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Festa dos Compadres no parque Madeira:

Recriação de festejo tradicional do início do século XX levou "condenados" à fogueira

Por João Vicente
Sol Português

Apesar do tempo gélido que ainda em pleno Verão obrigou os visitantes a usarem casaco todo o dia, várias centenas de pessoas acorrerem sábado (9) ao parque Madeira para assistirem à popular Festa dos Compadres, organizada pela Casa da Madeira de Toronto, assim como à última tourada à corda da época, da ganadaria Sol e Toiros.

Ao início da tarde e enquanto o presidente da colectividade madeirense ia construindo, com a ajuda de alguns voluntários, o púlpito do juiz para o "julgamento" dos compadres que mais tarde se iria realizar, os bezerritos destinados aos mais jovens ainda chegaram a saltitar pela arena antes da tourada, mas ninguém por lá apareceu para brincar com eles.

Ali em redor, um bom número de pessoas, tanto debaixo do telheiro do bar como nas mesas de piquenique e em torno do braseiro, iam assando carne no espeto, actividade essa, de resto, que esteve sempre bem acompanhada ao longo do dia e até mesmo à noite.

As bifanas, as mal-assadas, o bazar, tudo contou com um movimento razoável de público interessado, especialmente tendo em conta que apesar do parque estar engalanado e preparado para receber um maior número de visitantes, o total nunca deve ter ultrapassado as quatro centenas.

Por sua vez, os ingressos vendidos para a tourada cifraram-se em cerca de metade desse número, o que não chegou para povoar as bancadas por forma a dar-lhes a aparência de meia praça cheia, mas ainda assim o ambiente compôs-se e a festa fez-se com emoção e gosto.

Perante os cinco touros dessa tarde, todos a saírem com vontade e diligentes, o brilharete foi do jovem Tyler Leal, de 19 anos, que se mostrou incansável durante todo o espectáculo e o único que realmente animou a festa de forma contínua – embora tivesse contado com algumas prestações que o tentaram ajudar na tarefa, nomeadamente de Patrício Linhares e de André Leal.

Os dois, porém, indicaram estar longe das suas capacidades físicas, com André Leal, filho do ganadeiro Élio Leal, a confessar-se "um nadinha ferrugento" pois já há um ano que não saltava para a arena, e Patrício Linhares anda a batalhar problemas de saúde graves e para quem este momento de actividade física serviu sobretudo para estimular a adrenalina e ajudar a esquecer por breves momentos o stress do dia-a-dia.

Assim, o desempenho do jovem Tyler tornou-se ainda mais notável, particularmente considerando que só começou a participar mais a sério em touradas à corda no ano passado e esta foi a primeira vez que se aventurou a lidar sozinho com os touros.

Quando terminou a festa brava foi altura de petiscar qualquer coisa enquanto o agrupamento Rosas Negras ia animando quem queria dançar até chegar a hora para o julgamento dos compadres, o ponto alto destas festividades.

Na Madeira, mais precisamente em Santana, a Festa dos Compadres decorre uma semana antes do Carnaval, mas no Canadá o tempo que se faz sentir nessa altura não convida a "julgamentos" ao ar livre, nem tão pouco é possível queimar montes de palha e bonecos dentro de portas, pelo que é no final do Verão que se realiza este evento cuja origem remonta aos anos '20 do século passado.

Nessa altura eram frequentes as rivalidades entre famílias locais e o carteiro era a figura central, pois era ele quem levava as mensagens, por vezes mais picantes, de porta a porta.

No decorrer do "julgamento" todo o tipo de assuntos é trazido à baila, desde falcatruas a traições conjugais, corrupção, tudo girando em torno da sátira social e política.

No final, compadres e comadres são acusados de infidelidade e outros pecados vários e condenados a serem queimados publicamente, num efusivo ritual para gozo dos espectadores.

Embora houvesse quem comentasse que a encenação deste ano demorou mais tempo do que é hábito, a verdade é que o julgamento foi bastante divertido, puxando várias vezes pelas gargalhadas, e as pessoas que assistiram não se parecem ter importado com isso.

O conselheiro permanente das comunidades madeirenses, José Rodrigues, desempenhou o papel do compadre e Lucy Sousa o de comadre, cabendo a José Leme o cargo de juiz.

Claro que a sentença, como sempre acontece, foi queimar tanto a comadre como o compadre – em efígie – para gáudio de todos, até dos "condenados" que aceitaram bastante bem a sua sentença.

Assim se dava por terminado um dia bem passado sendo que, como é hábito, houvesse quem ficasse para gozar também o dia seguinte neste parque.

Segundo apurámos, e apesar das touradas à corda terem terminado por este ano no parque Madeira, a ganadaria Sol e Toiros vai participar amanhã, sábado (16), na "Festa dos 3 Amigos", evento que irá decorrer na Erin Agricultural Society e que conta com a participação também das ganadarias Sousa-Dutra e Vaz-Lourenço, cada uma das quais irá contribuir com dois touros.

Louisa Leal, esposa do ganadeiro Élio Leal, considera que apesar de tudo foi uma boa época tauromáquica e indicou que no próximo ano a Sol e Toiros espera ter já também a sua coudelaria a funcionar em pleno, com cavalos lusitanos puros para venda e aulas de dréssage.

Entretanto, e no que diz respeito ao parque Madeira, este espaço vai encerrar oficialmente as actividades deste ano no próximo dia 23 de Setembro com a realização do Festival da Juventude e da Festa da Vindima.


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