PENA & LÁPIS


A caminho do 25 de Junho

Dia de Moçambique

Por Inácio Natividade

Sol Português

Quando era mais novo já tinha noção que o colonialismo nos tinha tirado tudo, pois bastava uma ida à cidade com a família para vermos a diferença. Os mundos eram diferentes, e tudo resumido na retórica eufemística civilizacional assente em mentiras que consideravam os negros sem identidade nem cultura para serem tratados como iguais.

O colonialismo efectivamente não era invencível, mas o rosto era aterrorizador. Restava obedecer à voz da mente, esperar que a revolta formasse a inevitável onda de justiça e sarasse a ferida profunda no coração de cada moçambicano.

Encolher os ombros, cantarolar a tristeza ou usar uma máscara, nunca foi opção. O abismo atrai o abismo.

Ali pelo Chamanculo, enquanto crescia adorava ver a beleza e a agilidade das raparigas a brincar ao neca, a saltar à corda, matacuzana ou zhoto. Entretinha-me a empurrar o chingerenguere ou o que sobrava do pneu de carro, para ir cantando e rindo uma meninice encurralada. O direito das crianças e adolescentes era inexistente.

Nasci numa família onde o amor transbordava de beijos que recebia dos meus pais, irmãos, irmãs e parentes chegados. Nos meus aniversários não faltava o bolo, mesmo que fosse à luz de candeeiros.

Contudo, o mesmo não acontecia à minha volta. Alguns miúdos na hora de jogar à bola não podiam, porque eram obrigados às lides da casa, outros ficavam à porta a vender mabajiais ou matori tori, e outros ainda levavam coças monumentais por desobediência e razões desconhecidas.

Certo dia, fomos ver uma equipa portuguesa em grupo; teria eu sete ou oito anos. Como não tínhamos bilhetes, fomos ver o jogo à distância, do alto das barreiras do campo do Desportivo. A polícia a cavalo apanhou-nos e deu-nos cacetadas. O grupo dispersou e apenas nos encontrámos no dia seguinte.

O viés de violência contra crianças e adolescentes assumia proporções de sadismo, tal como na letra da canção "colonialismo é a violência em estado natural".

O facto é que o racismo evidente não conseguia fazer a destrinça de uma criança de adolescente negros, nem um idoso de um homem de meia-idade. Para o sistema, eram todos rapazes.

As idas a Manhiça durante as férias escolares permitiam-me escutar o pulsar do campo, o cantar das rolas e o pio nocturno das corujas a assombrar o sono de justos e pecadores. Lá do alto da colina, da casa construída em tempo pelo meu falecido avô, a vista podia beber os horizontes e ver mulheres de olhos postos na terra, na época da colheita sazonal.

As manhãs da época eram sempre solarengas, permitindo escutar o riacho a correr, sentir a carícia molhada do capim nas pernas, no trilho do milho; por vezes galinhas do mato vagabundeavam em desacerto corrido ao pressentirem a aproximação humana.

Vezes sem conta colhíamos maphilu, mapxinxia, como seios abertos, florescendo no céu da boca, e por vezes colhiam-se as mangas e tinssivas que nos obrigavam à paragem obrigatória nas árvores.

Eu era o mais novo da família, portanto nunca me afastava do meus manos. Contudo, num amanhecer, decidi-me a aventura insidiosa. A uns passos de onde estava com os meus irmãos, junto ao riacho, vi uma mulher nua e quando esta se deu conta, em vez de esconder o sexo ou agachar-se na água, levantou-se e mostrou-me o mundo.

A visão deixou-me inerte. Estendeu-me a mão, aceitei repto e de mão dada fomos juntos até à foz.

As palavras ensinaram-me que a escrita poderia fazer-me chegar ao céu, assim como mais tarde. lendo Maximo Gorky, soube que um matemático russo tentou chegar a Deus, usando cálculos da algebra. Era tudo questão de detalhes e oportunidade, que a nhangana e mboa e chiguinha alimentavam as ideias numa capulana pensativa no estendal.

Os nossos pais viviam na inquietação e não era para menos. Era difícil criar os filhos que sofriam bullying racial, sujeitos a levar porrada ou colocados na prisão, sem nada poderem fazer.

Transtornos psico-sociais abundavam e a resposta sempre a mesma: entregar a alma ao criador ou ser um abnegado terrorista. Ou aderia-se à causa da libertação liderada pela Frelimo e contribuía para a libertação da família e da terra, ou estava-se condenado a morrer jovem.

Naquele tempo não pensávamos em democracias, mas numa restauração da ordem. Isto é, tomar o governo à força e substituí-lo pelo nosso. Não podia haver liberdade de um só enquanto os outros se mantivessem subjugados. Efectivamente, não podia existir um homem livre num povo a viver no lume da escravidão.

Independência, o êxtase de jornadas madrugadoras de devoção à causa

Quarenta e oito anos depois, se o misticismo fez do homem africano um ser adiado, o facto é que o continente continua a irradiar luz, contudo subjugado das próprias crenças adia o presente, na esperança de que o futuro seja melhor, mas que nunca chega senão pela racionalização da razão.

O estado que criámos pesa-nos cada vez mais e o peso da dívida agravou-se 24 por cento.

Se inicialmente o governo democrático saído das eleições de 1994 colocou o socialismo na gaveta, por outro lado abriu as portas a um estado despesista em função do capricho das elites. O estado não tem tido dinheiro para gerir despesas de funcionamento, e se houver vontade política, a parte irracional pode sempre escutar a razão e aperfeiçoar as acções direccionadas ao desenvolvimento económico e social.

Neste momento, 95% do que o governo capta em receitas fiscais serve para pagar salários e remunerações, e fazer face ao serviço da dívida. Ora uma dívida sustentável deveria rondar os 30% do PIB e não 73% (em 2015) a 109% (em 2021). Um estado não pode constituir um peso na economia.

Sendo o gás natural de Rovuma apenas uma promessa, porquê endividar-nos ainda mais em vez de cortar com os vários ministérios – reduzir a folha salarial? Como é que o estado, cuja economia é pouco produtiva, pode dar-se ao luxo de gastar mais do que pode, mesmo sem investimentos notórios na saúde, educação e infra-estruturas?

Milhões de pessoas continuam sem saneamento básico, água potável e electricidade.

Vivemos com o céu sempre a ameaçar intempéries, contadas a compasso entre crenças de chikwembos pagãos e veneração de um Deus cristão ou muçulmano, quando a solução é política. Deus não tem religião. Quando a fé baixa, as superstições tomam conta da mente. O africano investe e reinventa-se em diferentes credos religiosos, que apenas pioram a sua situação.

Quando a maioria da população vive abaixo da linha da pobreza, como dizer que consome mais do que produz? É confrangedor!

Vivemos muito tempo a calar o silêncio ou a viver amarrados e adormecidos nele. O mais paradigmático era o sentimento no qual aguardávamos pela chegada de uma divindade que se parecesse connosco.

O africano vive ligado ao misticismo e não é folclore. O facto é que, mesmo que não queiram, os governantes deixam-se embarcar no fenómeno, mas sem capacidade de explicar o seu existencialismo perante dogmas correntes no mercado, e mesmo sabendo que pensamentos de subdesenvolvimento constituem pedras de bloqueio e de retrocesso.

Em África, a morte não é o fim, mas sequência de um projecto sequencial da vida, numa outra dimensão em que a família é o centro fundamental.


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