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Dia Internacional da Mulher:

Casas dos Açores e da Madeira duas das colectividades lusas que assinalaram a efeméride

Por João Vicente
Sol Português

Celebrado oficialmente no dia 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher comemora vitórias femininas nos campos social, económico, cultural e político.

Em Toronto, várias colectividades lusas assinalaram a ocasião no passado fim-de-semana, incluindo a Casa da Madeira de Toronto e a Casa dos Açores do Ontário que no sábado (10) e domingo (11), respectivamente, reuniram os seus associados e simpatizantes em encontros subordinados a esta temática.

Curiosamente, em ambas as colectividades, que representam portugueses originários das regiões autónomas foi usado o mesmo exemplo para ilustrar o calibre das injustiças que, mesmo na era actual, as mulheres continuam ainda a sofrer em diferentes partes do mundo.

O caso referido foi o de uma adolescente em El Salvador, Evelyn Beatriz Hernandez Cruz, que engravidou em consequência de ter sido violada, sofreu complicações de parto e, quando o bebé nasceu morto, foi condenada em 2017 a 30 anos de prisão por alegado aborto – classificado, em termos jurídicos, como homicídio agravado.

Enquanto isso, o violador – membro de uma quadrilha que intimidou e repetidamente violou esta jovem – não foi alvo de qualquer acusação e nem sequer penalizado.

O relato de uma situação tão clara e absurdamente injusta nos dias que correm chocou quantos o ouviram, demonstrando o tipo de problemas e situações que são ainda enfrentados por muitas mulheres e o quanto falta ainda fazer para atingirem um estatuto de equidade e igualdade a nível global.

Na Casa da Madeira, onde mais uma vez foi convidada a fazer uma apresentação sobre o Dia Internacional da Mulher, Paula Medeiros começou por distribuir pelas mesas os contactos da Linha de Apoio a Mulheres Vítimas de Maus Tratos e do Centro Abrigo, referindo que por vezes temos conhecimento de situações de mulheres que estão a ser vítimas de violência doméstica e a precisar de ajuda, mas muita gente não sabe como e onde as direccionar para que possam ser auxiliadas.

A oradora, que é simultaneamente funcionária do Consulado-Geral de Portugal em Toronto e presidente da secção do PSD de Toronto, citou vários casos para demonstrar a situação – muitas vezes precária – vivida por muitas mulheres, incluindo a forma como são vistas tanto pela sociedade como pelo sistema judicial, mesmo na actualidade e até em países considerados relativamente avançados em termos dos direitos da mulher.

Para realçar o seu argumento, citou o relatório emitido pelo Fórum Económico Mundial que conclui que, um século depois do início da luta política pelos direitos da mulher, se continuarmos a progredir ao ritmo actual serão precisos mais 217 anos para que as mulheres atinjam o patamar da igualdade de salários com os homens a nível mundial.

Em declarações aos jornais Sol Português e Voice, Paula Medeiros indicou sentir-se "satisfeita e feliz" com a evolução que nota, inclusive a nível comunitário, realçando que "as mulheres estão a vir ter comigo e a segredar-me `obrigada pelo teu discurso', `obrigada por continuares a falar em nosso favor', e isso encoraja-me muito para continuar a fazê-lo", referiu.

Questionada sobre o facto de lhe "segredarem" em vez de falarem abertamente, explica que será uma questão cultural, uma forma de "falar de forma mais íntima, mais discreta" – uma das diferenças que nota no dia-a-dia, em que lida simultaneamente com o mundo português na diáspora, onde "ainda há alguns passos significativos a dar", e o canadiano, onde sente haver mais progresso.

Ainda assim, considera a situação do Canadá "preocupante", principalmente para quem vive em Toronto, pois o custo de vida é muito elevado e há mulheres que começam a ficar vulneráveis por não conseguirem comportar o custo de vida sozinhas.

Paula Medeiros diz ter sentido que o seu discurso este ano foi mais bem recebido e que as pessoas começam a estar mais sensibilizadas para este assunto, e embora veja os homens como aliados, pois estando em posições de poder vão ajudando a causa da equidade e da igualdade, gostaria ainda assim que se pronunciassem mais, sobretudo na comunidade.

No decorrer deste encontro na Casa da Madeira foi ainda convidada a dirigir-se à plateia a adjudicadora do Assessment Review Board, Cristina Marques, que através de exemplos ilustrou a existência de casos flagrantes de injustiça.

Os seus argumentos visaram exemplificar que mesmo num país como o Canadá ainda há situações de abuso dos direitos da mulher e que a liberdade económica e financeira das mulheres não só está ligada à sua longevidade como é precária e em vários casos controlada por pais, irmãos ou maridos.

Entretanto e em resposta ao convite lançado aos homens na sala para que se pronunciassem sobre as mulheres da sua vida, vários foram os que aceitaram o desafio e se dirigiram ao microfone.

O primeiro a fazê-lo foi o ex-presidente da Casa do Alentejo de Toronto, Carlos de Sousa, que referiu que nas direcções daquela colectividade sempre houve mais mulheres do que homens e que estas são em geral muito trabalhadoras e cumpridoras dos seus deveres.

Outras expressões de apreço vieram de Miguel Mendonça., que agradeceu à mãe e à sogra tudo o que fizeram na vida, pois como mães sós tiveram de se esforçar muito para darem um futuro aos filhos, agradecendo também à sua esposa pelo apoio.

António Pedrosa afirmou já ter perdido a mulher que mais amou na vida, que foi a mãe, mas congratulou-se pela sua "esposa espectacular", assim como pela filha e pelas netas e netos, declarando-se feliz por isso.

A encerrar a sessão escutou-se ainda um poema de Luís Marcelino, declamado pelo autor, após o que o presidente da Casa da Madeira, Rick Coelho, procedeu à entrega de um ramo de flores à oradora Paula Medeiros e rosas brancas a todas as mulheres que se encontravam no salão.

O serão concluiria com um baile, com música do DJ Electro Som, de Steve da Silva.

No dia seguinte, domingo, também a Casa dos Açores do Ontário (CAO) comemorou o Dia da Mulher, desta feita com um almoço convívio e matiné que teve apresentação de Fátima Bento.

Após dar as boas-vindas ao público, a vice-presidente da Assembleia-Geral da colectividade começou por pedir um louvor em uníssono para o Divino Espírito Santo, padroeiro da CAO, passando então a chamar ao pódio a presidente do Executivo, Suzanne Cunha, que seria a oradora nessa tarde.

Na sua alocução, a dirigente salientou estarem ali a assinalar um dia em que se comemora "uma parte específica da raça humana que ainda é tratada com menos respeito, dignidade e igualdade", fazendo questão de dar graças ao pai, que elogiou por a ter ensinado a ser auto-suficiente.

Depois de um agradecimento a um grupo de senhoras que fazem parte dos corpos gerentes da colectividade, assim como às sócias e voluntárias que contribuem para a CAO, dirigiu-se à assistência em inglês e explicou que o fazia para que a sua mensagem chegasse a uma pessoa muito especial, a jovem Avery da Cunha, de 12 anos, a quem incentivou a ser "forte e independente" e a dar valor e lutar pelos seus direitos.

Foi uma mensagem que fez aflorar as lágrimas aos olhos da mãe desta jovem, Tracy Viveiros, que mais tarde, em declarações ao jornal Sol Português, explicou considerar fundamental "apoiar as meninas, para que se tornem grandes mulheres".

Por seu turno, a filha revelou-se uma jovem inteligente e merecedora da mensagem de apoio e encorajamento que lhe havia sido dirigida, sendo a única das pessoas com quem trocámos impressões que demonstrou ter realmente noção da história por trás da comemoração do Dia Internacional da Mulher.

Dizendo sentir-se "honrada" pelo voto de confiança, a pequena luso-canadiana confessou que quando olha em seu redor ainda vê "muito por fazer" e que "este dia já não devia ser acerca da igualdade salarial entre homens e mulheres, mas sim uma comemoração do facto de que atingimos a igualdade", acrescentando sentir que "ainda é preciso educar as pessoas".

A dar o mote para o que se pretendia fosse também uma tarde de comemoração da condição feminina, o artista Henrik Cipriano completou esta matiné dedicada ao Dia Internacional da Mulher com a voz e o humor que já lhe são conhecidos, e que puseram toda a gente a dançar e a rir, com a ajuda do DJ Tony Silva, encarregado do som e luzes.


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