PENA & LÁPIS


Correspondente do Brasil:

O Galã

Por Francisco Amorim
Sol Português

Neste afã de dar um pouco de arrumação à minha papelada (cartas, jornais, faxes, revistas dos anos '30, etc.) muita já meio apodrecida, tenho descoberto coisas interessantes, como um manuscrito com várias páginas muito amareladas e ruídas das traças, letra confusa, dentro de um envelope sem nome nem endereço.

Após uns dias de teimosa insistência vim a descobrir coisas que parecem ter saído dos contos das Mil e Uma Noites, mas que afinal se passaram no século XX.

A assinatura, muito sumida, parece indicar que o autor seria alguém da minha família, ou do mesmo sobrenome, o que me deixa um tanto comprometido porque parece ter escrito que desejava que esta história fosse entregue um dia a alguém Amorim, freguesia da Póvoa de Varzim, em que, parece, seu pai teria sido baptizado.

Começa por contar que nasceu no Minho, em Portugal, e teria um ano quando os pais decidiram ir para o Brasil. Isto talvez pelos anos '20 ou '30.

O pai e um primo juntaram algum dinheiro e foram para o Rio de Janeiro. Montaram um negócio que prosperou, o que lhes permitia uma vida folgada.

Filho único, desde muito novo sentiu uma tremenda e irresistível atracção por todos os elementos femininos, coleccionando recortes de fotos de actrizes e cantoras que apareciam em revistas e jornais. Ficava vidrado ao ver estátuas de mulheres mais ou menos despidas, que sobre ele exerciam uma atracção total, e notava alguma insistência no olhar daquelas que o rodeavam. Isto desde que a sua memória lembrava.

Os pais trabalhavam o dia todo. Ele ficava entregue a duas empregadas: uma cozinheira aí dos seus 40 e uns quantos anos, e uma sobrinha desta, jovem à volta dos 20, que o lavava, vestia e levava para a escola. Teria uns 10 anos e a moleca começou a demorar um pouco mais de tempo a lavar-lhe carinhosamente as partes que... bem, essas, que ele apreciava bastante, até que um dia, não tardou muito, essas partes, que já iam sentindo algo novo, se excitaram de tal modo que a jovem empregada decidiu que estava na hora do primeiro experimento... directo.

O garoto achou aquilo um tanto estranho, que mexeu com todo o seu ser. Foi para a escola a pensar no que se passara e a observar demoradamente as colegas, que ele achava todas ou quase todas umas crianças. Mas ficou interessado nessa "análise" que lhe permitia compará-las com a "carinhosa" Aurora que lhe despertara algo novo que revolveu os seus pensamentos e desejos.

As mulheres gostam de falar e Aurora decidiu contar à tia as aventuras que estava a ter com o "minino" da casa! A tia abriu os olhos, recomendou cautela; era perigoso, ainda não existia a palavra pedofilia, mas ficou com o bichinho a roer-lhe a consciência, e mesmo casada, não queria perder uma aventura com um jovem que já se mostrava tão metido e safado (!?) que ia crescendo.

Na primeira oportunidade em que se viu sozinha com ele em casa, avançou, experimentou e gostou! Não estava submetida ao comando do marido e ali era ela que comandava.

Fábio, o garoto, não perdeu tempo. Nova experiência, considerada também interessante.

Os estudos prosseguiam no secundário, analisava o crescimento das colegas que o deixavam atento, enquanto umas tantas apreciavam o seu ar atrevido e procuravam estar com ele, trocando, às escondidas, um carinho, uns beijos mais ou menos decentes ou não, e novas sensações quando as mãos de ambos deslizavam por lugares que estavam sujeitos a confessionário – se não na igreja, na consciência.

Umas mais crescidas, outras mais elegantes, algumas envergonhadas, já se iam preparando em casa, com a máxima elegância possível, para serem cobiçadas.

A sua fama foi crescendo, os estudos parece que seguiam normais e eis o nosso galã adolescente sabido, requestado, cobiçado, procurado, tanto por colegas como por amigas e até titias e mamãs destas!!! Uma festa.

O Casanova não tinha mãos, nem nada mais a medir. O que lhe aparecesse era filé e se não lhe aparecesse, ele sabia onde encontrar.

Entretanto morre o pai e a mãe decide casar com o primo ainda solteiro, e como isso não lhe agradou, mandaram-no de volta para Portugal, parece que para Via... (papel estragado!) ao cuidado de uma irmã do pai, uma médica, solteira, que ficou encantada em o acolher.

Vivia sozinha e tinha uma casa boa, com vários quartos, e dinheiro suficiente para acompanhar o sobrinho nos seus estudos. A Fábio, sendo herdeiro de metade do empreendimento do pai, nunca faltou dinheiro mandado do Brasil, que a tia ia sempre depositar num banco para ele usar quando crescesse.

De repente aparece-lhe o emigrante, sem ser esperado tão cedo, que foi recebido com todo o calor humano. Olho clínico, a boa médica viu logo um rapagão são e escorreito, que causou óptima impressão. Mas não tinha ainda preparado um quarto para ele ficar.

"Amanhã vamos comprar uma cama e mais alguma coisa para o teu quarto e esta noite podes dormir no sofá que é grande e confortável. E também temos que comprar roupa quente. Aqui está muito frio."

Pleno inverno, um frio de tiritar dentes e mãos, sobretudo para quem chega do Rio de Janeiro, tão quentinho. A tia teve que providenciar no dia da chegada um cobertor para lhe cobrir as costas. Depois de jantarem, a sala fria, o quarto da tia aquecido, esta condoeu-se e disse ao sobrinho: "Se não te importas dormes hoje na minha cama que é bem larga, e não terás frio."

Quem estiver a ler isto já imagina que a tia não deixou o sobrinho dormir. Sem querer, quando viu o belo e jovem físico do garotão na larga cama, foi-se chegando até se encostar. Fábio conhecia bem essas e outras manobras, e num instante o encosto estava a dar resultado. A tia abraça-o com força, talvez para o proteger de algum resfriado ("está-se bem a ver!") e vai-se entusiasmando com a técnica do sobrinho.

Tinha razão: ali frio não passou, mostrou o quanto já sabia dessas andanças, mesmo com tão pouca idade, aí pelos 15. Logo estava a contar os nomes das garotas e mulheres de quem mais se lembrava: Rosinha, uma simpática garotinha, Gleisi, Juliana, Letícia, Benedita, Dilvanda e muitas outras de quem nem chegou a saber o nome, sem nunca esquecer a sua primeira mestra, Aurora, que lhe mostrou o caminho das nuvens.

E essa coisa de ir no dia seguinte comprar outra cama foi um pretexto. Só para ter em casa e mostrar onde o sobrinho (não) dormia. Nunca mais o ia deixar dormir noutro lugar. Roupa quente sim.

A tia doutora, solteirona, que vivia sempre com ar aborrecido, mudou de cara. No hospital onde trabalhava, colegas e enfermeiras, todas notaram que algo importante se passara na vida da senhora que parecia outra pessoa. Sorria, vivia agora com alegria. À sua maior amiga e colega, que lhe perguntou o que se passava, depois de exigir juramento de bico calado, não segurou o segredo da sua nova felicidade! Esta quis ver o espécime que de um dia para o outro transformara uma pessoa macambuzia, numa mulher cheia de vida!

Foi lá a casa visitá-los e sentiu que algo bateu também de forma diferente no seu coração! O problema era tirar o rapaz da tia! Talvez pedi-lo emprestado num fim-de-semana?! A pensar.

Fábio tinha um não sei o quê de atractivo com que as mulheres se encantavam e o desejavam logo ao primeiro contacto! Um dom. E que dom... Um magnetismo que a tia, doutora, tentava entender e até pesquisava nos livros técnicos, mas sobretudo ao natural.

Continuou os estudos na cidade, com as colegas já na faixa dos 16 e mais anos, sempre rodeado de um pequeno e feroz número delas, que queriam ouvir histórias do Brasil, que nada lhes interessava, querendo mesmo era chegar ao âmago dos seus propósitos.

Não tardou a ir estudar um dia em casa de uma, depois de outra, estudavam muita anatomia ao natural, alargando a sua esfera de acção e conhecimentos, sem esquecer de cuidar da simpática tia.

Os colegas é que o olhavam com ares de lobos famintos, raivosos. Fábio tinha sempre à sua volta o que de mais atractivo havia entre as colegas. A inveja ouvia-se ranger até nos corredores do colégio!

Mulheres de bico calado é coisa difícil. Cruzou fronteiras a sua fama, a que se juntava o retrato dum belo rapagão, educado, insaciável, carinhoso e de poucas falas. Chegou aos ouvidos da rede de TV da região e quiseram ouvir esse fenómeno.

Aos 18 anos convidaram-no para uma entrevista, com o rótulo de contar a sua vida no Brasil, e foi um tal sucesso como jamais outro programa tinha tido. No fim, a entrevistadora, agradecida, fez questão de o levar a casa no seu carro. Uma paradinha num pequeno hotel no meio do caminho foi o pretexto para... para isso mesmo!

Todas queriam guardar segredo, mas, quanto mais se guarda mais transborda, e como quem conta um conto lhe junta um ponto, a fama do novo Casanova, estava nas alturas, tão alto ao ponto de um dia, para seu grande espanto, receber uma carta de Hollywood oferecendo-lhe um papel num filme romântico, assaz "quente", dizendo até que tinha já à sua disposição o bilhete de avião e tudo o que mais precisasse. Aí vai ele.

Fez logo sucesso à chegada. Nem no avião as aeromoças o largaram durante o voo e na escala, em Nova Iorque, fizeram questão que dormisse no mesmo hotel que elas. Fez o sacrifício de dormir com ambas.

Na primeira noite em Los Angeles foi premiado com uma dançarina, lindona – segundo ele deixou escrito – e no pouco tempo que por lá andou nas filmagens raramente esteve só, nem repetiu muito as companhias. Tanta exibição acabou por lhe dar enjoo daquela mentira americana.

Regressou a Portugal, a tia sofrendo de saudades logo o arrebatou, achou as patrícias muito mais apreciáveis e encontrou à sua espera inúmeras cartas vindas de todo o lado.

Uns dias passados, bateu-lhe à porta uma Sherazade, vestida de damasco e rendas, vinda das quentes areias infindas dos desertos, que lhe deixavam o corpo a ferver, e trazendo presentes valiosos. Instalou-se na suite do melhor hotel e mandou um pequeno bilhete ao "desejado"! Só ficou uma noite, mas foi daquelas das Arábias.

Como chegou, desapareceu. Só o tempo suficiente para deixar no seu curriculum ter amado durante uma noite o rei de todos os homens.

Itália, Mussolini estraçalhado há muito, era o país que mais o atraía porque as mulheres que via no cinema davam de 10 a zero nas americanas. E aí vai ele correr os Apeninos, Este e Oeste, Norte e Sul, sempre recebido por fãs entusiasmadas, e todas lindas. O melhor que o país produzia. Queria experimentar tudo.

Até da China chegavam belos bilhetes postais com uma escrita confusa – bwv_`T`O(WNw_que só conseguiu decifrar com um chinês vendedor ambulante que levou tempo para digerir o objectivo da mensagem (quero muito deitar-me contigo) e não tardou que lhe aparecesse a linda Kumiko Wang, nas suas belas roupagens de sedas bordadas de dragões e flores, que se aventurou a tão longa viagem e teimava em não mais o largar.

Muito assédio. Fugiu para África, um continente de colorido diferente, sensações fortes, encontros com leões e elefantes, florestas, mas... mas, sobretudo, com aquelas esculturas de ébano que já tinha visto não sabia onde, mas não havia esquecido.

A sua fama precedia-o sempre; na primeira cidade onde o avião parou, uma delegação de lindas garotas aguardava-o. Elas mesmas lhe entregaram a lista com a escala de serviço, para que não houvesse desentendimento entre elas. Rolaram e resfolgaram.

Eram sem fim os convites para passeios pelas praias, florestas e savanas, sempre acompanhado de três ou mais "guias turísticas". Algumas semanas que, deixou escrito, foi quando mais perto esteve dos Elíseos terrestres.

Correu mais de dez países e de todos, aliás de todas, guardou a mesma memória.

Trinta e alguns anos já passados nesta vida, regressou ao Brasil, terra de mulheres lindas, Carnaval e caipirinha, praias e... o que mais viesse.

Procurou a sua querida mestra, Aurora mas não conseguiu encontrá-la.

Estava com mais de 40 anos. A sua mãe, novamente viúva, dirigia sozinha e com segurança a empresa. Decidiu então assumir a sua parte no negócio que herdara e entretanto se transformara numa empresa grande.

Não conseguiu. O assédio era constante, não o deixavam trabalhar. Colegas, subordinadas, clientes. Cansou.

Um dia disse à mãe, em segredo, que ia passar uma semana fora, longe de tudo e de todos. Descansar a cabeça e ver se conseguiria determinar o que fazer na vida.

Foi a casa, colocou meia dúzia de coisas dentro de uma mochila e saiu. Em cima da mesa deixou um envelope com esta história dentro. Com data.

Ninguém sabe para onde foi porque nunca mais alguém o viu ou ouviu falar dele.

Raramente chegavam notícias de alguém que sabia onde ele estava, jamais confirmado.

No manuscrito, tipo memórias, com dificuldade consegue adivinhar-se uma data: 1961.

Quando eu cheguei ao Brasil, em 1975, tive que comprar algumas coisas que não trouxemos de Angola, porque por lá não as havia.

Numa loja grande fui comprar uma TV, ainda a preto e branco, em prestações e que, aqui chegado sem dinheiro, só aos poucos podia pagar. Como não tinha ninguém que me pudesse apresentar nem servir de fiador, nem recibos de salários, nada, o vendedor levou-me à presença da dona, uma senhora muito amável, cabelo muito branco, que quando lhe disse o meu nome fez um ar de espanto. Abriu uma gaveta, tirou de lá um envelope que me entregou e disse que há anos aguardava que lhe aparecesse alguém com o mesmo nome que eu, a quem a devia entregar.

Via-se que ficara emocionada. "Bom dia"; virou-se para o seu trabalho sem olhar mais para mim e autorizou a venda. Coisa estranha.

Lembro-me ainda de ao chegar a casa, mesmo antes de mostrar a bela compra, coisa nova para quem vinha de África, ter lido tudo. Li e repeti à procura de alguma indicação que ajudasse a deslindar o que parecia uma charada. Achei uma loucura. Não entendi se era uma piada, mas com a referência à Freguesia de Amorim, na Póvoa de Varzim e Viana do Castelo, guardei a carta para um dia tentar deslindar o caso... e assim ela ficou tão bem guardada, perdida, entre muita, muita papelada, durante mais de 40 anos.

Agora que a redescobri parece-me que terá sido uma espécie de conto maluco. Mas quem o escreveu? E porque a senhora me entregou aquela carta?

Sei lá. Nem sei mais em que loja comprei a minha primeira TV.


Voltar a Pena & Lápis


Voltar a Sol Português