mudança da imagem, uma mini-procissão que foi acompanhada também por grande número de fiéis, seguida de um concerto pela Banda Filarmónica Santa Cecília, vinda de Fall River, EUA, e, a terminar, mais uma noite de arraial no qual participaram as irmãs Lucy e Bella, o conjunto Tabu e a cantora Michelle Tavares, vinda da cidade de Quebeque.

Mas foi o domingo o principal dia de actividades e foi com a missa solene do meio-dia que se deu início às actividades religiosas.

Além do Bispo Boissonneau e dos párocos já referidos, estiveram presentes vários dignitários, designadamente o secretário regional adjunto da presidência para as relações externas, Rui Bettencourt, e o director regional das Comunidades, Paulo Teves, vindos dos Açores, bem como o representante da SATA/Air Azores em Toronto, Carlos Botelho, e o vereador Martin Medeiros, da Câmara de Brampton.

A eles se juntaria também mais tarde, para a procissão, a presidente da autarquia, Linda Jeffrey,

Tudo começou há 11 anos...

O padre Andrzej Chilmon chegou a esta paróquia em 2006 e nesse mesmo ano chegou também a estátua do Senhor Santo Cristo, vinda de Braga, dando assim início a esta festividade.

"No começo nós pensávamos só fazer uma capela para devoção, mas depois o povo. quando viu a imagem, disse que não, que tínhamos de ir mais longe e queriam ter a festa", conta-nos o sacerdote referindo que "muito aumentou o fervor da fé, graças a esta imagem".

Na altura pertencia também a esta paróquia o padre Manuel Quintal que refere em declarações ao jornal Sol Português que se nota de ano para ano uma maior aderência das pessoas e que estas cada vez vêm de mais longe.

"Acorrem aqui porque sentem as suas necessidades espirituais e aqui vêm ganhar forças para depois enfrentarem a vida de outra maneira, unidos ao Senhor Santo Cristo dos Milagres", explica.

O presidente da comissão de festas, Guido Pacheco, confirma a multiplicidade de origens dos fiéis que aqui acorrem, incluindo "muita gente de fora, dos Estados Unidos, de Bermuda" e de outras localidades, e apesar de estar envolvido neste evento desde o primeiro dia, diz continuar a maravilhar-se com a dimensão que este atinge e com o empenho dos voluntários "que tornam tudo isto possível".

De ano para ano há cada vez mais jovens interessados em levar o andor, diz-nos com orgulho, e lança um convite a outros jovens para que se envolvam nestas festas.

"Vai ser cansativo mas no fim do dia vão para casa alegres, com os corações cheios de alegria", promete.

Para as entidades oficiais de Brampton, esta realização é vista naturalmente como uma mais valia para a cidade, mas a presidente da autarquia disse-se particularmente honrada por poder caminhar lado-a-lado com o primeiro português eleito à Assembleia Municipal, Martin Medeiros, e na presença este ano de representantes do Governo Regional dos Açores, com quem tinha acabado de falar acerca da Universidade de Brampton – que está em vias de se tornar realidade – indicando que possibilitará novas oportunidades educativas para as populações de cá e de lá.

Desde que há três anos assumiu a presidência da autarquia que Linda Jeffrey participa nesta procissão, mas confessa continuar a admirar-se com a dimensão do cortejo e com o facto de, quer chova ou faça sol, a multidão estar sempre presente em grandes números.

"A primeira sensação que se tem é de uma grande emoção", afirma por seu turno Rui Bettencourt, destacando que "estamos a mais de 4.000 quilómetros dos Açores e estamos aqui a viver as raízes açorianas".

Além do grande número de participantes, o representante do Governo Regional considerou particularmente impressionante o facto de uma festa religiosa portuguesa atrair a presidente da Câmara da cidade, assim como "a saudável proporção de juventude que participa", sentimento que encontrou eco também nas palavras do vereador luso-canadiano,

Se a nível profissional é bom considerar o investimento gerado pelas festas e pelas pessoas que a elas acorrem na economia local, já a nível pessoal Martin Medeiros diz-se satisfeito sobretudo por ver o crescimento desta realização e o envolvimento dos jovens.

De facto, a grande proporção de jovens foi algo que saltou à vista de todos quantos participaram ou assistiram à majestosa procissão, o que levou Paulo Teves, cuja família reside em Brampton e que por isso tem uma relação afectiva com esta cidade, a expressar a sua convicção de que o futuro desta tradição está assegurado.

O cortejo foi acompanhado pelas Bandas Lira Portuguesa de Brampton, Senhor Santo Cristo de Toronto, Filarmónica de Montreal e Filarmónica Santa Cecília de Fall River e ao longo do percurso foi possível constatar a presença de várias pessoas que, pela indumentária, seriam claramente não-católicas mas que assistiam interessadas ao desfile.

Este facto também não escapou à atenção do Bispo Boissonneau que referiu ter visto algumas dessas pessoas que foram oferecer água aos fiéis, o que considera um bom sinal.

Como destaca, "a intenção não é converter ninguém, mas sim demonstrar a fé, mas se isso inspirar outras pessoas a serem mais fiéis na religião que praticam, isso é algo de positivo".

Depois do cortejo seguiu-se a pregação e alguns discursos, que incluíram extensos agradecimentos, quer da parte do padre Chilmon como de Guido Pacheco.

Ainda antes de arrancar o arraial houve oportunidade para escutar um concerto com as bandas convidadas e para visitar as barracas da feira, do bazar e das mal-assadas, concluindo os festejos de domingo com as actuações de Arlindo Andrade, vindo dos Estados Unidos, bem como dos cantores Mário Marinho e Lídia Sousa.


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