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Espectáculos da Semana de Portugal:

Xutos "abanaram" Parque Earlscourt mas foram os Resistência que "deitaram a casa abaixo"

Por João Vicente, António Perinú e Fátima Martins
Sol Português

A Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas do Ontário (ACAPO) apostou num reforçado leque de artistas locais e de Portugal para preencher o cartaz dos concertos das comemorações deste ano da Semana de Portugal e a aposta resultou.

Também não era para menos, com nomes sonantes como Xutos e Pontapés, Resistência e Tiago Maroto a definirem o auge de cada uma das três noites do festival musical, que decorreu de sexta-feira a domingo no Parque Earlscourt, sempre com temperaturas amenas, sem um pingo de chuva.

Na sexta feira (9) a apresentação do espectáculo esteve a cargo de Jorge Neves, da CIRV Radio, e coube a Peter Serrado a ingrata tarefa de inaugurar o espectáculo, pelas 19h00, quando muita gente ainda nem tinha saído de casa.

Este jovem talento luso-canadiano, que se revelou durante o Concurso de Cantores de John Santos ao ganhar a competição na categoria de adultos, já lá vão quatro anos, tem vindo a expandir a sua carreira musical com múltiplas actuações e novos temas da sua autoria.

Apesar da falta de público, a postura do jovem foi a mesma como se estivesse a actuar para um estádio cheio e a sorte foi de quem lá esteve e pôde apreciar a variedade de temas e estilos que ofereceu com a sua voz característica, incluindo alguns originais que estreou naquela noite a par de "It Won't Be Long" – tema também seu que já vem sendo muito bem aceite.

Com Greg Anzelc na percussão, Dave Carreiro no baixo, Eric St-Laurent na guitarra e Jerry Caringi no teclado, Peter Serrado estava ainda para prendar o público com a canção com que Salvador Sobral ganhou o festival da Eurovisão quando lhe fizeram sinal para sair do palco.

Mas em vez de ser o cantor Nelson "Nelz" Medeiros, como estava agendado, foi a jovem Krissi Hunter quem ofereceu um breve interlúdio musical.

Pouco depois Nelz subia então ao palco, para um espectáculo bastante dinâmico, passando o seu repertório por vários temas de rock, do ligeiro ao pesado, alguns deles originais, além de canção mais melódicas e suaves, como "Toca guitarra do meu país", também da sua autoria – tema dedicado à guitarra portuguesa que encaixou muito bem na temática desta festa e no qual foi acompanhado por Hernâni Raposo.

Por fim chegou o momento tão antecipado pela maioria da assistência, agora já a contar-se nos milhares ao anteciparem a chegada dos míticos Xutos e Pontapés.

Logo que entraram em palco, de imediato prendaram o público com a alta energia que lhes é conhecida, apesar de Zé Pedro não ter podido acompanhar o resto da banda desta vez.

"Carta certa", "Gritos Mudos", "Pêndulo", as músicas clássicas foram-se sucedendo, a multidão crescendo ainda mais e também o entusiasmo.

Do álbum "Gritos Mudos", lançado em 1990, passaram ao tema "Mundo ao Contrário", faixa que dá o nome ao álbum surgido em 2004.

Seguiu-se uma estreia e antes de tocarem o novo tema Tim avisa: "esta ainda não está no YouTube, por isso se quiserem aproveitar...".

Fazendo lembrar a sonoridade dos Pink Foyd, o tema, calmo e sonhador, foi bem recebido, seguido pouco depois por outra canção nova, sobre a vida em Aleppo, na Síria.

Pelo meio de tudo isto, o confesso fã número um dos Xutos, Michael Fonseca, de apenas cinco anos, ia cantando as músicas conhecidas, sentado na cerca à frente do palco e a gritar "Xutos, I love you" entre as canções, enquanto cruzava os braços no sinal do "X" popularizado entre os fãs desta banda.

De facto, o público de todas as idades a vibrar com a mesma intensidade e o contínuo apego das novas gerações aos Xutos é um fenómeno extraordinário que tem marcado a carreira da banda e permitido esta longevidade.

"Homem do Leme", "Quero-te Tanto", os êxitos foram-se sucedendo e pelo meio algumas músicas novas também, com o público a aquecer cada vez mais.

Passada uma hora de actuação "Ai a minha vida" realmente uniu a banda e o público em uníssono, brincando Tim pouco depois que "isto é a nossa primeira vez aqui em Toronto, estamos um pouco nervosos".

Pois sim! A resposta da multidão foi de começar a entoar ritamadamente "e salta Toronto, e salta Toronto, Olé! Olé!", juntando-se-lhes Tim e a banda pouco depois a saltar e a cantar o mesmo em palco antes de descarregarem "Contentores".

Seguiu-se uma longa pausa que deixou a multidão a pedir "só mais uma!" passando desse apelo a cantar "ai as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha..." até que a banda voltou a empunhar os instrumentos, ainda que pedidos de "A minha casinha" levassem Tim a advertir: "não pode ser, senão a seguir metemo-nos no avião e vamos para casa".

Pouco depois registou-se um momento especial quando o músico luso-canadiano Frank Rebelo, amigo da banda de longa data, foi convidado a juntar-se-lhes em palco para os acompanhar em duas músicas: "Chuva dissolvente" e "Para ti Maria".

"O Frank tem sido uma companhia, um amigo", dizia-nos Tim, em declarações ao jornal Sol Português antes do concerto.

"Sempre que vimos a Toronto ele está à nossa espera e acompanha-nos. Tem sido de uma dedicação extrema, portanto é bom tocar juntos como já fizemos das outras vezes".

Por fim, não resistindo aos pedidos do público, foi mesmo ao som de "A Minha Casinha" que encerraram o espectáculo com chave de ouro, deliciando os seus fãs.

"Como eu tinha dito, a Semana de Portugal em Toronto é... os Xutos", afirmou José Eustáquio ao despedir-se enquanto a multidão, ainda acelerada do concerto, continuava a saltar e a cantar: "e salta Xutos e salta Xutos, Olé! Olé!".

Mas se o concerto de sexta foi bom, a noite de sábado guardava ainda melhor...

Multidão não resistiu à classe ímpar dos Resistência

A programação de sábado (10) começou mais cedo, com a realização do 24.º Festival "Raízes do Nosso Povo", que teve apresentação de Laurentino Esteves e José Mafra, dois especialistas em folclore residentes entre nós.

Assim, em palco reservado inteiramente para este certame, actuaram os ranchos folclóricos Pérolas do Atlântico, da Casa dos Açores: Nazaré, de Mississauga; Grupo Folclórico Português de Oakville; Os Antigos, do Portuguese C.C. Vaughan; Províncias e Ilhas de Portugal, de Hamilton; Rancho Folclórico da Casa da Madeira Cultural Centre; Rancho Folclórico do Northern of Portugal; Os Camponeses, de Toronto; Rancho Folclórico do Arsenal do Minho; e Rancho Folclórico da Associação do Minho.

No final do espectáculo, o presidente da ACAPO, José Eustáquio, foi ao palco agradecer a presença dos grupos participantes, assim como do público, aproveitando para sublinhar a importância desta faceta das tradições lusas e ex-libris da cultura portuguesa.

Do palco reservado ao folclore passou-se então ao palco principal onde o espectáculo abriu com a presença de Paulo Pereira, dando depois de seguida começo a um segmento especial em tributo a Armando Costa "Rilhas".


"Rilhas", que em vida teve dois amores – futebol e fado – foi uma figura carismática que marcou quem o conheceu e com ele conviveu.

A ACAPO decidiu instituir uma bolsa de estudo em seu nome, que premiará anualmente dois jovens que se distingam no desporto e na música, e para essa noite programou a estreia de um projecto especial em sua memória.

Assim e para esta homenagem participaram 10 artistas que subiram ao palco onde interpretaram uma canção cada um do álbum de estreia de Armando Costa, lançado em 1988 e intitulado "Sou quem sou".

Por ordem de entrada, registaram-se actuações de Paulo Filipe, Ilídio Vilela, Elizabeth, Tony Gouveia, Soraia Mejdoubi, Sandra Silva, Nelz, Jennifer Bettencourt, Henrik Cipriano e Guida Figueira, acompanhados pelos músicos Hernâni Raposo, Valdemar Mejdoubi, Sérgio Santos, Fernando Tavares, Cosimo Crupi, Caco e Washington Silva.

Como destacou José Eustáquio no final desta actuação, os artistas gravaram a sua versão dos temas numa réplica do álbum original de "Rilhas", estando agora o CD à venda com o objectivo de angariar verbas para as bolsas de estudo que a ACAPO entrega no jantar de Gala de cada ano em memória de Armando Costa.

Uma série de breves intervenções levaram ao palco o presidente da Câmara Municipal de Toronto, John Tory, os vereadores César Palacio e Ana Bailão, e a deputada Cristina Martins, que usaram da palavra para saudarem as milhares de pessoas presentes destacando o significado daquele dia e da presença do público naquele local.

José Eustáquio fez questão de agradecer a cada um dos políticos pela ajuda, contributo e participação neste evento, sublinhando que até às 18h05 de sexta-feira ainda não tinham a licença para o espectáculo de sábado, valendo-lhes a ajuda sublime de César Palacio para que se pudesse realizar.

O dirigente da ACAPO viria ainda a revelar a sua intenção de se retirar do cargo que ocupa há duas décadas, afirmando que este foi o seu último ano como presidente e que "hoje estou aqui em palco para vos agradecer, mas para o ano serei mais um no meio de vós".

Chegava-se assim ao momento por que todos esperavam e logo depois subiam ao palco os elementos do categorizado super grupo Resistência, composto por nomes sonantes da música portuguesa, muitos dos quais integram as suas próprias bandas mas que se unem neste projecto.

Alexandre Frazão, Fernando Cunha, Fernando Júdice, José Salgueiro, Mário Delgado, Miguel Ângelo, Olavo Bilac, Pedro Jóia e Tim deleitaram o público com as suas melodias numa inspirada fusão de rock com acordes distintos da música tradicional portuguesa.

Durante quase duas horas, e desde a primeira à última canção, este grupo de fabulosos intérpretes conquistaram tudo e todos, com o público a cantar e delirar com eles ao som dos temas que popularizaram os Resistência como uma das grandes revelações da música portuguesa.

Humor e sons populares em tarde de domingo

No domingo (11), último dia de espectáculos, a tarde foi dominada pelo folclore, primeiro com a realização do Festival de Folclore Infantil, logo a partir das 14h00.

O certame contou com as exibições dos dançarinos de palmo e meio dos ranchos infantil do Ribatejano de Toronto; do Transmontano; da Escola do First Portuguese; As Estrelas, do P.C.C. de Vaughan; da Associação Cultural do Minho; do Arsenal do Minho de Toronto; e da Associação Migrante de Barcelos.

Logo depois, a 24.ª edição do Festival de Folclore Raízes do Nosso Povo concluía no mesmo formato da véspera, desta feita levando a palco os grupos As Tricanas; Académico de Viseu, da Casa das Beiras; Transmontano; Ribatejano de Toronto; e Associação Migrante de Barcelos.

Ao fim da tarde, e já no palco principal do Parque Earlscourt, a apresentação esteve entregue ao radialista Ziko Pereira que por volta das 17h30, com o sol ainda alto e o calor a abrasar, chamou ao palco o primeiro artista.

Henrik Cipriano deu início ao espectáculo numa altura em que as condições climáticas eram ainda abafantes e o público ficou-se pelas sombras, distante do palco, reagindo pouco, a não ser mais para o fim.

Apesar das condições adversas, o cantor, com a ajuda da banda Mexe-Mexe, foi a fonte de energia e alegria que esta comunidade já conhece, cruzando o seu repertório de lés-a-lés, tal como as regiões do país.

Com música animada, de estilo popular e raízes regionais, intercalada com muito humor, a pouco e pouco Henrick Cipriano foi puxando pela assistência que para o fim já cantarolava com ele, embora a vasta maioria continuasse a não abandonar a sombra.

No intervalo entre artistas, a transportadora aérea TAP procedeu ao sorteio de uma viagem que teve por feliz vencedor Paulo Pereira.

D-Snow apresentou-se de seguida em palco, com um repertório virado para ritmos modernos e de estilo dança pop/hip-hop que, apesar de se destinar à camada mais jovem do público, surpreendentemente pareceu agradar também a pessoas de meia-idade ou para lá dela.

A certa altura D-Snow convidou o cantor Temi a juntar-se-lhe em palco, onde apresentaram uma nova canção na qual indicou terem estado a trabalhar juntos.

O artista brasileiro-canadiano apresentou as músicas "Limbo" e "Tá Turbinada" à assistência, temas nos quais colaborou com Ana Malhoa, aproveitando para referir que passou algumas semanas em Portugal – onde diz sentir-se em casa – a promover estes temas na comunicação social e a realizar espectáculos, agradecendo aos portugueses pelo carinho e apoio.

Para terminar, após o público ter pedido bis, cantou ainda um tema em português.

Kátia Caramujo e José Eustáquio subiram então ao palco, tendo ela salientado os 30 anos da ACAPO e destas comemorações, assim como os 20 da presidência de José Eustáquio.

Este, por seu turno, referiu mais uma vez a dificuldade que se registou em obter as autorizações necessárias para levar avante este espectáculo no parque, salientando as ajudas do vereador César Palacio e de Graham Parson, do departamento de parques e recreio da autarquia de Toronto, para que tudo se concluísse da forma desejada.

O presidente da ACAPO agradeceu ainda à LIUNA e destacou o apoio deste sindicato à comunidade portuguesa e a contribuição para a realização de projectos comunitários como este, apelando à participação do público no festival comemorativo dos 150 anos do Canadá, a realizar naquele mesmo local em Julho e que se enquadra também nas comemorações da Semana de Portugal.

Pouco depois era a vez de Tiago Maroto subir ao palco e o minhoto não decepcionou. Desde os temas e ritmos do Minho acompanhados à concertina, até às músicas populares de todo o Portugal continental e Ilhas, de uma música sobre Nossa Senhora de Fátima a vários temas brejeiros, houve lugar para um pouco de tudo e para todos os gostos naquele palco.

Com uma bela voz, que controla a preceito, e energia infindável, Tiago impeliu todos os que o rodeavam a um ritmo alucinante do princípio ao fim, e o facto das temperaturas entretanto terem ficado mais amenas ajudou a que o público alinhasse na farra.

Mas aquilo que talvez tenha agradado mais mesmo, além das músicas que levaram todos a cantar e dançar, terão sido as cantigas à desgarrada – primeiro com o pequeno Simãozinho, com apenas 10 anos, e depois com um dos seus colegas da banda, o concertinista André Sampaio.

Concluindo assim com mais um sucesso estes três dias de espectáculos, a ACAPO tem ainda várias actividades no seu longo calendário das comemorações da cultura portuguesa.

Os artistas locais Peter Serrado e Paulo Pereira estão agendados para voltarem a actuar no festival da juventude comemorativo dos 150 anos do Canadá, ainda incluído nas comemorações da Semana de Portugal, e que irá decorrer de 30 de Junho a 2 de Julho.

Serão então cabeças de cartaz nomes sonantes de artistas luso-canadianos, como Shawn Desman, Danny Fernandes e Keshia Chanté.


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