PENA & LÁPIS


Na Palavra Saudade – a Língua Viva*

"Ó terra de Calefórnia,

Não nos leves tantas filhas!

Daqui a nada, só temos

Pombos de rocha nas Ilhas..."

– Vitorino Nemésio

in "Décima de Genuína Baganha"

Por Diniz Borges

Sol Português

Se é certo, como foi dito algures, que as antologias são praticamente tão antigas quanto a poesia, nos Açores contamos com algumas das mais completas antologias que marcaram as nossas vivências poéticas no meio do Atlântico Norte. Pedro da Silveira trouxe-nos a Antologia de Poesia Açoriana do Século XVII a 1975, um trabalho importantíssimo com um prefácio que é, nas suas 42 páginas, um documento preciosíssimo de história e teoria literária. E pelas mãos de Ruy Galvão de Carvalho tivemos "A Antologia Poética dos Açores" (I e II volumes). Mais tarde, Eduardo Bettencourt Pinto trouxe-nos a antologia contemporânea Os Nove Rumores do Mar.

Mas, no entender do organizador de "Nem Sempre a Saudade Chora", havia a necessidade de se reunir a poesia açoriana com a temática da emigração. É que, como creio que o próprio leitor poderá verificar, nas páginas desta antologia, publicada em 2004 e agora a ser revista para uma possível nova edição, a emigração, presente quase desde que os primeiros colonos chegaram aos Açores, tem contribuído imenso para a nossa literatura. Os criadores açorianos, directa ou indirectamente, têm focado o fenómeno da emigração para as Américas.

Ao longo dos séculos, o nosso arquipélago tem sido porto de partidas e a emigração, principalmente – para o Brasil, os Estados Unidos, o Canadá e a Bermuda – marcou não só os que das ilhas saíram para terras do Novo Mundo, e lá plantaram raízes, semearam os nossos costumes e as nossas tradições, comungaram outras culturas, dissemelhares e estranhas, transformando-os em outros seres humanos, em açorianos diferentes, em açorianos com hífens (açor-americanos, açor-canadianos, etc.), que continuam a ser açorianos e, como não podia deixar de ser, a emigração também marcou os que nas ilhas ficaram.

O momento da partida, que está solenizado no famoso e enigmático quadro de Domingos Rebelo, também tem sido cadenciado e suspirado pelas vozes poéticas mais conhecidas dos Açores, como podemos verificar em "Almas Cativas" de Roberto de Mesquita.

Com a partida ficaram alteradas para sempre muitas vidas. Não foram apenas os que um dia deixaram a terra à procura de outras oportunidades, mas também aqueles que nas ilhas ficaram sentindo e chorando uma ausência, que quase sempre era definitiva. Aqueles para quem os seus mundos, mesmo na sua ambiência rotineira, tinham sido adulterados. Entre outras vozes, essa ausência é marcante no poema "Carta para Longe", de Armando Cortês Rodrigues.

Sobre as partidas, e a modificação significativa nas vidas de quem ficou, ainda nos tempos primordiais da nossa emigração, principalmente para os Estados Unidos e mais tarde para o Canadá, debruçaram-se alguns dos nomes mais conhecidos da poesia açoriana do século vinte. As cartas, em que o emigrante contava as suas glórias e os seus dilemas, assim como o espanto de quem as recebia, e as lamentações e as ambições de quem as respondia, são pedaços preciosos da nossa criação poética. Entre outras recorde-se algumas das mais expressivas em que os dilemas da emigração, nos seus múltiplos níveis e inquietações, são explorados – desde a estranheza das novas terras, seus usos e costumes, às encomendas que enchiam a casa dos que na ilha ficavam, até à inquietude de um êxodo imigratório poder modificar, significativamente, as vivências no nosso arquipélago: "Genuína Baganha", de Vitorino Nemésio, a "Carta de João Valente", de Álamo Oliveira e a "Carta de Joe Simas", de Marcolino Candeias. É que estas cartas, para além de serem obras de arte poética, são ainda documentos essenciais para se compreender a história social de uma época e de um tempo nas vidas dos açorianos dentro e fora dos Açores.

Neste corpus literário dos Açores também são notáveis os poemas que deram expressão às visitas do emigrante, ora visto com algum folclorismo, ora visto como um membro da família que se ausentara por muito tempo e daí a sua diferença. Três excertos que nos falam dessas viagens de retorno, com perspectivas diferentes: Alfred Lewis, na sua Carta; Padre. Mateus das Neves no Amaricano e João Teixeira de Medeiros em Regresso Tardio, entre outros.

A viagem da poesia açoriana pela experiência da emigração também inclui alguns poetas que, vivendo no estrangeiro, contaram as suas experiências, quer no aspecto nostálgico de viver a ilha à distância, quer na assimilação às novas terras. Essa mistura, que enriqueceu a nossa literatura. É sentida nos cânticos de poetas residentes no território nacional, mas que, ao participarem em congressos e colóquios, sentiram e enalteceram a nossa vivência entre dois mundos, como Vasco Pereira da Costa, cuja obra inclui o livro "My Californian Friends", o qual poderia ter sido reproduzido na íntegra nesta antologia, por ser um livro único na poesia dos Açores, e emigrantes como: Avelina da Silveira, Eduardo Bettencourt Pinto, Maria das Dores Beirão e José Francisco Costa, entre outros.

Em jeito de conclusão, poder-se-á dizer que, se os Açores não seriam os mesmos Açores sem as experiências e as vivências da nossa emigração para as Américas, também a literatura açoriana não seria, definitivamente, a mesma literatura sem a marca pungente do nosso mundo de partidas e chegadas. A antologia tenta ser um hino à nossa emigração tendo 47 poetas e 80 poemas. Uma nova revisão, de certeza que terá ainda mais poetas e poemas, de ambos os lados do Atlântico. Na realidade, 16 anos mais tarde, e estando mais do que esgotada, seria muito bom termos uma nova edição, para os Açores e para as comunidades.

Fechado, como parece estar, o ciclo da emigração açoriana (pelo menos em números significativos) para as terras do Novo Mundo, agora que, como escreveu Pedro da Silveira, já o mar não é caminho de emigrantes, é importante reflectir-se nessa trajectória que fizemos e nas suas repercussões para a história e para as letras da nossa, hoje, Região Autónoma dos Açores. Que, duma forma despretensiosa, mas sentida, esta antologia sirva para essa reflexão e como homenagem às vozes dos Açores que souberam cantar um período na nossa história em que, como escreveu Almeida Firmino, lá estava: sempre vazio o teu lugar à mesa e a tua voz cada vez mais distante.

* de um poema de Vasco Pereira da Costa in My Califórnia Friends

Texto adaptado da introdução à antologia "Nem Sempre a Saudade Chora"


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