PENA & LÁPIS


As Cidades-Irmãs:

Movimentos do Futuro nas Relações Portugal-Diáspora

Por Diniz Borges
Sol Português

Há muito que em que acredito, tal como outros o têm feito, que as relações pacíficas entre as nações, requerem compreensão e respeito mútuo entre as pessoas
Dwight Eisenhower, Presidente dos EUA

Pouco depois do rescaldo da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo se dividia entre duas superpotências, o então presidente dos Estados Unidos da América, Dwight Eisenhower, ele próprio um general durante o grande conflito, idealizou um movimento que aproximasse as pessoas, trazendo a todos os povos do planeta um achegamento que jamais poderia ser feito, unicamente, pelos governos.

Foi o People to People Program, e dele o movimento das cidades-irmãs. E foi nesse contexto, que anos mais tarde, que em 1966 nasceu o movimento das cidades irmãs, Tulare-Angra do Heroísmo. Há beira dos seus 55 anos, esta geminação, a mais antiga dos Açores, continua a tentar aproximar os povos destas duas cidades, unidas pelo elo da emigração açoriana que no último quartel do século XIX já tinha mais do que uma mão cheia de terceirenses tentando refazer as suas vidas, números esses que continuaram a aumentar no século vinte particularmente nas décadas de 1960, 1970 e começo de 1980. Angra do Heroísmo-Tulare é uma geminação antiga, mas com vida nova.

Foi no ano de 1956, portanto há quase meio século, que o trigésimo quarto presidente dos Estados Unidos Dwight Eisenhower organizou na Casa Branca um congresso com líderes de vários sectores da sociedade norte-americana para tentarem organizar o chamado People to People Program. E daí resultou uma amalgama de iniciativas e intercâmbios pessoais com outros povos e outras culturas. Pouco depois, como já se disse, e ao abrigo desse mesmo programa o começo dos movimentos das cidades irmãs. Um conceito tão simples que pretendia criar amizades e intercâmbios entre povos de várias cidades. Um programa humanista com princípios pacifistas. Um programa que John F. Kennedy dizia ser uma esperança para a humanidade porque, "era a dona de casa cuja receita consistiria no fermento da bondade, o soldado que abraçaria os sem lar, o médico que curaria com humildade, todos com um único tema—o poder do povo, individualmente, respondendo, imaginativamente, aos grandes desafios da paz".

Daí que, precisamente dez anos depois de Eisenhower instituir o People to People Program, no ano de 1966, as cidades de Angra do Heroísmo e Tulare começaram um relacionamento que tem atravessado várias gerações e ainda hoje contínua como um dos programas de cidades irmãs mais activos e criativos.

Foi um advogado de raízes açorianas, Joseph Soares, com o apoio de alguns outros açorianos e descendentes de açorianos, como o comendador Manuel Mancebo Sr., Alvin Goulart, Manuel Toledo, Lúcia Noia, Tony Nunes Sr., e Helter Martins, entre outros, que deram o primeiro impulso neste movimento, uma geminação que começou numa época em que os terceirenses saíam da sua terra para, no fértil vale de San Joaquim, tentarem a sua sorte. Numa década em que muitos residentes do conselho, e do velho distrito de Angra do Heroísmo, despediam-se das suas gentes, e numa emigração impulsionada pela necessidade, embarcavam nos pequenos barcos que nos ligavam a S. Miguel e a Santa Maria, para depois de resolvidos os trâmites legais de vistos e vacinas, embarcarem nos aviões da Pan-American e da TWA, a fim de dias depois chegarem a cidades como Tulare, pequenas cidades da ruralidade californiana, onde iniciavam as suas vidas nas já então imensas herdades da agropecuária desta mítica região.

Hoje, Angra do Heroísmo já não é a mesma. E Tulare também está diferente. Mas a ligação estabelecida na base de Tulare ser uma das cidades californianas que mais terceirenses recebia nos fins dos anos de 1960 continua, e com as novas gerações há o desejo de que a mesma fortaleça e perdure.

É que este movimento das cidades irmãs é singular: quer pelas razões que levaram à sua existência, quer pela ligação que se deseja, cada vez mais íntima, entre os povos de ambas estas duas cidades, porque tal como nos disse Eisenhower: "o movimento das cidades irmãs é uma fonte importante para as negociações dos governos, permitindo ao povo dar a sua própria expressão baseada no intuito comum da amizade e da cooperação para que tenhamos um mundo melhor."

Estes princípios humanistas estavam no cerne do começo desta geminação que levou um dos mais distintos cidadãos da cidade de Angra do Heroísmo, o jornalista e escritor João Afonso, a dedicar quase quarenta anos a este movimento, tentando ser em Angra o elo destas duas cidades e os seus povos. Foram estes princípios que levaram com que em Tulare se estabelece uma Fundação, dirigida por emigrantes e luso-descendentes, assim como responsáveis autárquicos, para cuidar deste relacionamento, a Tulare-Angra do Heroísmo Sister City Foundation.

Foram estes princípios que proporcionaram uma série de visitas de ambos os lados do atlântico. Foram estes primórdios os geradores da maior campanha que Tulare jamais fez quando do abalo sísmico de 1980; da visita da orquestra sinfónica do Condado de Tulare durante as Sanjoaninas de 1989; duma exposição dos pioneiros portugueses de Tulare no mesmo ano; das celebrações do cinquentenário—marcantes nas duas cidades; do estabelecimento de um intercambio frutífero entre a Universidade Estadual da Califórnia em Fresno (com uma população estudantil de 25 mil alunos) e o polo da Terceira da Universidade dos Açores, entre outras incitavas, quer do lado de Tulare, quer do lado de Angra.

Num momento em que a metamorfose das nossas comunidades acontece a passos largos, em que algumas associações se debatem com a conjugação de servir uma comunidade emigrante envelhecida e uma comunidade de luso-descendentes que desponta, mas que por vezes parece estar dispersa e distante da terra e dos costumes dos seus antecessores, ou então meramente ligada ao mais popular e menos profundo, seria interessante analisar estes projectos de cidades irmãs, particularmente com aquelas que têm fortes ligações à nossa emigração e aos seus rebentos.

É que estes movimentos, pelo seu historial, e pela ligação íntima que mantêm com as autarquias, em ambos os lados do atlântico, podem, e devem ser, interlocutores privilegiados num relacionamento arquipélago/ comunidades que vá além da comunidade imigrante, porque só assim poder-se-á construir as tais pontes importantíssimas que manterão a nossa presença cultural no mundo norte-americano e que todos querem que seja um mundo que vá além das festas e romarias. Aliás, seria importante que num pós-pandemia que se quer muito em breve, mas que devemos esperar com serenidade, termos um congresso das cidades irmãs açorianas com as suas congéneres nos Estados Unidos.

Uma nobre missão para a FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento) que muito tem contribuído para a nossa comunidade e a presença portuguesa em terras americanas.

Quando se fala em dar a imagem dos novos Açores às comunidades, e aos outros grupos étnicos que vivem no multiculturalismo norte-americano, não se pode ficar pelos tradicionais grupos fechados e direccionados unicamente ao emigrante.

É imperativo que se penetre as organizações e instituições do mundo americano, o verdadeiro mundo das novas gerações com raízes açorianas. Daí que no contexto de dar a imagem dos novos Açores é imprescindível que se utilize os movimentos das cidades irmãs, os quais ao abrigo de programas internacionalmente reconhecidos, como o People to People podem ser o elo que se precisa para aproximar o ainda longínquo mundo da emigração aos novos Açores e do arquipélago aos milhares de luso-descendentes que pouco ou nada conhecem sobre as ilhas dos seus antepassados.

Ainda bem que o movimento Angra do Heroísmo-Tulare, um movimento com quase 55 anos de vida, soube dar esse passo e está determinado a continuar o trabalho desenvolvido através de quase cinco década e meia para uma verdadeira aproximação entre os povos destas duas cidades, que é ao mesmo tempo uma aproximação dos novos Açores com as novas gerações de açor-americanos, através do ensino, do turismo, da industria, das artes e claro das geografias afectivas que, oficialmente nos ligam desde 1966.


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