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FADOalado:

Lotações esgotadas e actuações memoráveis marcam passagem do agrupamento açoriano por Toronto

Por João Vicente

Sol Português

O agrupamento açoriano FADOalado esteve no passado fim-de-semana em Toronto onde deu dois espectáculos memoráveis, ambos com lotação esgotada e entusiástico acolhimento por parte do público, o primeiro na Casa dos Açores do Ontário (CAO), no sábado (11), e o segundo no domingo (12), na Casa do Alentejo de Toronto (CAT).

Fundado por duas irmã, Sara e Leandra Mota, os FADOalado surgem apoiados no "gosto pelo fado mas também de fazê-lo a vozes", explica à nossa reportagem a jovem Sara Mota, indicando que a elas se juntou inicialmente Filipa Lima e depois, em 2015, Lizélia Toste e Ivânia Pires.

Segundo a nossa interlocutora, as cinco cruzaram-se durante as festas de Carnaval desse ano e, como nos conta, constataram que "quando começávamos a cantar, aquilo funcionava".

Por trás do quinteto de vozes está um igual número de músicos, nomeadamente Tânia Gaspar no piano, Diogo Brasil na guitarra clássica, Ricardo Martins no bandolim, Bernardo Oliveira na percussão e Gonçalo Fonte no acordeão, e segundo Sara Mota a "química" entre os 10 elementos é o que faz com que o agrupamento funcione pois são acima de tudo amigos que gostam de estar juntos e de cantar em grupo.

Foi isso mesmo que as plateias na CAO e na CAT puderam testemunhar, com este grupo de dedicados jovens amadores a apresentarem espectáculos que mais pareciam realizados por consumados artistas.

Com profissões tão diversas como cabeleireira, terapeuta de fala e enfermeira, entre outras, a carreira do grupo na realidade "não é carreira, porque não somos profissionais disso", explica Sara Mota, indicando fazerem-no "por lazer e aproveitando o que a vida nos dá – só isso".

Ainda assim, e apesar da insularidade que os condiciona, conseguiram realizar em 2019 um total de 28 espectáculos nos Açores, Estados Unidos da América e em Portugal continental.

Diz-nos a co-fundadora que quando têm mais espectáculos ensaiam mais e aproveitam para descansar um pouco quando as coisas acalmam, mas, "em média, são talvez dois ensaios por semana, de quatro horas cada um", adiantando que "a gente trabalha a sério" porque gosta "de fazer bem feito".

Entretanto, apesar de terem o fado por base, o grupo tem vindo a criar também temas originais que Sara Mota nos enumera: "Abraça-me", "Terceira meu Fado", "Terra Mãe", "Dou Por Mim", "Portugal" e "Fado Alado", e está em preparação o lançamento de um álbum. possivelmente ainda em Abril, embora ressalve que é esse o objectivo, mas "às vezes não podemos prever" pois, como destaca, não é fácil conjugar todos os elementos, horários e carreiras.

Não há dúvida que os FADOalado são dedicados e esmeram-se na imagem, com as cantoras sempre em vestidos de gala, e Sara Mota sente que as pessoas da terra cada vez dão mais valor ao trabalho que apresentam e já deixaram de os ver "como uma brincadeira".

No entanto reconhece que um dos factores que mais limita o grupo é precisamente o facto de viverem numa ilha e condicionados a deslocaram-se de avião o que, para um conjunto de 10 pessoas, cria barreiras por vezes intransponíveis.

A assistir ao muito aplaudido espectáculo que os FADOalado realizaram na CAO encontrava-se Armando Viegas, confesso apreciador da canção nacional e activista comunitário que durante vários anos dirigiu a Casa do Alentejo de Toronto, onde levou a actuar vários fadistas de renome vindos de Portugal.

Ao intervalo, e em declarações ao jornal Sol Português, considerou o espectáculo a que ali se assistiu uma actuação "original" e "diferente", com todos os artistas a revelarem "uma capacidade extraordinária de fado".

Na sua avaliação, "são cinco fadistas que estão a pisar o palco, juntamente com cinco músicos, e qualquer destes 10 elementos tem uma capacidade enormíssima para cantar e tocar o fado", destacou Armando Viegas que confessou estar ali a assistir a "uma noite extraordinária".

Como ressalvou, "não sou açoriano mas estou a viver esta noite do fado da Terceira com uma vivacidade e com um amor extraordinário".

Também Tânia Ficher indicou ter gostado do espectáculo, sobretudo da música original dedicada à ilha Terceira, e resumiu o que sentia considerando-o "magnífico" e "maravilhoso" no seu todo.

"Nunca pensei que ia ser um concerto assim – é lindo, nunca pensei mesmo", destacou à nossa reportagem, declarando ter ficado "fã da forma como [as cantoras] abordam o fado" e que a sua "simpatia", "a maneira como cantam" e "a alegria delas, mete as pessoas alegres e a cantar – adoro", concluiu.

No que seria um serão altamente interactivo, os elementos do grupo aproveitaram um interregno no espectáculo para vender os seus CDs junto do público enquanto este saboreava o pão e enchidos que foram dados a degustar.

O momento incluiu ainda o leilão de um quadro pintado pela pianista Tânia Gaspar, seguindo-se a segunda parte do espectáculo que prolongou o serão praticamente até à uma hora da manhã.

Esta deslocação dos FADOalado ao Canadá foi, segundo apurámos, uma iniciativa de Sara e Marco Costa com o apoio da CAO, como confirmou à nossa reportagem a presidente da colectividade açoriana, Suzanne Cunha.

"[A Sara] foi de facto a impulsionadora, mas com a visão de fazer [um espectáculo] aqui na nossa casa, por isso estamos a trabalhar em conjunto", realçou a dirigente, que explicou que "as decisões foram feitas em conjunto, as marcações feitas por ela eram-me comunicadas a mim e vice-versa".

Foi uma colaboração em todos os sentidos – incluindo no facto das receitas serem repartidas para colmatar as despesas incorridas de parte a parte – e que Suzanne Cunha considera mais um exemplo da abertura da colectividade a sugestões e a trabalhar com terceiros com o objectivo de realizarem eventos merecedores.

"Mesmo que não seja jantar e baile mas seja outra coisa que vá reverter a favor da comunidade", incluindo "programas para seniores ou juventude", a CAO mostra-se receptiva, independentemente de serem iniciativas representativas das tradições dos Açores, da Madeira ou do Continente,

Entretanto, e segundo Sara Costa, que já no ano passado organizou o Convívio Praiense, também na CAO, a sua intenção é "trazer projectos de valor das ilhas até cá e divulgar a malta jovem que está lá e que tem muito talento".

Os contactos que estabeleceram permitiu que 60% da lotação fosse vendida antes ainda de ser noticiado o evento e os bilhetes colocados à venda ao público.

O único senão terá sido mesmo o mau tempo que se registou no sábado e que terá levado algumas pessoas que vinham de Cambridge, London, Montreal e de outras localidades mais distantes, a cancelar, mas ainda assim conseguiram recuperar e a casa esteve cheia, com cerca de três centenas de espectadores.

A propósito do grupo vindo de Portugal, Sara Costa explica que devido às danças e marchas de Carnaval se encontram muitos bons músicos e boas vozes na zona da cidade da Praia da Vitória e foi precisamente desse meio que surgiram os FADOalado.

No rescaldo dos espectáculos de sábado e domingo e após duas casas esgotadas e as reacções positivas do público, existe a esperança de parte a parte e da própria organização de um regresso do agrupamento ao Canadá num futuro próximo, algo que está ainda, porém, por firmar.

Entretanto, Sara Costa destaca que o próximo Convívio Praiense irá realizar-se no dia 19 de Abril na CAO, com a participação do presidente da Câmara da Praia da Vitória, Tibério Dinis, do presidente da Assembleia Municipal, Paulo Messias, e do vereador Tiago Ormonde, assim como a actuação da comédia "Cinco Padres, Meia Missa".


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