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Semana de Portugal 2017:

Parada do Dia de Portugal transforma Dundas em montra viva de lusitanidade

Por João Vicente e Noémia Gomes
Sol Português

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Neptuno e Marte obedeceram:

Cesse tudo o que a Musa antígua canta,

Que outro valor mais alto se alevanta

– Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto I

Um dos pontos altos das comemorações anuais do Dia e Semana de Portugal é o cortejo etnográfico – vulgo, parada – que percorre a rua Dundas desde a Lansdowne até ao parque Trinity-Bellwoods, geralmente no fim-de-semana mais chegado ao dia 10 de Junho.

Este ano não foi excepção mas por casualidade do destino o 10 de Junho recaiu precisamente a um sábado, pelo que com a cidade de Toronto a ver-se prendada com um lindo dia de sol e entre as altas temperaturas e o calor humano que se fazia sentir, este foi realmente um excelente Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

No dia em que se celebrava não só a história de Portugal mas também o maior poeta da língua portuguesa, as comunidades lusas espalhadas pelo mundo e os usos e costumes, assim como a cultura portuguesa, foi bonito mais uma vez ver os vários milhares de figurantes que participaram no cortejo a fazerem o seu melhor para dar vida a todos esses aspectos do que significa ser português.

Originalmente derivado da data da morte de Luís Vaz de Camões (10 de Junho de 1580), pois não se pode precisar a data do seu nascimento, o "10 de Junho", como é vulgarmente referido o Dia de Portugal, chegou a ser apropriado pela ditadura portuguesa para fins propagandísticos e suspendido durante a revolução dos cravos, exactamente por ter adquirido contornos nacionalistas dictatoriais ao longo dos anos.

Contudo, depressa voltou a ser reposto, celebrando-se até hoje e ainda com mais gosto nas comunidades lusas mais distantes da terra natal.

Poeta nacional de Portugal, considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental, Luís Vaz de Camões é mais conhecido pela epopeia "Os Lusíadas", que relata de forma épica a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, com os portugueses no papel de heróis protagonistas.

No entanto, a sua obra inclui também peças teatrais e poemas mais virados para o amor, ou pelo menos a procura dele, como neste conhecido soneto:

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente

É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Actualmente as comemorações vão além da celebração do poeta e da sua obra.

Um país com quase 900 anos de idade e uma língua falada há quase mil anos – como gosta de destacar o cônsul-geral de Portugal em Toronto, Luís Barros – é algo digno de nota; digno de ser recordado e comemorado em todas as suas facetas e em todas as suas expressões, desde o futebol ao folclore, da literatura à arte, de norte a sul e das regiões autónomas aos países de expressão portuguesa, onde os laços linguísticos se mantêm fortes, tal como os laços de amizade entre os povos.

É isso que todos os anos se procura fazer em Toronto, com garra e com gosto, de há 30 anos para cá sob a liderança da Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas do Ontário (ACAPO), embora a primeira vez que se celebrou o Dia de Portugal em Toronto tivesse sido no ainda mais longínquo ano de 1966.

Hoje em dia, na sociedade multicultural em que se insere, esta celebração bem portuguesa assume também contornos de uma comemoração da diversidade da cidade de Toronto e da apreciação que existe entre as várias culturas.

Isto é, aquilo que distingue as culturas e etnias entre si, aquilo que define e individualiza cada uma delas é motivo de celebração pois adiciona ao todo da diversidade de Toronto, do Ontário e do Canadá, numa coexistência onde as características de cada uma enriquecem o todo sem se perderem na mistura.

No fundo, esta multiculturalidade é ela própria uma celebração do espírito aventureiro dos portugueses, que sempre buscaram outras terras, outras culturas e costumes com um sentido de curiosidade e de descoberta, incorporando elementos do que nelas encontravam, tais como os ritmos, os sons e as especiarias, ao mesmo tempo que transmitiam também conhecimentos, costumes e gastronomia a essas gentes com quem iam contactando.

Prova disso é, por exemplo, a carne de porco de vinha d'alho, que foi criada para se aguentar nos porões dos navios durante as longas viagens e que veio a ser adoptada na Índia como "porco vindaloo" – ou "vindalho", mais especificamente em Goa.

Pois esse espírito aventureiro e descobridor que "deu novos mundos ao mundo", como referiu o nosso poeta Camões, foi o que permitiu desenvolver as técnicas de navegação, as rotas, a cartografia e tudo o que tornou possível mais tarde aos exploradores franceses e ingleses chegarem a estas praias e rios por onde já tinham passado João Vaz Corte Real e seus filhos, Miguel e Gaspar, assim como João Fernandes Lavrador, que emprestou o seu nome à província da Terra Nova.

Ou seja, foram os portugueses que semearam a globalização que hoje se vive – ou pelo menos foram um forte factor contribuinte – onde o multiculturalismo se torna possível e a comunidade lusa pode não só viver e prosperar aqui, no Canadá, como também manter a sua cultura praticamente inalterada, abraçando tanto o seu carácter canadiano como as raízes portuguesas e cantando com o mesmo gosto e emoção o hino canadiano e o de Portugal.


É neste ambiente orgânico e simbiótico, onde as culturas convivem lado a lado, interagindo entre si e com a cultura prevalecente, dita canadiana, que surgem os múltiplos clubes e associações portuguesas assim como o organismo de cúpula, ACAPO, que as coordena e direcciona para atingir objectivos comuns.

Assim nasce esta nova encarnação das comemorações do Dia de Portugal onde se insere a parada como auge das celebrações que hoje em dia englobam já um vasto leque de eventos espalhados ao longo de dois meses.

É certo que alguns cabeças de cartaz dos concertos realizados no parque têm chamado a si grandes multidões, e merecidamente, como foi o caso este ano dos Xutos e Pontapés e Resistência, mas a parada é o verdadeiro auge das comemorações por envolver milhares de voluntários e apelar a milhares de pessoas que se espalham ao longo dos dois quilómetros de percurso, além de mostrar a nossa herança com dignidade e orgulho a toda a cidade.

Já há vários anos que o dia 10 não calhava num fim-de-semana, o que tornou a parada deste ano ainda mais especial ao desfilar durante cerca de três horas na rua Dundas, no próprio Dia de Portugal.

Dirigentes e sócios do sindicato LIUNA encabeçaram o desfile em grande número e ao lado do luso-canadiano Jack Oliveira, administrador da filial Local 183 – o maior sindicato da construção civil da América do Norte – seguiam ainda outros elementos do seu Executivo, incluindo o vice-presidente Bernardino Ferreira, Nelson Melo, presidente, Marcello Di Giovanni, secretário, Patrick Sheridan, director, o tesoureiro Luís Câmara e o director Jaime Cortez.

Seguiam também dirigentes e sócios da local 506, Carmen Principato e Tony do Vale, do Canadian Council of Construction Unions (CCCU) e da Canadian Construction Workers Union (CCWU), Joel Filipe e João Dias, que se incorporaram na parada, engrossando o núcleo de sindicalistas.

A Banda do Sagrado Coração de Jesus, pertencente à paróquia de Santa Helena, abriu o desfile juntamente com os elementos LIUNA, seguida da banda de gaitas de foles e tambores da Legião de Cobourg, que deu um travo canadiano à festividade.

Por seu turno, a Banda do Senhor Santo Cristo, da paróquia de Santa Maria, viria a encerrar o desfile, além de tomar ainda parte na cerimónia que se lhe seguiu junto ao monumento dedicado aos voluntários, no parque Trinity Bellwoods.

Entre as duas extremidades do cortejo, toda uma série de organizações, empresas, clubes, agências sociais, órgãos de comunicação social, escolas e outras constituíam o coração da parada, representando a variedade de actividades abraçadas pelos portugueses.

Incorporados no grupo de dignitários que acompanhavam o presidente da ACAPO, José Eustáquio, e a presidente do Conselho de Presidentes, Katia Caramujo, seguiam a secretária de Estado adjunta do Primeiro-ministro de Portugal, Mariana Vieira da Silva, a primeira-ministra do Ontário, Kathleen Wynne, os ministros da Imigração e Refugiados, Ahmed Hussen, das Finanças do Ontário, Charles Sousa e da Cidadania e Imigração, Laura Albanese, além do presidente da Câmara de Toronto, John Tory.

Esta secção de dignitários incorporava ainda os deputados federais Peter Fonseca e Julie Dzerowicz, os seus homólogos provinciais Cristina Martins e Han Dong, além dos vereadores César Palacio e Ana Bailão, do cônsul Luís Barros e de representantes da transportadora aérea TAP na América do Norte, entre outros.

Além desta secção VIP participaram ainda grupos em representação dos três principais partidos canadianos: Liberal, Conservador e NDP, tendo a presidente do NDP federal, e delegada da Direcção Escolar de Toronto pela área de Davenport, Marit Stiles, integrado a ala oficial do seu partido em representação dos líderes federal e provincial do partido.

Entre a variedade de apresentações que compõem este cortejo os expoentes máximos são realmente os coloridos ranchos folclóricos, cujos elementos, trajados a rigor, vão dançando do princípio ao fim do cortejo – com destaque especial para os elementos mais pequenitos – e os "quadros vivos" apresentados em carros alegóricos ou em primeira pessoa, como foi o caso dos Poveiros que levaram as varinas mesmo até junto do público.

Joaquim e Maria Malaquias são exemplo das muitas pessoas que se deslocam de vários pontos da cidade, e até de fora, para assistirem a este gigantesco cortejo etnográfico.

Em declarações ao jornal Sol Português garantiram que vêm ver a parada desde que esta começou e de há oito anos para cá que apreciam o desfile juntamente com os netos. Maria afirma que não tem favoritos: gosta da parada toda, do princípio ao fim, e nisso deve ter muita companhia pela Dundas fora pois nota-se que quem assiste não quer perder pitada.

Os carros alegóricos – alguns realmente bem conseguidos – capturavam na perfeição as tradições e modo de vida dos pequenos povoamentos portugueses, criando um retrato vivido e colorido.

Foi o caso, por exemplo, do acampamento recriado pelo grupo de escuteiros N.º 78, da igreja de São Sebastião; do barco da Nazaré com duas crianças; da cozinha da Associação Cultural do Minho onde se iam fazendo enchidos; do churrasco e convívio ambulante do Rancho Estrelas do Norte; do churrasco e eira do Rancho Províncias e Ilhas de Portugal; da casa típica, com galinheiro e tudo, apresentada pela Casa das Beiras; da praia dos Poveiros; e assim por diante.

Os Castelos da Associação Migrante de Barcelos e do Centro Cultural Português de Mississauga, assim como o templo de Diana da Casa do Alentejo também deram com certeza muito trabalho aos voluntários e encheram o olho à assistência, isto para não falar de outras participações mais modestas, como a da Angolan Community of Ontario (ACO), por exemplo, mas que enriqueceram o desfile só com a sua presença.

As escolas de português também se fizeram representar, assim como as associações de estudantes universitárias, a Direcção Escolar de Toronto e a Luso-Can Tuna.

O futebol, paixão de muitos – para alguns quase "religião" – esteve representado por grande número de clubes, escolas e academias, tais como as do Sporting, do Belenenses, do Gil Vicente e do Benfica, entre outros.

No caso do Benfica, o clube não deixou ninguém esquecer quem foi novamente o campeão este ano e foi atraindo pessoas para tirarem fotos junto do seu carro alegórico enquanto nestes grupos, dominados primariamente, senão exclusivamente, por rapazes, o Benfica sobressaiu também pelas suas jogadoras a darem show de bola pela Dundas fora.

O burrico e os lindos cavalos da Coudelaria Estrela Lusitana fecharam o cortejo, impressionando por onde quer que passavam,

A parada terminava à medida em que os participantes iam desembocando no parque Trinity bellwoods, com alguns a manterem-se por ali em vez de dispersarem para assistirem ou tomarem parte na cerimónia que se seguiu.

Considerando os princípios modestos destas festividades e o enorme caminho percorrido ao longo dos anos, há que reconhecer que todo este progresso tem sido feito a pulso, com muito trabalho e sacrifício da parte de milhares de voluntários, alguns dos quais já nos deixaram.

Por isso mesmo, a homenagem que lhes é devida e prestada anualmente ao cimo do parque Trinity Bellwoods, no encerramento do desfile, é mais que merecida.

De salientar que não existem em Toronto outras paradas étnicas que movam tanta gente, com a possível excepção do "Khalsa Day", celebrado pela comunidade Sikh, originária do Punjab, e que tem um carácter completamente diferente da celebração portuguesa.


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