PENA & LÁPIS


Correspondente do Brasil:

Habemos Nigrus Papam – Parte VI (Conclusão)

Por Francisco G. Amorim

Sol Português

Pelas regras da Igreja católica só pode ser eleito Papa um cardeal ou um bispo, pelo que se pode chegar ao extremo de nomear e consagrar como bispo alguém, inclusive leigo e até casado, desde que se desligue da família e se considere que possa servir dignamente a Igreja.

A discussão sobre a hipótese de elegerem um não cardeal, "somente" bispo, e de escolherem o responsável pela Igreja na Etiópia começou a tomar corpo. Sabiam que Dom Cipinga estava em Roma porque já se tinham reunido com ele.

Correndo, foram buscá-lo e introduziram-no na Capela Sistina. Expuseram-lhe a situação: tinha sido o escolhido.

A Cipinga custou-lhe a responder. Ajoelhou-se, pediu uns momentos de concentração e oração, e aceitou. Pediu traje simples, sem ouro, nem exageros.

– "Por que nome quer ser conhecido?"

Novamente Cipinga sente o apelo da sua terra, da história da Igreja na Etiópia e mesmo sabendo que ia ser uma "quase bomba" entre todos os cardeais, responde:

– "Frumêncio."

Depois de muito fumo negro, finalmente sai pela chaminé do Vaticano a tão esperada fumaça branca e um clamor e alegria eleva-se dos que aguardavam. A notícia corre por Roma e por todo o Mundo. Mas quem teria sido o escolhido?

A Praça de São Pedro transbordava de fiéis aguardando com muita ânsia e devoção o aparecimento do novo Papa, esperando por nova dinâmica e até juventude, tão desejada.

Cipinga estava com pouco mais de 40 anos! Ao abrir-se a janela do alto do Vaticano, a população agitou-se e apareceu o cardeal protodiácono e decano – o mais velho entre os cardeais da ordem dos diáconos – que anuncia: – "Habemus Papam!"

Grande salva de palmas, que ecoa por Roma, e logo a seguir vêem surgir o novo Papa, vestindo simplesmente a impecável túnica branca, encimada por um rosto escuro. Muito escuro. Ouviam-se vozes entre os fiéis: "Habemus nigrus Papam".

Alto, jovem, africano, expressão de humildade, começa por abençoar a todos – "In nomine Patris et Filiiu et Spirito Santo."

A seguir levanta os olhos para o alto e, em voz alta, profere algumas palavras ininteligíveis, que logo repete em italiano: – "Divino Padre, aiutami ad unire tutti i fratelli!".

E continua, sempre em italiano: "Irmãs e Irmãos, o nosso Pai chamou-me para contribuir para a realização da mensagem que Cristo nos deixou há 2000 anos, para que nos amemos como ele nos amou. Somos todos filhos do mesmo Pai e é muito triste ver que há guerras e disputas dentro da Sua família.

"Venho de terras muito antigas, mas onde a divisão entre povos é grande. Agora que Deus me entrega a Sua Igreja Católica, a minha missão é trazer a palavra de amor ao mundo inteiro.

"Sem a vossa ajuda, os resultados serão sempre fracos. Vós sois a boa semente, que deve cair em todo o lado, sem esquecer que mesmo em terras fracas a semente pode e deve dar frutos.

"Não é o Papa que vai resolver os problemas da Igreja, são os cristãos, todos, católicos ou não. A paz no mundo está nas vossas mãos, unidas. Rezai, rezai muito para que o nosso Pai nos ouça melhor.

"Abracem sempre qualquer um, amigo ou inimigo, conquistem as suas almas que se unirão. E não se esqueçam de fazer uma pequena oração, para que o Papa não perca a sua força na luta pela Paz. A missão do Papa é muito pesada. Não o deixem cair com o peso das responsabilidades e dos problemas.

"Sinto grande felicidade em ver a vossa fé e é com essa força que podemos alcançar a paz, quando todos nos amarmos, independentemente de linguagem, religião e nível de riqueza. O amor conquista tudo."

Depois da Benção "Urbi et Orbi", o Papa Frumêncio ficou ainda alguns instantes a acenar aos fiéis e quem tinha binóculos conseguia distinguir que por aquela face escura corriam duas lágrimas.

Não é difícil imaginar a alegria que foi a notícia, especialmente por toda a África, e lá longe, entre os ajáuas. Os tambores soavam por todo o lado e as danças eram cada vez mais entusiasmadas

As lágrimas de emoção não paravam de cair dos cansados olhos dos mais velhos que tinham conhecido o jovem Cipinga.Era o primeiro Papa negro, curiosamente vindo da Etiópia, palavra que significa "pele ou face queimada"!

VI – Papa Frumêncio

Desde muito novo educado por homens cuja filosofia era o animismo – seu pai e o mukata, um muçulmano e um padre católico – sendo uma criança com uma bela cabeça e um raciocínio claro, ganhou uma formação vastíssima e uma visão clara do mundo.

Depois, estudou uma dúzia de anos no seminário e mais dois ou três no Convento de São Paulo, na Itália.

Neste trajecto estudou tudo quanto podia, inclusivamente textos sobre a guerra, como os de Sun Tzu e Clausewitz. Desde sempre soube que o interior do Vaticano era um ninho de intrigas e interesses pessoais, em que sobretudo os mais velhos cardeais não abdicam do seu poder, torpedeando muitas vezes os planos traçados pelo próprio Papa.

O novo Papa, jovem, com larga formação, logo firmou na sua cabeça um parecer de Lao Tsé, que admirava, e que diz: "Mantém os teus inimigos por perto!" Foi com esse conceito que estabeleceu como "principais" conselheiros esses cardeais, porque assim poderia melhor controlá-los e, sobretudo, ganhar a sua confiança.

Franciscano, como o grande Papa João XXIII, e seguindo o exemplo do Papa Francisco, não usou vestes sumptuosas nem ouro ou jóias, mantendo sempre, sobre o traje branco, uma cintura de corda, como determinado pelo Poverello.

Admirado e louvado em todo o mundo, não só por ser o primeiro africano a assumir o mais alto no posto da Igreja e ao mesmo tempo pela sua juventude (40 e poucos anos), tudo isto somado a uma elevada cultura, simplicidade e profundos conhecimentos doutras culturas, religiões e ritos.

O mundo, não só católico, ficou a aguardar, esperançoso, pela gestão deste homem especial.

A primeira decisão que teve que tomar foi escolher o seu secretário. Cardeais de todos os cantos do mundo, europeus, africanos, americanos e asiáticos, o agora Papa Frumêncio já tinha conhecido bem alguns nas diversas reuniões a que fora chamado a Roma.

Novamente se recolheu na Capela Sistina e ajoelhou-se, pedindo ao Pai que o iluminasse para escolher alguém em quem pudesse confiar.

Num vislumbre passou-lhe pela cabeça a parte da história que fala na ajuda que os portugueses deram à igreja da Etiópia no século XVI. Tentou percorrer mentalmente os diversos cardeais portugueses, mas concluiu que todos eram já de avançada idade. Procurava alguém mais jovem, mais dinâmico. Decidiu-se então pelo Cardeal-Arcebispo de Manaus, jovem como ele e de um país que tem elevado percentual de população católica, e também franciscano.

Naquele dia precisava descansar e orar muito, para que o Pai o fizesse cada vez mais humilde. Deitou-se a rezar e adormeceu tarde, cansado. No dia seguinte ia começar uma nova, difícil e pesada vida. Pedia ao Deus Único que o amparasse.

Que assim seja.


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