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Aretha Franklin:

Morreu a "rainha da Soul" que transformou a palavra Respeito

A "Rainha da Soul" Aretha Franklin, que morreu ontem (quinta-feira) aos 76 anos, teve uma vida preenchida por êxitos musicais, desde o momento em que pegou na canção "Respect" de Otis Redding e a transformou em algo diferente.

Ao todo, foram 18 Grammys e mais de 75 milhões de discos vendidos ao longo de uma carreira em que se tornou na primeira mulher a entrar para o Rock and Roll Hall of Fame, em 1987. Numa das cerimónias dos Grammys, em 1998, marcou a noite ao substituir Luciano Pavarotti para interpretar "Nessun Dorma", da ópera de Puccini "Turandot".

Aretha Louise Franklin nasceu em 25 de Março de 1942 em Memphis, no Estado norte-americano do Tennessee - onde esteve sediada a editora Stax, que editou Otis Redding -, mas veio a crescer em Detroit, a outra principal cidade do soul norte-americano e lar da editora Motown. Filha do reverendo C.L. Franklin, viu o pai marchar com Martin Luther King e cantou, em 1968, no funeral deste último, em imagens que hoje podem ser vistas no Youtube.

Entre 1961 e 1965 lançou sete discos para a editora Columbia, sem grande sucesso, numa altura em que o `soul' já estava afirmado nas listas de mais vendidos e ouvidos, mas quando se mudou para a Atlantic, então nas mãos de Ahmet Ertegun e Jerry Wexler, o resultado foi outro.

O primeiro disco gravado com a nova editora, em 1967, chamou-se "I Never Loved a Man the Way I Love You" e tinha como primeira faixa uma canção intitulada "Respect", que Aretha Franklin ouviu na rádio pela voz de Redding enquanto estava a limpar o apartamento para o qual se tinha acabado de mudar, em Detroit.

"Tinha uma boa rádio sintonizada. Adorei. Adorei! Senti que podia fazer algo diferente com a canção", afirmou, citada pela revista Elle, em 2016, que se referiu à sua versão de "Respect" como "talvez o ato mais genial de reinvenção `pop' da história da música americana" ao transformar em poder feminino o desespero de um homem que dizia à amada que esta o podia trair desde que voltasse para casa para lhe dar respeito.

Essa transição é notória logo a abrir a canção: enquanto Otis cantava que "O que tu queres, querida, tu tens", Aretha afirmava que "o que tu queres, querido, eu tenho".

Numa entrevista dada à britânica Record Mirror, em 1968, Aretha Franklin disse que sempre viu potencial na versão que fez de "Respect" e que sabia que ia ser um sucesso.

Na altura, questionada sobre se no futuro ainda se veria a cantar canções como "Respect" ou "Think", Franklin disse que não: "A música muda e eu vou mudar com ela".

Sobre a versão de "Respect" feita por Aretha, o histórico crítico Greil Marcus escreveu que a canção "abriu a porta à grandiosidade moral do que Aretha Franklin tinha para dizer ao mundo, uma nova definição do que `soul' significava: que podia ser avassaladora".

A era na Atlantic, que durou até 1975, trouxe outras canções que ficariam para sempre associadas ao nome de Aretha Franklin, como "Chain of Fools" e "Natural Woman", enquanto, em 1987, voltou a ocupar o topo da tabela dos mais vendidos com "I Knew You Were Waiting (for Me)", em dueto com George Michael.

A designação como "Rainha da soul" chegou em 1968, durante um concerto em Chicago, quando lhe foi colocada uma coroa, um objecto que não lhe fez falta durante o resto da carreira no trono daquele género.

Com múltiplas canções nas listas das mais vendidas e ouvidas, incluindo no começo do século XXI, Franklin cantou pelo mundo fora e nas tomadas de posse dos presidentes Bill Clinton e Barack Obama, tendo sido condecorada pelo outro ocupante do cargo entre os dois democratas, George W. Bush.

Relutante com jornalistas e receosa de aviões (um artigo de 2011 no New York Times indicava que a cantora não punha pé no ar desde 1983), Aretha Franklin teve quatro filhos e, em 2017, anunciou que se ia retirar do mundo da música para dedicar mais tempo aos netos.


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