PENA & LÁPIS


Uma data na história

Por Inácio Natividade
Sol Português

Ao calcorrear as memórias da história de Moçambique, o dia 7 de Setembro de 1974 surge brando no céu azul da cidade de Nampula, com todo o seu esplendor, tendo como pano de fundo a montanha baptizada pelo colonialismo com o nome de "cabeça de preto".

O novo Governo português, saído do golpe de 25 de Abril, havia reconhecido oficialmente a FRELIMO como única e legítima representante do povo de Moçambique.

Naquele dia encontrava-me na rádio da cidade, acompanhado do Camarada Alberto Sulila, membro do Comité Central da FRELIMO, tendo na mira a leitura da missiva do comando militar português e da FRELIMO, em condenação da tentativa da tomada da Rádio na capital colonial por um grupo de portugueses conservadores e extremistas paramilitares, que discordavam com os termos do Acordo de Lusaca.

Nesses tempos, o nacionalismo africano era um vulcão em erupção, cuja lava emanava de poros de uma juventude urbana irreverente e solidária com a liberdade e independência. Para nós, moçambicanos, Samora Machel e a FRELIMO eram tudo o que almejávamos como garantes de uma soberania há muito desejada.

Enquanto nos encontrávamos na rádio e já prestes a ler o comunicado conjunto, a estação foi invadida por um grupo de colonialistas conservadores e suas famílias. Pude ver lá do alto da rádio pessoas a forçarem brutalmente a entrada. Eram em número superior a várias dezenas de portugueses: vários homens acompanhados de mulheres com crianças ao colo.

Pude enxergar a porta da rádio a ser forçada até ceder e ver o grupo da frente a subir as escadarias da rádio. O primeiro instinto foi proteger e retirar o camarada chefe Sulila do cenário.

Como a porta estava bloqueada e era a única saída, olhei para o quintal e pus em prática o plano da retirada. O parapeito da janela não era muito alto e num minuto saímos do local sem que o grupo desse por nós. Lembro-me de ter que invadir alguns quintais até alcançarmos um local seguro.

Já a salvos, pudemos controlar os movimentos e chegámos ao Quartel General Português. Lá contámos o sucedido e em poucos minutos estávamos num Jipe militar que nos levou de novo à radio

Assisti a uma cena de pancadaria, com a Policia militar portuguesa como protagonistas a impor a ordem e a pôr a correr da rádio toda aquela gente. O espírito do acordo de Lusaca foi respeitado.

Por fim, pudemos ler o comunicado conjunto da FRELIMO e do comando Português em Nampula.

A tentativa de tomada da rádio na ex-capital colonial e em Nampula foram, em geral, um efeito "natural" do fim de um regime colonial que sempre assentou na violência e que levou os moçambicanos a terem de responder com o uso das mesmas armas.

Cumpri sempre; com humildade, competência, rigor lealdade e rigor.

FRELIMO; ontem, hoje e sempre!


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